SÃO PAULO – Mais uma vez, a inflação surpreendeu para cima no Brasil. O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) registrou alta de 0,94% em outubro, após ter avançado 0,45% em setembro, informou nesta sexta-feira o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). É a maior alta para meses de outubro desde 1995, quando o IPCA-15 havia saltado 1,34% e superou as estimativas de alta de 0,83% do consenso Bloomberg.

O indicador apresentou variação positiva de 3,55% nos últimos doze meses. No mês, o destaque ficou com as pressões de alimentos no domicílio (com alta de 2,95%) e passagens aéreas. Arroz, carnes e passagens aéreas foram os principais destaques de alta e educação foi o único setor que apresentou descompressão no mês.

Os núcleos (que buscam desconsiderar distúrbios resultantes de choques temporários) também aceleraram: a média passou de uma elevação de 0,28% no IPCA fechado de setembro para outra de 0,57% nessa divulgação. Com isso, os principais contratos de juros futuros tiveram alta na sessão.

Após o dado, algumas casas de análise revisaram as expectativas para a inflação para cima e também apontaram o que esperar para a política monetária daqui para frente.

Foi o caso da XP Investimentos, que destacou que a intensificação da pressão nos preços dos alimentos levou à mudança na projeção do IPCA de 2020 de 3,1% para 3,25%.

“Para 2021, o cenário é incerto e os aumentos persistentes dos preços das commodities e a incerteza com relação à saída da crise epidemiológica podem pressionar o IPCA para além dos 3,0% (a nossa projeção atual é de 2,6%)”, avalia Lisandra Barbero, economista da XP que assina o relatório (veja mais clicando aqui).

Contudo, considerando que as pressões nos preços estão sendo causadas fundamentalmente por movimentos muito peculiares da pandemia (que devem se dissipar ao longo de 2021 e 2022) e dada a ociosidade bastante elevada da economia para os próximos anos (a projeção da XP é de taxa de desemprego de 15,5% em 2020 e 14,5% em 2021), a tendência subjacente de inflação deve seguir baixa, avalia.

O Bradesco BBI reforça que, desta vez, o vilão do resultado não foi apenas a inflação de alimentos, mas também a natureza generalizada do aumento. “A desvalorização do real e a alta dos preços das commodities, aliados ao descompasso na cadeia produtiva e à retomada da atividade econômica mais forte do que o esperado, foram os principais motivos das recentes pressões inflacionárias. A nosso ver, o IPCA deve continuar refletindo esse ambiente até o final do ano. Em relação a 2021, o fim do estímulo governamental provavelmente apresentará alguns impactos negativos na atividade e na inflação”.

Com isso, os economistas do BBI revisaram a projeção para o IPCA do ano de 2020 de 2,6% para alta de 3,0%, enquanto mantiveram a projeção para o ano que vem de alta de 3,5%.

Mariana Guarino, gestora da Truxt Investimentos, também ressaltou que a surpresa da inflação foi “espalhada”, com núcleos em alta e grande pressão em bens e serviços, que reverteram com mais força a queda registrada anteriormente. Conforme avaliou a gestora para a Bloomberg, isso pode ter impacto no próximo encontro do Comitê de Política Monetária (Copom), que acontecerá entre terça (27) e quarta (28) da semana que vem. “O Copom deveria ajustar sua análise sobre a inflação”, avaliou.

O Morgan Stanley, por sua vez, ressalta esperar que as pressões sobre os preços dos alimentos e o aumento do núcleo da inflação sejam temporários, à medida que as condições de oferta e demanda se normalizam e devido a um grande hiato negativo do PIB – ou seja, quando a economia opera com ociosidade dos fatores produtivos.

“A inflação provavelmente não será uma preocupação para o Banco Central no curto prazo; as preocupações com a dinâmica fiscal estarão no centro do debate. Quaisquer indícios de que a principal âncora fiscal do país [teto de gastos] não será respeitada pode colocar em risco a estabilidade financeira, com o câmbio se depreciando ainda mais e a inflação acelerando, o que seria uma receita para aumentar as taxas de juros”, avaliam os economistas do banco.

A Capital Economics reforça ser provável que, pelo fato de haver um aumento contínuo dos preços dos alimentos, a inflação deve se manter em alta nos próximos meses. Contudo, o núcleo da inflação ainda parece baixo (apesar da alta recente), o que deve permitir que o Banco Central mantenha a Selic em sua mínima histórica de 2% – para os economistas da Capital Economics, a taxa ficará nesse patamar até 2022, em contraste com o consenso de mercado, que já prevê alta no próximo ano.

“Duvidamos que esses dados tenham grande influência na decisão do Copom da próxima semana (…). O BC fez, até agora, pouca (ou nenhuma) menção à alta da inflação dos alimentos e suspeitamos que o tom das comunicações que as acompanham permanecerá assim sobre esse tema”, avaliam.

Para o Itaú, na próxima reunião, o Copom deve alterar as projeções para a inflação no cenário básico – com a projeção passando de 2,1% para 2,8% em 2020 e de 2,9% para 3% em 2021, permanecendo em 3,3% para 2022.

Os economistas do banco, que também esperam manutenção da taxa, destacam que a percepção é consistente com comunicações recentes, como a ata da última reunião, que não trouxe mudanças significativas de tom em relação ao documento anterior.

“As declarações dos membros do comitê nas últimas semanas, transmitindo que o uso do forward guidance [usar as expectativas ao máximo, olhando para as projeções de inflação tanto para 2021 quanto para 2022, um horizonte mais longo] como um instrumento de política monetária seria abandonado em caso de deterioração das perspectivas fiscais são importantes e destacam as condicionalidades do comitê. No entanto, tais sinais não devem levar a uma mudança na postura da política monetária visto que não houve, pelo menos até o momento, uma mudança clara no regime fiscal. Com isso, esperamos que o Copom mantenha o forward guidance como está, mas com a indicação de que suas condicionalidades serão constantemente reavaliadas”, avaliam.

Assim, permanece válido que a estabilidade da taxa básica de juros é justificada por expectativas de inflação ancoradas e por estimativas de inflação abaixo da meta no horizonte relevante para a política monetária. Elas acabam por compensar a assimetria no balanço de riscos decorrente das incertezas fiscais, preocupações com questões prudenciais e riscos para a estabilidade financeira resultantes de taxas de juros historicamente baixas.

“Nosso cenário básico segue consistente com a manutenção da taxa Selic por um longo período em patamar extraordinariamente estimulativo. (…) Ressaltamos, porém, que tal avaliação, conforme projeção do Copom, está condicionada à manutenção da sustentabilidade das contas públicas. Nesse sentido, para as próximas decisões será particularmente importante acompanhar as discussões sobre a evolução do gasto público nos próximos anos”, reforça o Itaú.

Assim, a questão fiscal – e não a alta da inflação – segue sendo o principal condutor da política monetária, na avaliação dos economistas. Caso haja alguma deterioração da perspectiva fiscal, contudo, ela pode gerar ainda maior pressão sobre os preços, o que poderia mudar as indicações da autoridade monetária.

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