Hand is turning a dice and changes the direction of an arrow symbolizing that the interest rates are going down (or vice versa)

SÃO PAULO – O ano de 2020 vai ficar marcado como um dos mais atípicos da história recente, com as empresas tendo que se adaptar em meio à crise do novo coronavírus e alguns setores sendo impactados de forma bastante negativa (como o caso do setor de turismo e aéreo).

Mas, além do cenário macro que impediu um avanço mais forte do mercado acionário no ano (com o Ibovespa acumulando alta de pouco menos de 3% no período), algumas ações decepcionaram por conta de notícias envolvendo a atuação das próprias companhias, apesar da grande expectativa por algumas delas em 2021.

Por outro lado, nem tudo é história triste na Bolsa, ainda mais em um ano em que o Ibovespa conseguiu fechar com ganhos, a despeito da forte turbulência registrada, principalmente a partir de março, por conta da pandemia (ainda que, vale fazer a ressalva, muitos desses papéis foram alvos de movimentos especulativos).

Abaixo, estão reunidas algumas histórias de destaque na Bolsa em 2020, tanto para o lado positivo quando para o negativo. Alguns ativos dominaram o noticiário durante o ano, enquanto outros passaram quase desapercebidos, mas que ganham destaque ao olhar o desempenho acumulado de 2020. Confira:

IRB e Cogna: da expectativa positiva à decepção em 2020

Como destaque negativo entre as maiores decepções dos investidores, estão os papéis do IRB (IRBR3, R$ 8,18, -76,88%), que tiveram uma reviravolta no começo de 2020 e, apesar da recuperação recente (apenas em dezembro, os ativos IRBR3 subiram 23,38% e avançaram 53,54% em relação à mínima do ano, de R$ 5,33), a queda no ano foi de 76,88%.

No começo do ano, tudo caminhava para ser um 2020 bastante positivo para o IRB, com a expectativa de que a companhia de resseguros visse seu crescimento de prêmio continuando a subir, além de aumentar a sua participação no mercado na América do Sul. Vale ressaltar que os resultados da companhia já eram muito acima da média do setor, conforme destacado nessa coluna do Stock Pickers: o ROE (Retorno sobre o Patrimônio Líquido, calculado pela equação “Lucro Líquido/Patrimônio Líquido”) médio do IRB girava em torno de 40% a 45%, enquanto o resto do mundo entrega um ROE entre 10% a 15% na média. O resultado era reflexo de um crescimento dos prêmios consistentemente acima do crescimento dos sinistros.

Porém, desde o início de fevereiro, a tese de investimentos mudou totalmente para a companhia. No primeiro domingo daquele mês a Squadra, uma das mais tradicionais gestoras de ações do Brasil, publicou uma extensa carta (de 184 páginas, mais precisamente) apontando uma série de “inconsistências” no balanço do IRB, gerando muita repercussão entre os investidores. Três semanas depois, um novo documento da gestora foi publicado após o IRB rebater os pontos destacados pela Squadra. Entre as acusações, estavam a de avaliações otimistas da sinistralidade e venda de participação em ativos “non-core” sem detalhamento, que teriam impulsionado o lucro do IRB.

Mas esse foi apenas o começo: em março, ganhou destaque ainda a polêmica após a notícia enganosa de que Warren Buffett teria comprado ações da companhia, negado posteriormente pela Berkshire Hathaway, do megainvestidor americano. Com isso, muitas casas interromperam a sua cobertura para o ativo, esperando maior visibilidade sobre os verdadeiros números da empresa e também sinais da nova gestão, uma vez que os principais comandantes haviam saído em meio aos escândalos (veja mais clicando aqui).

Conforme uma nova gestão assumiu e os números da companhia foram revisados, a cobertura começou a ser retomada por algumas casas de análise, como foi o caso do UBS BB em outubro, ainda que levando a um brutal reajuste de estimativas, com corte da recomendação e no preço-alvo. Essa retomada deu dois sinais para o mercado: um positivo e outro negativo. Ao mesmo tempo que mostra uma confiança maior na atual gestão da companhia depois de meses turbulentos, também indica que o IRB terá um longuíssimo caminho para percorrer.

Os números divulgados pela companhia nos últimos meses sinalizam uma recuperação. Na sessão da última segunda-feira, a ação subiu 12% após a resseguradora apresentar dados mensais que mostraram prejuízo de R$ 23,8 milhões em outubro, mas lucro líquido de R$ 110,3 milhões se excluídos efeitos não recorrentes. Contudo, o cenário segue sendo de cautela para a companhia: de acordo com compilação feita pela Refinitiv, de 8 casas de análise que cobrem o papel, 4 têm recomendação neutra e 4 de venda.

A segunda maior queda do Ibovespa também foi de uma história na Bolsa que prometia muito, mas que acabou entregando pouco para o investidor: trata-se da companhia de educação Cogna (COGN3, R$ 4,63, -59,49%), dona da marca Kroton (aliás, como ela se chamava antes na B3).

Após uma forte queda durante o auge da aversão ao risco do mercado com a pandemia do coronavírus (entre 21 de fevereiro e 2 de julho, os papéis COGN3 caíram 37,38%, enquanto o Ibovespa caiu 15,35%), nos pregões de 2 a 30 de julho os papéis tiveram um verdadeiro salto, de 36,71%, enquanto o principal índice da Bolsa teve ganhos de 9,12% no mesmo período.

Os resultados do primeiro trimestre apresentados pela companhia até então não tinham agradado os investidores, uma vez que já mostraram o impacto da pandemia nos números – com pressão nos processos de captação de alunos deste primeiro semestre e potenciais efeitos negativos nos indicadores de evasão e inadimplência. Porém, um grande catalisador para os ativos no mês de julho foi a expectativa de abertura de capital da subsidiária Vasta na Nasdaq, cujo registro foi formalizado no dia 6 de julho.

O foco de atuação da Vasta é fornecer sistemas de ensino e serviços para escolas de educação básica e, com o dinheiro captado através do IPO, a expectativa era de que ocorresse o repagamento de dívidas com a holding enquanto o restante dos recursos seria usado para financiar futuras aquisições. E, de forma a alavancar os ganhos, apostando na alta dos ativos, muitos investidores também ingressaram no mercado de opções.

Porém, desde a sessão anterior à estreia da Vasta na Nasdaq, em 31 de julho (uma primeira sessão bastante turbulenta, por sinal), até o último pregão do ano, os papéis da Cogna tiveram baixa de 44%, enquanto o Ibovespa subiu 13,34%. Isso indicou que, apesar do negócio da Vasta empolgar os investidores, muitos deles passaram a realizar os lucros após a conclusão da operação de abertura de capital.

E, mais do que isso, olhar para os números consolidados da Cogna, que ainda passa por um processo desafiador, principalmente com relação à operação de ensino superior com a Kroton, ao mesmo tempo que tem que lidar com o alto endividamento. A companhia anunciou reestruturação, mas analistas seguem cautelosos com o papel COGN3.

“No geral, esperamos que os resultados da Cogna sofram pressão no curto prazo, já que a empresa tem o ajuste de sua base de alunos no campus enquanto a provisão para devedores duvidosos deve permanecer em um nível alto para 2021″, avaliam os analistas do Bradesco BBI.

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PetroRio: alta de mais de 100% em um ano difícil para o petróleo

Em um ano bastante turbulento para o mercado de petróleo, entre guerra de preços entre integrantes da Organização dos Países Exportadores de Petróleo e aliados (Opep+) e a queda da demanda pela commodity com a pandemia, é surpreendente que a ação de uma petroleira, que estreou no Ibovespa em setembro, registrasse um desempenho tão satisfatório.

Mas foi o que aconteceu com a PetroRio (PRIO3, R$ 70,19, +112,31%), que viu a sua ação saltar mais de 100% em 2020. O desempenho foi particularmente surpreendente nos meses de novembro, quando subiu mais de 60%, e de dezembro, quando saltou quase 40%.

A companhia teve um forte desempenho no período, impulsionada principalmente pela aquisição de dois novos campos (Wahoo e Itaipu), marcando a entrada da PetroRio no pré-sal, fato que mostra potencial para destravar muito valor futuro para a empresa. Em dezembro, a companhia anunciou ainda estudar oferta de ações, uma vez que tira a incerteza sobre qual será a fonte de recursos para a compra dos campos.

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Os analistas da Levante Ideias de Investimentos destacam que a companhia pode ter visto o atual momento como propício para o follow-on em meio à retomada dos preços de petróleo para patamares pré-covid.

“Essa retomada pode incentivar os investidores a enxergarem um cenário menos arriscado para o setor petroleiro, o que levaria a um aumento de demanda pelas ações da companhia. Além disso, a realização do follow-on será direcionada ao financiamento dos campos adquiridos da BP e sinaliza oportunidades adicionais de crescimento projetadas pela PetroRio”, apontam os analistas.

Oi e Eternit: saindo da recuperação judicial?

Fora do Ibovespa, quem merece uma menção especial é a Oi (OIBR3, R$ 2,20, +155,81%; OIBR4, R$ 2,82, +159,81%), que desafiou muitos céticos e viu suas ações mais do que dobrarem de valor em 2020 e, mais do que isso, chamar muito a atenção do mercado em meio ao seu plano de reestruturação, que inclui o foco em fibra ótica para residências e leilões de venda de ativos.

No último dia 14 de dezembro, a companhia deu um importante passo para sair da recuperação judicial – processo que entrou em junho de 2016, com uma dívida de R$ 64 bilhões – ao vender a sua área de ativos móveis para o consórcio formado por Vivo (VIVT3), TIM (TIMS3) e Claro por um valor de R$ 16,5 bilhões.

A Oi reformulou seu plano de recuperação judicial neste ano, que foi aprovado pelos credores em setembro e homologado pelo juiz que cuida da RJ em outubro. A espinha dorsal do novo plano é justamente o leilão de ativos, de onde deve vir o caixa para pagar os credores. Para executar a tarefa, o plano dividiu a Oi em cinco partes, chamadas de Unidades Produtivas Isoladas (UPIs): telefonia móvel (Oi móvel); torres; infraestrutura (ou InfraCo, que inclui a operação de fibra óptica); TV por assinatura; e data centers.

O primeiro leilão, das torres e data centers, aconteceu no dia 26 de novembro e levantou R$ 1,4 bilhão. O segundo leilão foi o da telefonia móvel. Para a área InfraCo, a empresa espera que a fase de recebimento de propostas vinculantes deva ocorrer em janeiro de 2021, visto que o processo encontra-se em fase de due diligence (auditoria legal). Com relação à TV com assinatura, empresas como a Sky e a Claro estudam disputar o ativo, mostrando continuidade no processo para que a companhia saia da recuperação judicial.

A fibra óptica é a menina dos olhos da Oi. Diferentemente dos serviços de telefonia móvel, alvo de constantes críticas de clientes, a fibra óptica residencial (mercado conhecido como fiber to the home, ou FTTH) é a operação hoje mais rentável e promissora da operadora.

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Em dezembro, o Bradesco BBI reiterou a visão positiva para as empresas de telecomunicações, reforçando a Oi como a principal escolha do setor no Brasil e elevando o preço-alvo de R$ 3,10 para R$ 3,40 para os papéis OIBR3 para o final de 2021, o que configura um potencial de valorização de 54,55% em relação ao fechamento de 2020.

Para a equipe de análise do BBI, ainda há espaço para ganhos, destacando o valuation atrativo, a competição mais racional, os gatilhos de curto prazo (como a venda de ativos móveis) entre outros. Os analistas destacam ainda o forte avanço no segmento de fibra óptica residencial, no qual a Oi já é líder em 13 capitais.

Também evoluindo em meio ao seu processo de recuperação judicial, iniciada em 2018, mas com um destaque bem menor no noticiário do mercado, esteve a ação da tradicional fabricante de telhas Eternit (ETER3, R$ 12,65, +216,22%) que, mesmo com uma queda de 14% no último mês do ano, conseguiu fechar o ano com alta superior a 200%.

A companhia deixou as operações controversas com amianto para trás, fez a venda da sua operação de louças e metais sanitários. No momento, ela se dedica à telha fotovoltaica, com captação de luz solar para produzir energia elétrica, caminhando no seu processo de reestruturação.

Em novembro, a companhia antecipou parte dos pagamentos aos credores e ainda possui imóveis, cuja venda mais do que compensa as suas dívidas dentro do plano de recuperação judicial. “Nossa recuperação está encaminhada e pode ser concluída até o fim de 2021”, destacou Luís Augusto Barbosa, presidente da empresa, em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

OSX e MMX: empresas ressurgem na Bolsa, mas cautela é a palavra de ordem

Por fim, entre as surpresas, mas neste caso mais controversas, estiveram os papéis do grupo EBX, de Eike Batista, mais precisamente os ativos da MMX Mineração (MMXM3, R$ 17,00, +566,67%) e OSX Brasil (OSXB3, R$ 20,28, +520,18%), que saltaram mais de 500% no ano apesar das diversas questões envolvendo as companhias.

A alta dos papéis ganhou destaque principalmente no mês de outubro, com a informação da MMX em 30 de setembro de 2020, em fato relevante, de que havia protocolado uma petição junto ao juízo de sua recuperação judicial, buscando recuperar o ativo Mina Emma, localiza em Corumbá e que foi oferecido aos credores na recuperação judicial. Segundo a companhia destacou no documento, a exploração “poderia ser de grande relevância econômica”.

Com isso, os investidores se animaram, uma vez que que a mineradora está em recuperação judicial há quatro anos e sem operação. Porém, o pedido foi contestado, em nota em meados de outubro, pela Vetorial Energia, que apontou que detém legalmente a posse direta e exclusiva de toda a lavra da Mina Lais e da Mina Emma, afirmando que não havia razões para especulações como as feitas pela MMX.

No dia 25 de novembro a MMX publicou um fato relevante para comunicar os acionistas sobre o fato de ter reavido na justiça os direitos de exploração da Mina Emma. Contudo, no dia 2 de dezembro, a 6ª Câmara Cível do Estado do Rio de Janeiro anulou a decisão favorável à MMX em relação ao direito de exploração. A novidade não foi comunicada de imediato aos investidores, com a má notícia para a empresa X só sendo matéria de comunicado no dia 8.

Em meio a tantas notícias desencontradas e grandes especulações sobre a companhia, a volatilidade para os papéis foi destaque no último trimestre, não sendo raros os dias que as ações subiam na casa dos três dígitos (no dia 7 de outubro, por exemplo, a alta foi de 225%), para depois perderem metade do valor de mercado em apenas uma sessão (no dia 14 de outubro, os papéis caíram 52,78%).

O noticiário para a OSX não foi muito diferente, com a volatilidade ditando o movimento das ações nos últimos três meses do ano. Neste contexto, surpreendeu ainda mais o mercado a notícia, do dia 24 de novembro, de que havia sido encerrado o processo de recuperação judicial da empresa de construção naval, fazendo com que os ativos saltassem 157% em apenas uma sessão (do dia 25).

A OSX fez seu IPO em 2010, levantando R$ 2,8 bilhões, mas passou por uma crise anos depois, junto com a derrocada do império X. O processo de recuperação já durava mais de seis anos na 3ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro.

Apesar da forte alta dos papéis poder encher o olho dos investidores em um primeiro momento, a cautela predomina no mercado quando o assunto é o conglomerado de ações “X”.

No final de novembro, após o anúncio da saída da OSX do processo de RJ, Alex Agostini, economista-chefe da Austin Rating, destacou ao InfoMoney que a notícia mostra que a empresa cumpriu o plano. Contudo, não necessariamente a OSX será uma empresa rentável. Ela ainda conta com problemas adicionais como o risco de imagem, uma vez que o seu acionista majoritário é Eike, que enfrenta problemas na Justiça.

O empresário já foi condenado por corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa por suposta propina de US$ 16,5 milhões paga a Sérgio Cabral, ex-governador do Rio de Janeiro. Além disso, ele também foi condenado por crimes cometidos contra o mercado de capitais entre 2010 e 2013, uma vez que teria divulgado informações falsas relacionadas à petrolífera do grupo, a OGX, e utilizado informações privilegiadas (o chamado insider trading) na venda de ações da OSX.

Além disso, a empresa não deu maiores detalhes no fato relevante em que falou sobre a saída da recuperação judicial sobre os plano daqui em diante.

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