SÃO PAULO – Enquanto o mundo enfrenta uma das suas maiores crises de saúde em função do novo coronavírus, outros vírus perigosos também estão sendo disseminado rapidamente, mas pela internet: a desinformação e as teorias da conspiração que envolvem a Covid-19.

O bilionário Bill Gates disse, em uma entrevista ao canal americano CNBC, que as notícias falsas tendem a se espalhar mais rápido do que as verdadeiras nas redes sociais e que esse tipo de ambiente promove o crescimento desenfreado das fake news, principalmente em temas mais complexos, como as vacinas e as doenças.

“Quando você deixa as pessoas se comunicarem, precisa lidar com o fato de que certas coisas incorretas que são muito excitantes podem se espalhar muito rapidamente em comparação com a verdade. E sempre vimos isso com vacinas”, disse Gates em entrevista à CNBC.

Para Gates, fica claro que os fatos reais viajam “lentamente” nas redes sociais em comparação com as desinformações, o que torna difícil para empresas como Facebook e Twitter encontrar um equilíbrio entre as publicações, sua veracidade e as atitudes dos usuários nas redes.

Gates, que possui um histórico de combate a pandemias e investimento em vacinas por conta de sua atuação através da Bill & Melinda Gates Fundation, tem sido alvo constante de teorias da conspiração que ligam seu nome ao surgimento do vírus.

Segundo informações da Agência Lupa, agência de checagem de fatos, desde janeiro até o dia 05 de julho deste ano, foram encontradas 145 verificações de postagens que espalham boatos falsos ligando o nome de Gates à Covid-19.

“Essas empresas de mídia podem ver o que está sendo dito em sua plataforma, mas pegar coisas absolutamente erradas e se livrar dessas coisas ou reduzi-las parece ser muito difícil para elas”, disse o co-fundador da Microsoft na entrevista.

Como as redes sociais estão lidando com a desinformação

Um vídeo contendo informações enganosas sobre o novo coronavírus registrou milhões de visualizações antes de ser retirado do Facebook, Twitter e YouTube.

O vídeo em questão mostra um grupo de pessoas vestidas com jalecos brancos – que se autodenominam “Médicos da Linha de Frente da América” ​​- em uma conferência de imprensa do lado de fora da Suprema Corte dos EUA, em Washington. Os participantes do vídeo afirmam que a hidroxicloroquina é “uma cura para o Covid” e “você não precisa de uma máscara” para retardar a propagação do coronavírus.

“Este vírus tem cura e ela é chamada de hidroxicloroquina” afirma uma das mulheres do vídeo. “Você não precisa de máscaras, existe uma cura.” As alegações do vídeo contrastam claramente com os conselhos das autoridades de saúde pública sobre as medidas preventivas para lidar com o novo coronavírus.

Para a comunidade cientifica global, o uso de máscaras e o distanciamento social são duas das mais eficazes maneiras de evitar a propagação da Covid-19. Já sobre a hidroxicloroquina, os mais recentes estudos sobre o medicamento não encontraram nenhuma evidência científica de que ele possua uma eficácia no tratamento da doença.

Segundo o canal americano CNBC, no final da última segunda-feira (27), o vídeo acumulava mais de 20 milhões de visualizações no Facebook. Apesar de seu próprio governo ter recomendado que as pessoas usem máscaras, o presidente dos EUA, Donald Trump, compartilhou várias versões do vídeo com seus mais de 80 milhões de seguidores no Twitter antes de o conteúdo ser removido da rede.

“Removemos este vídeo por compartilhar informações falsas sobre curas e tratamentos para a Covid-19”, afirmou o porta-voz do Facebook após o vídeo ter sido tirado do ar. Já um porta-voz do Twitter disse que tuítes que contêm o vídeo violam sua política de desinformação sobre a Covid-19 e que “estão agindo”.

O YouTube, por sua vez, disse que o vídeo entrou na lista de remoção porque alegou existir uma cura garantida da Covid-19. “Desde o início da pandemia, temos políticas claras contra a desinformação da Covid-19 e estamos comprometidos em continuar fornecendo informações oportunas e úteis neste momento crítico”, disse um porta-voz.

Em meados de maio, o Instagram, rede social também controlada pelo Facebook, ocultou um post com conteúdo falso replicado pelo presidente Jair Bolsonaro nos stories de sua conta oficial.

A mensagem afirmava, incorretamente, que o número de mortes por doenças respiratórias no Ceará havia caído entre 16 de março e 10 de maio de 2020 na comparação com o mesmo período de 2019.

“Desinformação é algo que levamos muito a sério e trabalhamos com verificadores de fatos, que operam de maneira independente, para avaliar e classificar desinformação no Facebook e no Instagram. Quando um conteúdo é classificado como falso ou parcialmente falso por um verificador, nós o tornamos mais difícil de encontrar no Instagram e o rotulamos de acordo para que as pessoas possam decidir melhor o que ler, confiar e compartilhar”, afirmou um porta-voz do Facebook à época.

“Infodemia”

A difusão de conteúdos falsos é tamanha que motivou um grupo de pesquisadores e profissionais da saúde a lançar uma campanha contra os riscos das informações falsas durante a pandemia, fenômeno que chamaram de “infodemia” – um neologismo que combina as palavras “epidemia” e “informação”.

Segundo o manifesto, assinado por centenas de profissionais da saúde dos Estados Unidos, Itália e Brasil, e apoiado por entidades de classe como o Conselho Federal de Enfermagem, a “infodemia” estaria impedindo que as pessoas encontrassem informação confiáveis sobre a nova doença, o que pode causar, por consequência, ainda mais mortes.

“O tsunami de conteúdo falso e enganoso sobre o coronavírus não é um surto isolado de desinformação e faz parte de uma praga mundial. No Facebook, vimos alegações de que o dióxido de cloro ajuda pessoas com autismo e câncer; que milhões de cidadãos dos EUA tinham sido infectados com o ‘vírus do câncer’ por meio da vacina contra a pólio; que o TDAH tinha sido ‘inventado pela grande indústria farmacêutica’. E a lista continua”, afirma o texto da campanha.

Para o grupo de profissionais da saúde, as plataformas precisam tomar duas principais medidas para que esse tipo de desinformação pare de aparecer nas redes sociais: “Em primeiro lugar, elas devem corrigir o erro nas desinformações sobre saúde. Para isso, devem alertar e notificar cada pessoa que viu ou interagiu com desinformação sobre saúde em suas plataformas e compartilhar uma correção bem elaborada preparada por verificadores de fatos independentes”, diz o texto da campanha.

“Em segundo lugar, as plataformas devem desintoxicar o algoritmo que decide o conteúdo que as pessoas vão ver. Isso quer dizer que o alcance das mentiras nocivas, assim como dos grupos e páginas que as compartilham, serão reduzidos no feed de notícias dos usuários, ao invés de amplificados”, conclui.

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