SÃO PAULO – Faltando apenas três semanas para as eleições presidenciais nos Estados Unidos, as principais pesquisas mostram o candidato democrata Joe Biden com boa vantagem sobre o republicano Donald Trump.

Para muitas pessoas, este cenário pode parecer um déjà vu de 2016, quando Hillary Clinton aparecia liderando as pesquisas até o dia anterior ao pleito. Porém, naquela ocasião ela acabou derrotada, o que até hoje deixa muitas dúvidas sobre o quão confiáveis são as pesquisas eleitorais.

“Diferente do que muitas pessoas acham, as pesquisas nacionais de 2016 não erraram tanto, a diferença para o resultado final foi de cerca de um ponto percentual apenas. O erro das pesquisas foi na questão da distribuição dos votos”, explica Victor Scalet, analista político da XP Investimentos.

Nos EUA, diferente de outros países, o resultado da eleição depende dos chamados colégios eleitorais. Basicamente, o eleitor vota em seu candidato, mas ele é contato para o delegado daquele estado, que depois confirma o voto. Cada estado tem um número diferente de delegados e para ser vencedor, um candidato precisa de 270 votos (clique aqui para entender como funciona a eleição americana).

Diante disso, as pesquisas precisam entender as diferenças entre as regiões para realizar sua amostragem. Considerando apenas votos totais, por exemplo, Hillary Clinton teve quase 3 milhões a mais que Trump em 2016, mas acabou derrotada porque não ganhou em estados mais decisivos, ficando com menos delegados.

Segundo Scalet, um dos maiores problemas das pesquisas da última eleição foi a falta de levantamentos em estados que estavam mais divididos (swing states). “Em estatística, quanto maior o número de amostras, menor a chance de erro, como haviam poucas pesquisas nestes estados, elas não conseguiram captar o cenário”, diz o analista.

E isto causou o segundo maior erro das pesquisas em 2016, a incapacidade de identificar novos eleitores, em especial o de perfil branco, apenas com ensino médio e nos estados industriais, que sofreram com desemprego no governo de Barack Obama. Essa combinação de fatores fez com que, apesar das pesquisas nacionais mostrarem um cenário próximo do que aconteceu, quando olhando para os estados, que importam mais no pleito americano, não foi possível enxergar a mudança que favoreceu Trump.

Por que confiar nas pesquisas agora?

Em uma vantagem parecida com a de Hillary em 2016, neste momento da corrida eleitoral, Biden aparece com 9 pontos de vantagem sobre Trump, segundo dados do agregador de pesquisas Real Clear Politics (RCP): 51,4% contra 42,2%.

(Real Clear Politics)

A questão para analistas não acreditarem que teremos uma repetição de cenário agora é que pleito de quatro anos atrás trouxe estes ensinamentos. Para 2020, estão sendo feito muito mais pesquisas estaduais, principalmente nas regiões em que a disputa está mais apertada.

“Os institutos estão se adequando”, afirma Scalet, que lembra que nenhuma pesquisa é perfeita e cada instituto tem sua metodologia. Diante disso, agregadores de pesquisas ou sites que mostram diversos levantamentos se tornam importantes para conseguir unir as diferentes formas de se fazer pesquisas.

Segundo o presidente Donald Trump, ele tem um tipo de eleitor que não aparece nas pesquisas, mas que surge na hora da votação e acaba pesando a seu favor. Ele diz que isso aconteceu em 2016 e vai se repetir agora, por isso não se importa com as pesquisas.

Scalet explica que esse seria o chamado “voto envergonhado”, pessoas que não manifestam suas opiniões ou até mentem para as pesquisas e acabam fazendo a diferença no resultado. A questão, segundo o analista, é que não existem estudos que mostram que isso realmente aconteceu em 2016, e que seria algo que até faria sentido naquela eleição, onde Trump era a oposição e “outsider”.

Desta vez, as chances de isso acontecer são ainda menores, já que o republicano está no poder e tem um eleitorado que se expõe e fala mais, ou seja, não esconde seu voto.

O que dizem as pesquisas?

Além da RCP, um outro instituto bastante acompanhado é o Five Thirty Eight (538), que agrega diversas pesquisas diferentes e ainda faz levantamentos estatísticos próprios. Em seus números mais recentes, Biden aparece com 53,5% dos votos populares, contra 45,2% de Trump.

Já em uma contagem de delegados, o democrata tem 346 contra 192, de acordo com o 538, ao passo em que em um levantamento percentual, eles apontam uma chance de 87% para Biden vencer esta eleição.

O jornal Financial Times, por sua vez, tem divulgado em seu site uma pesquisa por estado, em que separa três categorias: sólidos (regiões que costumam votar no partido ou que a margem é grande neste momento), inclinados (estados em que a diferença percentual nas pesquisas não é tão grande), e os indecisos (em que as margens percentuais estão abaixo de 5% para qualquer lado).

Considerando estes critérios, faltando três semanas para a eleição, Biden tem 279 delegados, sendo 190 sólidos e 89 de inclinados, enquanto Trump tem 125 delegados (83 sólidos e 42 inclinados). Outros 134 delegados estão na categoria indecisos. São necessários 270 delegados para vencer.

(Financial Times)

Isso mostra vantagem para o democrata, mas não com uma diferença tão grande. Dentre os estados que aparecem entre os indecisos estão dois dos três maiores, Texas e Flórida, que possuem 38 e 29 delegados, respectivamente.

Vale lembrar que nos EUA a maioria dos estados adota o “winner-take-all” (“o vencedor leva tudo”), ou seja, mesmo que vença por uma margem pequena, o ganhador naquele estado leva todos os delegados. Diante disso, Trump precisa não só levar estas regiões indecisas, mas pegar pelo menos um estado com mais de 9 delegados para conseguir ser reeleito.

O problema é que pesquisas regionais também não são favoráveis ao atual presidente. Levantamento compilado pelo Five Thirty Eight, aponta, por exemplo, uma vantagem de 4,7 pontos para Biden na Flórida, e de 1,5 ponto na Carolina do Norte. Somados, os dois estados representam 44 delegados.

Método “certeiro”

Fora do campo das pesquisas eleitorais, uma figura famosa no mundo das projeções políticas é o historiador americano Allan Lichtman que, em 1981, desenvolveu junto com o russo Vladimir Keilis-Borok um modelo de previsão. Desde então, acertou o resultado de oito das nove eleições em que foi aplicado – apenas no confuso resultado de 2000, quando George W. Bush bateu Al Gore, o modelo não deu certo.

A dupla analisou de forma retrospectiva todos os pleitos desde 1860 e criou um sistema de 13 fatores em que ,quando seis ou mais são desfavoráveis, o partido no poder perde a Casa Branca.

Com sua pesquisa, Lichtman concluiu que o que determina o resultado eleitoral é o “pragmatismo” dos eleitores nos EUA. “A decisão, no final das contas, é sobre como o país foi governado, não sobre a campanha. A questão é se o partido no poder merece mais 4 anos”, disse ele à BBC.

Considerando esse esquema, o pesquisador aponta, por 7 a 6, que Biden deve ser o vencedor desta eleição. Apesar de confiar em seu modelo, Lichtman, disse para a BBC que alguns fatores podem fazer com que o resultado possa dar errado.

Um deles é a interferência externa na eleição, como o caso da Rússia agir de alguma forma. Outro ponto é que os democratas, com os quais ele diz estar ideologicamente alinhado, possam perder votos em meio às tentativas de Trump de desacreditar o voto pelos Correios ou mesmo que seus partidários intimidem os de Biden.

As chances de Biden vencer nunca foram tão grande quanto neste momento da corrida presidencial, seguindo especialistas, pesquisas e apostas, mas é preciso ter em mente que nem mesmo as pesquisas conseguem mostrar o futuro. Elas representam o cenário atual da opinião pública.

Além disso, o sistema americano, com os colégios eleitorais, acaba dificultando este retrato geral mostrado pelas pesquisas, e o fato do voto não ser obrigatório nos EUA pesa na hora destes levantamentos computarem a quantidade de pessoas que vai às urnas. A tendência neste momento é boa para os democratas, mas a disputa só acaba mesmo quando o vencedor for declarado.

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