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SÃO PAULO – Após um segundo trimestre de 2020 desafiador para as empresas por conta do auge das medidas de isolamento social em meio à pandemia do novo coronavírus, a expectativa era de que o terceiro trimestre fosse de melhora para as companhias que fazem parte da B3.

Vale ressaltar que o PIB brasileiro caiu 9,7% no segundo trimestre (na comparação com os primeiros três meses de 2020) e os resultados das empresas na temporada passada refletiram o impacto da pandemia, ainda que os números surpreendessem positivamente o mercado. Com a progressiva abertura da economia e a melhora nos indicadores econômicos, essa melhora vem sendo mostrada nos resultados na base sequencial, ainda que mais fracos do que na comparação com o terceiro trimestre de 2019.

Conforme destaca a XP Investimentos, o consenso de analistas consultados pela Bloomberg esperava uma queda de 15% do lucro antes juros, impostos, depreciações e amortizações (Ebitda) para as companhias do Ibovespa entre julho e setembro frente igual período do ano passado , além de uma queda de 60% no lucro líquido.

As companhias, em sua maior parte, não decepcionaram, pelo contrário, ainda que as expectativas estivessem mais altas para elas. Com todas as empresas do Ibovespa tendo reportado os resultados do terceiro trimestre, os resultados de lucro e Ebitda de 48% delas superaram o consenso médio do mercado, enquanto 30% foram em linha com as estimativas e 22% foram abaixo, de acordo com projeções da Bloomberg. Segundo estimativas dos analistas da XP, 65% reportaram resultados acima, 30% em linha e 5% foram abaixo do esperado.

“Os números reportados pelas empresas superaram nossas expectativas, fazendo-nos acreditar que o pior em relação aos impactos frente à pandemia ficou para trás”, destacaram em relatório Fernando Ferreira, estrategista-chefe, e Marcella Ungaretti, analista de ESG da XP.

 

Em destaque entre os números, ainda que não mostrando uma total recuperação da crise, blue chips como Petrobras (PETR3;PETR4) surpreenderam positivamente – no caso da petroleira, mais uma vez chamou a atenção do mercado o corte de custos da e a queda no custo de extração de petróleo do pré-sal. Isso em um cenário em que os preços do petróleo Brent foram em média de US$ 43 o barril, o que demostra a maior resiliência da companhia à menores preços da commodity.

Chamou a atenção, para a Petrobras, a geração de caixa, convertendo US$ 5,5 bilhões de dívida líquida em patrimônio líquido. “Este foi um feito particularmente impressionante, dado o profundo impacto que a covid-19 teve no setor do petróleo”, apontaram os analistas do Credit Suisse.

Também entre as empresas de commodities, Vale (VALE3) e siderúrgicas se beneficiaram do melhor cenário para o aumento de preços de minério e com o reajuste das cotações do aço, tanto com a retomada da indústria local quanto com as exportações.

De acordo com a XP, em uma perspectiva setorial, o grande destaque do trimestre foi mesmo o mineração e siderurgia, com 100% das empresas de cobertura da casa reportando resultados acima do esperado.

“Além do efeito positivo frente à alta do dólar no período, a retomada da atividade industrial, da construção civil e do setor automotivo devido ao aquecimento da economia após os impactos da pandemia impulsionaram os resultados das siderúrgicas, enquanto o preço de minério de ferro e o volume de vendas foram os grandes destaques no caso da Vale”, avaliam.

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Até para segmentos em que não havia grandes expectativas, caso de papel e celulose com Suzano (SUZB3) e Klabin (KLBN11), os números apresentados surpreenderam positivamente. Para a Klabin, o principal destaque foi o volume de papel comercializado e com os preços se recuperando no final do trimestre. Já o preço da celulose ajudou a Suzano a reportar resultados impressionantes, segundo as palavras do Credit.

Também apontando para recuperação, esteve o setor bancário: Bradesco (BBDC4), Banco do Brasil (BBAS3), Santander Brasil (SANB11) e Itaú (ITUB4) lucraram, conjuntamente, cerca de R$ 17,4 bilhões, alta de 28% na comparação trimestral, ainda que com baixa de 20,6% na base anual, em meio a uma menor provisão com perdas após um período em que os bancos tiveram que constituir um enorme colchão de liquidez para se proteger de eventuais calotes (veja mais aqui).

Setores ainda impactados pelo coronavírus

Também fortemente impactadas pela pandemia, as varejistas de moda seguiram sentindo os efeitos dos fechamentos de lojas no terceiro trimestre, ainda que em menor grau, caso de Renner (LREN3), Cia. Hering (HGTX3) e Guararapes (GUAR3). A Renner, por exemplo, destacou que o terceiro trimestre começou com 31% das lojas ainda fechadas. Já no final de agosto, 100% das unidades já estavam operando, mas com restrições de quantidades de dias, horas de operação, acesso aos provadores e a manutenção das regras de distanciamento social.

Se, por um lado, as restrições, somadas ao comportamento do consumidor inseguro quanto à circulação em espaços públicos, resultaram em um fluxo abaixo do normal, por outro houve maior conversão e número de peças por sacola, destacou a companhia.

A XP Investimentos destacou ainda que a coleção primavera-verão ficou disponível nas lojas antes do que a concorrência no quarto trimestre, levando a empresa a ter uma performance superior ao setor em outubro, o que é visto como uma indicação positiva para os resultados do quarto trimestre.

Na mesma linha, os shoppings, ainda que bastante afetados pelas políticas de distanciamento social e restrições de horário de funcionamento, voltaram a se aproximar de uma normalização após o tombo das vendas no segundo trimestre, quando ficaram fechados por praticamente todo o período. O Iguatemi (IGTA3), por exemplo, registrou entre julho e setembro deste ano 77% das vendas do terceiro trimestre de 2019.

Para a XP, o destaque positivo ficou para a Multiplan (MULT3), que reportou números melhores do que o esperado, uma vez que seus shoppings foram gradativamente autorizados a reabrirem e aumentarem sua capacidade operacional (número de horas aberto), o que refletiu na melhora das vendas dos lojistas no trimestre.

As empresas de educação, também bastante impactadas pela crise do coronavírus, notoriamente as com grande participação no ensino presencial, também viram seus resultados pressionados no terceiro trimestre, mas também sugerindo que o pior já passou, na avaliação do Bradesco BBI. No segmento, os analistas destacam que a Ânima (ANIM3) desfrutou de maior captação de alunos, com a sua maior qualidade de serviço também trazendo mais resiliência, enquanto os números da Yduqs (YDUQ3) foram apoiados por um processo de admissão mais rápido e eficiente durante o primeiro trimestre.

“Em termos de ingressos no segmento, fica claro que a qualidade aumenta a resiliência, já que a Ânima continuou a registrar números sólidos, enquanto a Yduqs foi impulsionada pela aquisição de instituições premium. Para o ensino à distância, a Yduqs liderou o caminho, a Cogna (COGN3) mostrou uma recuperação significativa frente os últimos anos e a Ser (SEER3) cresce em um ritmo acelerado, embora o ensino à distância ainda represente apenas 23% de sua base de alunos – e cerca de 10% da receita líquida no terceiro trimestre”, apontam os analistas.

As provisões para devedores duvidosos também apresentaram tendência de melhora, sendo que os analistas veem ainda pressão para a Cogna no quarto trimestre, sendo que a companhia também passa por um momento de reestruturação em busca da “hibridização” do ensino, associando o ensino à distância e o presencial (veja mais clicando aqui).

O setor de energia e saneamento, segundo a XP, apresentou em geral uma sólida performance, refletindo menores impactos da crise da Covid-19 nos resultados conforme a demanda de energia se recuperou gradualmente e empresas que atuam em distribuição puderam retomar cortes de fornecimento por inadimplência.

Incorporadoras, frigoríficos e e-commerce: resultados positivos

Já com uma recuperação forte, sendo que muitos citam o desempenho em “V” (e já antecipados de uma certa forma pelas prévias operacionais), estiveram as empresas do setor de construção civil. A MRV Engenharia (MRVE3), maior construtora residencial do País, por exemplo, acelerou os lançamentos depois do pior momento da pandemia e teve vendas recordes no terceiro trimestre – confirmando os indicadores de que o mercado imobiliário atravessa uma recuperação significativa. A companhia realizou lançamentos avaliados em R$ 1,87 bilhão no terceiro trimestre de 2020, alta de 15% na comparação com o mesmo intervalo de 2019 e um salto de 99% em relação ao segundo trimestre de 2020.

As 14 maiores incorporadoras com ações negociadas na B3 tiveram, juntas, lucro líquido de R$ 721 milhões no terceiro trimestre de 2020, 56% na base de comparação anual, em levantamento que contabiliza os balanços de Cyrela (CYRE3), Cury (CURY3), Direcional (DIRR3), Even (EVEN3), Eztec (EZTC3), Gafisa (GFSA3), Helbor (HBOR3), Mitre (MTRE3), Plano & Plano (PLPL3), MRV, RNI (RDNI3), Tenda (TEND3), Tecnisa (TCSA3) e Trisul (TRIS3). Os empreendimentos lançados por esse grupo tiveram valor geral de vendas estimado em R$ 8,1 bilhões no trimestre, alta de 36%, enquanto as vendas líquidas totalizaram R$ 7,5 bilhões, um avanço de 45%.

“A aceleração nas vendas foi surpreendente, dado o cenário de pandemia”, destacou o analista Raul Grego, da Eleven Financial, à Agência Estado. “Os números dos balanços foram animadores: todas as incorporadoras apontaram perspectivas de crescimento.” Para ele, o mercado seguirá em alta no fim deste ano e ao longo do próximo.

Entre os motivos para a retomada do setor, os analistas destacam em especial a queda da taxa de juros:  além do aumento típico da acessibilidade, os investidores estão transferindo o dinheiro de fundos de renda fixa, que estão com baixo rendimento, para o setor imobiliário, elevando a demanda por imóveis. Já os números das empresas mostraram que há dinheiro em caixa e terrenos para construção.

Voltando ao setor de consumo e varejo, também vale destacar aqueles que se recuperaram fortemente, como a Ambev (ABEV3). A gigante de bebidas chamou a atenção pelo crescimento do volume de vendas de cerveja no Brasil, com alta de 25% na base de comparação anual, enquanto a expectativa dos analistas era entre 15% e 20% de crescimento. Enquanto isso, frigoríficos, mesmo sofrendo com o aumento de custos significativo no insumo (gado e grãos), conseguiram reportar resultados sólidos, em meio à queda do real, força das exportações, além do consumo doméstico.

Já as varejistas bastante expostas ao e-commerce mais uma vez reportaram bons resultados, ainda que algumas delas, como Magalu (MGLU3) e Via Varejo (VVAR3), tenham se destacado mais do que outras, como a B2W (BTOW3). Mais uma vez, a venda online mostrou ser uma tendência que, ainda que acelerada com a pandemia, veio mesmo para ficar.

“Somado a isso, a performance melhor do que a esperada também no varejo físico contribuiu para o desempenho positivo das companhias, de forma que 69% do setor reportou resultados acima ou em linha com o esperado”, ressalta a XP.

As vendas totais e em lojas online do Magalu saltaram 81%, para R$ 12,3 bilhões. Delas, quase 67% foram de sua operação digital, totalizando R$ 8,2 bilhões de vendas brutas de mercados (GMV, na sigla em inglês, importante indicador para o setor), uma alta de 148,5% na base de comparação anual. A B2W, por sua vez, teve desempenho bem mais discreto, com o GMV subindo “apenas” 56%, a R$ 7,3 bilhões. Ou seja, entre as duas companhias, há uma diferença de cerca de R$ 900 milhões.

Em termos percentuais, contudo, quem se destacou foi a Via Varejo (VVAR3), dona das Casas Bahia e Ponto Frio, com uma alta de cerca de 219% das vendas no e-commerce ante igual período de 2019. Contudo, vale apontar, ela ainda cresce a partir de uma base menor na comparação com as outras companhias, com as vendas nos canais digitais somando R$ 4,1 bilhões, representando 41,02% das vendas totais do grupo. Considerando também as vendas nas lojas físicas, a alta foi de 43,40% na base anual, totalizando cerca de R$ 10 bilhões.

Motivos de cautela

Apesar da visão geral positiva com os números do terceiro trimestre, algumas questões foram destacadas como motivo de cautela para os investidores. Dentre elas, qual será o impacto da redução do auxílio emergencial – de setembro a dezembro o valor foi cortado pela metade, de R$ 600 para R$ 300 e há incerteza como será a continuidade do programa em 2021 – no consumo e na inadimplência dos consumidores. Ao mesmo tempo, a continuidade do programa social nos mesmos moldes pode gerar um forte impacto no fiscal já deteriorado do Brasil, o que também impactaria a Bolsa negativamente.

Os temores sobre uma segunda onda do coronavírus e o possível retorno às restrições a atividades também são fatores de cautela (veja mais clicando aqui). Nesta semana, o governo de São Paulo falou sobre aumento de internações em novembro por Covid-19 e adiou a reclassificação da quarentena.

Por outro lado, três anúncios bastante importantes, com os resultados preliminares das vacinas da Pfizer-BioNtech e da Moderna apontando que as suas vacinas contra o coronavírus atingiram, respectivamente, 95% e 94,5% de eficácia, dão esperança de que a vida possa voltar ao normal em breve. Além disso, nesta mesmo linha, a revista científica “The Lancet” divulgou estudo em que aponta que a vacina CoronaVac, desenvolvida pelo laboratório chinês Sinovac Biotech, é segura e consegue produzir uma resposta imune do organismo contra o coronavírus Sars-CoV-2. Ela ainda tem capacidade de produzir resposta imune no organismo 28 dias após sua aplicação em 97% dos casos.

Porém, ainda há muitas incertezas no radar, como quando essas vacinas estarão disponíveis e como será a distribuição de cada uma delas.

O Ibovespa, de qualquer forma, reflete o ânimo com a evolução das vacinas e registra ganhos de mais de 14% apenas em novembro até o fechamento da última terça-feira (17), inclusive com destaque para os setores que seguem sofrendo com as medidas de restrição, como Azul (AZUL4), Gol (GOLL4) e Embraer (EMBR3), que não apresentaram resultados muito animadores no terceiro trimestre. A Azul teve prejuízo de de R$ 1,2 bilhão no terceiro trimestre, enquanto a Gol teve perdas de R$ 1,7 bilhão em igual período. Já a Embraer teve prejuízo líquido atribuído ao acionista controlador de R$ 649 milhões.

Com a vacina, a expectativa é de que os meses entre julho e setembro tenham sinalizado apenas o início da retomada depois do tombo da atividade no segundo trimestre. Contudo, para alguns setores, o cenário de incerteza deve persistir até que a imunização se torne uma realidade.

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