SÃO PAULO – Após uma disparada das ações dos grandes bancos em outubro (ainda que só parcialmente compensando a forte queda no ano) à espera dos resultados do terceiro trimestre, o primeiro resultado de uma grande instituição financeira brasileira foi divulgado. E, à primeira vista, surpreendeu mesmo os mais otimistas.

O Santander Brasil (SANB11) registrou lucro líquido gerencial, levando em conta os fatores recorrentes, de R$ 3,9 bilhões, superando as previsões dos analistas de R$ 2,9 bilhões, segundo o consenso Bloomberg, com alta de 5,3% na comparação com igual período de 2019. Já o retorno sobre o patrimônio líquido (ROE, na sigla em inglês) voltou para a casa dos 20%, mais precisamente a 21,2%, com a companhia mostrando resiliência e que o pior da crise já havia passado.

“No trimestre anterior, destacamos que o Santander Brasil estava reduzindo a distância para os seus pares do setor privado local, aumentando suas despesas de provisões e sua cobertura em meio à expectativa de maior inadimplência. Observamos, no entanto, que o Santander Brasil provavelmente ainda estaria atrás de seus pares locais em termos de lucros recuperáveis ​​nos trimestres que estariam por vir. Não poderíamos estar mais errados”, destaca a equipe de análise do Bradesco BBI em relatório.

Vale destacar que, no primeiro trimestre, o banco apresentou provisões para perdas com devedores duvidosos abaixo do esperado, o que foi compensado no período seguinte. Neste trimestre, a provisão voltou a cair.

Os analistas do BBI ressaltam ainda que o banco foi o primeiro a registrar resultado mostrando a sua volta a níveis pré-pandemia do coronavírus, muito à frente da expectativa anterior dos analistas. “Como parte do conglomerado espanhol, a abordagem de provisionar mais em um trimestre e, em seguida, cortar [as provisões] materialmente no seguinte deve ser considerada como parte de seu DNA agressivo. Embora os resultados devam ser claramente positivos para o case de investimentos, também deve ser uma leitura positiva para o setor como um todo, uma vez que deve apontar para onde os ganhos de curto prazo de outros bancos devem estar direcionados”, avaliam.

Eles também apontam que a receita de tarifas foi outro destaque, com melhora em todas as linhas, surpreendendo positivamente e com a expectativa de que a recuperação prossiga, provavelmente terminando o ano em um nível parecido com o de 2019 (queda de 3% a estabilidade). Além disso, aponta que a margem financeira do Santander segue sob pressão, mas que já começou a aparecer uma melhora no mix.

Para o Credit Suisse, a principal surpresa positiva foi com as despesas contra provedores duvidosos de R$ 2,9 bilhões, queda de 55% na base de comparação com o segundo trimestre. Além disso, as taxas de serviços também têm apresentado bom desempenho, recuperando-se aos níveis anteriores à crise. Por outro lado, a receita líquida de juros (ou NII, na sigla em inglês) foi mais fraca em uma base sequencial devido ao pior mix de empréstimos e menor contribuição dos resultados de tesouraria.

Na mesma linha, o Itaú BBA destacou que o Santander Brasil é o primeiro banco a reportar resultados do trimestre, mas provavelmente é o que apresentará os números mais sólidos, considerando a normalização do nível de provisões para créditos de liquidação duvidosa.

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Apesar dos elogios ao resultado do banco e a percepção de que o pior da crise realmente ficou para trás, a unit do Santander Brasil fechou em queda de 4,73% na sessão pós-resultado, a R$ 33,27, após chegar a subir 3,87% no início da sessão.

Apenas “subiu no boato, caiu no fato”?

Vale destacar que o mercado já antecipava resultados positivos para a instituição: no mês de outubro, a alta dos papéis até a sessão da última segunda-feira (26) era de 24,89%. Apenas nas últimas seis sessões, a valorização foi de 13,7%. Ou seja, movimento este que pode ser considerado como o tradicional “subiu no boato, caiu no fato”.

Os demais bancos, como Bradesco (BBDC3, R$ 20,10, -2,57%;BBDC4, R$ 22,26, -2,79%), Itaú (ITUB4, R$ 24,89, -2,85%) e Banco do Brasil (BBAS3, R$ 32,78, -2,15%) também viram seus papéis registrarem alta no início da sessão, mas amenizarem ao longo do dia e também fecharem em queda, acompanhando o movimento do Santander. No acumulado do mês até o dia 26, os papéis das demais instituições financeiras também acumulavam forte alta, de 13,97% para ITUB4, 17,98% para BBDC4 e 13,10% para BBAS3, em meio à expectativa por resultados positivos.

Porém, mais do que só os lucros sendo embolsados pelos investidores após o rali de outubro, o debate sobre as provisões do Santander segue no radar, conforme ressalta em relatório Marcel Campos, analista da XP Investimentos (veja na íntegra clicando aqui).

O analista ressalta que o Santander justificou o seu nível inferior de provisões ao apontar que melhorou os seus modelos, concessões de crédito (que não devem ser representativas) e recuperações de crédito. O banco ressaltou ainda o seu alto índice de cobertura – relação entre empréstimos inadimplentes e provisões – de 307%, ante dado de 272% no segundo trimestre.

O banco aumentou o seu custo de crédito apenas 3% na base anual, enquanto a carteira de crédito aumentou 21% no mesmo período, tornando as provisões do trimestre inferiores a 2019, que foi um ano em termos de qualidade dos ativos estruturalmente melhor, aponta Campos.

Além disso, como a inadimplência no trimestre está artificialmente baixa [em meio aos programas de renegociação de dívida com o auxílio emergencial], o analista avalia que a inadimplência acima de 90 dias deve ser pelo menos tão alta quanto em 2019.

Assim, o índice de cobertura do Santander hoje seria de 210% se simular um índice de inadimplência do terceiro trimestre de 2019 (3,0%) na carteira de hoje.

“Esse é um índice que não nos sentimos confortáveis dado o pico de inadimplência que deve ocorrer no início de 2021, dado que o banco tem uma carteira majoritária de crédito de varejo com garantias não tão fortes em financiamento de veículos”, avalia o analista.

Ele ainda acredita que o alinhamento de interesses pode ser questionado pelos investidores, uma vez que o controlador espanhol poderia ter influenciado na decisão sobre o nível de provisionamento visando um payout – porcentagem do lucro líquido distribuído – maior. Com isso, a XP segue com recomendação neutra para o papel, com preço-alvo de R$ 32, o que configura uma queda de 8,36% em relação ao último fechamento.

Vale destacar que o índice de inadimplência de 15 a 90 dias do Santander Brasil aumentou 0,4 ponto percentual, para 3,1%, principalmente por causa do comportamento do segmento pessoa física, embora o indicador acima de 90 dias tenha caído ligeiramente (0,3 ponto percentual, para 2,1%). Assim, já há os primeiros sinais de que os consumidores estão com dificuldade para pagar dívidas depois que a carência dada pelo banco em meio à pandemia acabou.

Contudo, durante teleconferência com investidores, Angel Santodomingo, vice-presidente financeiro, afirmou ser improvável que o banco tenha de fazer novas rodadas de provisões extraordinárias para lidar com a pandemia de coronavírus.

De acordo com Santodomingo, os níveis de provisão atuais são adequados. “A força do nosso balanço está aí”, disse ele, afirmando que o banco tem trabalhado para prever quais clientes podem enfrentar problemas no pagamento de dívidas para oferecer novos prazos de pagamento ou empréstimos mais baratos.

Com menores provisões, o banco está mais exposto a empréstimos ao consumidor do que seus pares do setor privado, mas provisionou menos que seus rivais.

Para analistas do banco Morgan Stanley, o “cobertor” do Santander para um eventual aumento de calotes entre o fim deste ano e o início de 2021 está curto em relação ao cuidado dos outros bancos.

Os analistas Jorge Kuri, Jorge Echeverria, Eugenia Sanchez e Alexandre Namioka, dos times do Morgan nos Estados Unidos e do Brasil, disseram, em relatório: “O risco do Santander é que sua taxa de reservas ainda está bem abaixo dos pares, em 6,3% neste trimestre, versus uma média de 8% nos pares.”

Apesar de o banco dizer o contrário, eles não descartam que o Santander tenha de elevar provisões no futuro: “A taxa estendida de cobertura está em apenas 80%, versus uma média de 120% dos pares. É possível que o Santander tenha de voltar a fazer grandes provisões no quarto trimestre deste ano ou no primeiro trimestre de 2021.”

Reavaliação dos múltiplos no radar

Campos, da XP, ponderou que, embora considere que as provisões do Santander ainda não estão normalizadas, agora é possível ter mais visibilidade sobre uma possível redução sequencial dos níveis de provisionamento para os bancos incumbentes, o que deve aumentar o potencial para os bancos brasileiros e possíveis reavaliações de múltiplos.

O Credit Suisse também aponta que, embora o impacto geral na qualidade dos ativos só deva ser mais visível nos próximos trimestres, com os empréstimos renegociados retornando ao cronograma normal de pagamentos juntamente com os impactos potenciais do fim do auxílio emergencial,  a expectativa do banco suíço é de que a qualidade dos ativos deva ser mais positiva do que o esperado anteriormente, mais precisamente no início da pandemia. A recomendação do Credit para os ativos SANB11 é outperform (desempenho acima da média do mercado), com preço-alvo de R$ 36 (upside de 3,09% em relação ao último fechamento).

Mas, além das provisões, outras questões também estão no radar do mercado. O Santander está reduzindo sua operação, como apresentado pela redução de 1.201 funcionários no trimestre para 45.147, e pelo número de agências também reduzindo em 41, para 2.168. “Acreditamos que o movimento deve continuar nos próximos trimestres à medida que os bancos estão reduzindo sua operação física”, avalia Campos, da XP.

A Levante ressalta que o Santander manteve um bom ritmo no crescimento da sua carteira de crédito, especialmente pequenas e médias empresas.

Por outro lado, o banco continua a sofrer com o aumento da concorrência de fintechs, corretoras e bancos digitais, umas das principais razões para a redução na sua receita de tarifas e serviços no acumulado de 9 meses. Outro ponto ressaltado pela casa de research é de que a divisão de cartões e adquirência (Getnet) que enfrenta a “guerra das maquininhas” apresentou queda de 12,2% na receita nos primeiros nove meses de 2020, comparando com o mesmo período do ano passado. Além disso,  chamou a atenção as despesas administrativas: crescimento de 5,4% em relação ao segundo trimestre de 2020.

Já o índice de Basileia de melhor qualidade (CET1) continua em um patamar confortável de 14,9%, mostrando a eficiência na alocação de capital ponderada pelo risco e sem a futura necessidade de aumento de capital, o que implicaria em diluição dos acionistas e menor ROE.

Outras questões, como o aumento da concorrência, o impacto do open banking e novo sistema de pagamentos PIX e o possível aumento de impostos a ser discutido no Congresso – e que vêm levando  à forte queda das ações do setor bancário no ano, entre 25% e 35% – também seguem sendo monitoradas de perto pelos investidores.

Desta forma, apesar da resiliência do setor e a expectativa de que os bons resultados do terceiro trimestre prossigam, ainda há muitas incertezas no radar, o que também motiva a queda das ações do setor após a recuperação expressiva no mês.

Neste cenário, de acordo com compilação feita pela Refinitiv com casas de análise, de 13 casas que cobrem as units do Santander, 5 recomendam compra, enquanto 7 possuem recomendação neutra e 1 de venda. Para o Itaú, há 8 recomendações de compra e 6 neutra e para Bradesco (PN) e Banco do Brasil, as recomendações são 12 e 11 de compra e 2 e 3 neutra, respectivamente. A XP, por exemplo, destaca a ação do Santander Brasil como a “menos preferida” entre os quatro grandes bancos, avaliando o múltiplo como caro e carteira arriscada, o que não agrada em ambiente de crise, e ressaltando preferência pelo BB.

O setor mostrou sua força, mas ainda há muitos desafios no radar. Com isso, após a forte alta recente dos ativos, inclusive acima dos bancos em geral, as units do Santander Brasil registram um desempenho abaixo dos seus pares na sessão.

(Com Agência Estado)

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