Salim Ismail, fundador da Singularity University, em evento em Nova York, em junho de 2019

SÃO PAULO – O que um dos maiores especialistas em inovação do mundo diria sobre a pandemia até aqui? Que os negócios digitais avançaram dez anos no tempo e os analógicos voltaram dez. Que os estímulos dos governos encharcaram o mercado de dinheiro, formando uma bolha, que está prestes a estourar. E que, de um ponto de vista filosófico, tudo isso é o mundo dizendo para a humanidade: vá devagar.

Com tudo mudando tão rápido, muitos preferem não arriscar opiniões. Não é o caso de Salim Ismail, autor das reflexões acima e conceituado guru de negócios, que já foi consultado até pelo papa Francisco.

Ismail também diz com convicção: bitcoin, ouro e imóveis são a saída para fugir do colapso econômico que está por vir; e a vacina contra o coronavírus só começará a ser distribuída daqui a um ano, no mínimo, o resto é conversa dos políticos.

Antecipar movimentos é uma especialidade do indiano, criado no Canadá, e um dos fundadores da Singularity University, a menina dos olhos dos empresários do Vale do Silício. Muito antes de a pandemia provar que tudo pode mudar de uma hora para outra, a universidade já investigava singularidades mundo afora, o que Ismail define como “buracos negros” ou eventos capazes de mudar para sempre tendências e comportamentos, separando o velho do novo.

Mas, desta vez é melhor que Ismail não esteja certo sobre suas previsões. Ele diz que, com os governos imprimindo moeda sem parar desde a crise 2008, podemos ter outro colapso na economia global, desta vez não pela escassez de dinheiro, mas pelo excesso.

“Quando você precisa de mais dólares para comprar algo, pensamos que o mercado está subindo, mas na verdade estamos deflacionando a moeda e, em algum ponto, a coisa toda desmorona. A pandemia pode ser essa coisa que colapsa a economia global”, afirma o fundador da Singularity.

O autor do best-seller Organizações Exponenciais participa do 7º Fórum de Liberdade e Democracia, promovido pelo Instituto de Formação de Líderes de São Paulo, que acontece nos dias 1, 2 e 3 de setembro (saiba mais).

De sua casa em Toronto, no Canadá, Ismail conversou com o InfoMoney e antecipou alguns dos assuntos que serão abordados no evento. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

Qual é a sua visão sobre a pandemia até agora e quais foram as principais rupturas que ela provocou no mundo?

Eu sou um dos fundadores da Singularity University e nós estudamos singularidades, que são como buracos negros. A definição é que todos os modelos usados para prever o futuro se quebram após certos eventos. O coronavírus e a pandemia são uma singularidade.

Todo modelo que temos para tentar prever como o mundo estará no futuro está, essencialmente, errado. Depois de criarmos nossos próprios modelos, o que estamos vendo é que, na pandemia, o ambiente digital acelerou dez anos e os negócios analógicos, antigos, retrocederam dez anos. Tivemos que aprender como trabalhar remotamente, estudar remotamente, viver remotamente.

Mas, ao mesmo tempo, estamos comprando mais ovos e comida de comércios locais. É por isso que estamos vendo esta confluência muito estranha entre digitalização e coisas locais incríveis acontecendo.

Sobre a vacina, você tem um palpite sobre quando teremos uma solução para a pandemia?

Nós pesquisamos bastante sobre isso e a minha opinião é que estamos a um ou dois anos de uma vacina, no mínimo, e você não quer ser a primeira pessoa a tomar a vacina, porque eles estarão testando. Vai demorar um ano ou mais para descobrir se eles estão corretos. O problema mais difícil será como produzir bilhões de doses para o mundo todo. O problema mais fácil é resolver o curto prazo, é fazer testes rápidos, em massa, quase em tempo real. Isso nos permitirá manter a segurança enquanto descobrimos como lidar com a vacina.

O presidente Donald Trump diz que podemos ter uma vacina antes das eleições americanas, neste ano. No Brasil, o governador de São Paulo já disse que podemos ter 45 milhões de doses distribuídas em dezembro.

Demora cerca de um ano para testar uma vacina totalmente, então adicione um ano a qualquer coisa que os políticos disserem. Eles não são as pessoas mais honestas que você já conheceu. Ele [Trump] tem muitas vantagens ao dizer isso. A realidade é que vai demorar pelo menos um ano, porque mesmo que a vacina esteja disponível amanhã, e seja a vacina mais perfeita, ainda será necessário fabricar oito bilhões de doses dela.

Até os laboratórios estão mentindo então?

Não mentindo, mas se eu for uma grande empresa farmacêutica, como a Pfizer, e se de repente eu disser “nós estamos avançando em uma vacina”, a minha ação sobe lindamente. Tenha cuidado com o motivo pelo qual as pessoas dizem certas coisas.

Levamos 30 anos para desenvolver uma vacina contra a varíola. Mesmo se tivéssemos uma vacina hoje, teríamos que gastar muito tempo testando para ter certeza de que ela não terá efeitos colaterais e não matará pessoas.

De que forma a pandemia mudou a economia e a política globais?

Obviamente, já enfrentávamos problemas com a crescente onda de populismo ao redor do mundo, mas a situação atual dificulta tudo.

É um problema, mas tudo isso tem um ponto positivo: a pandemia mostrou que a força das comunidades é muito poderosa. Pela primeira vez, todos sabem quem são seus vizinhos.

A situação é pior para as empresas que dependem de uma cadeia de abastecimento global porque essas cadeias estão sob muito estresse. Isso é um grande problema para a economia global, já que dependemos cada vez mais do que chamamos de velocidade do dinheiro, que significa quantas vezes o dinheiro muda de mãos em um ano – e o dinheiro não está mudando de mãos.

Estou no Canadá e a previsão é que 60% dos restaurantes fecharão este ano. Isso gera um enorme impacto na economia e afeta todas as pessoas que ganham dinheiro com esses negócios.

Uma das principais características das crises é que o dinheiro muda de mãos. Você acha que não está mudando desta vez?

Não quero dizer que não esteja. Na crise econômica, o dinheiro muitas vezes muda de mãos rapidamente por causa da volatilidade, mas esse dinheiro não está fluindo. O dinheiro que eu gastaria em viagens de classe executiva não está sendo coletado pelas companhias aéreas, não está sendo usado para pagar seus trabalhadores e a sua cadeia de suprimentos.

Portanto, o dinheiro não flui no sistema e esse é o problema. No seu corpo, o sangue tem que fluir para mantê-lo nutrido e na economia global o dinheiro não está fluindo.

Assista abaixo a um trecho da entrevista em inglês:

As bolsas estão subindo, o S&P 500 [um dos principais índices do mercado de ações americano] atingiu máximas históricas. Você acha que superestimamos a crise do coronavírus?

Isso é reflexo da pandemia. Para citar o exemplo dos Estados Unidos, o PIB americano está na casa de US$ 11 trilhões e eles imprimiram cerca de US$ 3 ou US$ 4 trilhões para lidar com a crise. Significa que eles deflacionaram sua economia, sua moeda em 30% ou 40%.

E o único lugar seguro para ir são ativos como o ouro e o bitcoins. Eu sou um grande fã do bitcoins agora, porque as pessoas têm que colocar seu dinheiro em algum lugar, se você mantiver seu capital em dinheiro você perderá 40%. Então, no mercado de ações tudo vai custar 40% mais nos próximos dois ou três anos.

Então você é um fã do bitcoin. Você acha que a moeda virtual vai subir nos próximos meses?

Sou um grande fã de bitcoins, tenho olhado esse setor há dez anos. Ninguém encontrou uma maneira de hackear essas moedas e, literalmente, deveríamos olhar para elas como um ouro digital. Descobrimos, pela primeira vez, escassez digital com liquidez certa, significa que muitas pessoas podem ter acesso.

É por isso que eu acho que o bitcoin é tão poderoso. O ouro é só para investidores sofisticados, mas qualquer um pode comprar bitcoin. E, nesta crise, há muito dinheiro procurando um lugar seguro para ir, então eu acho que o bitcoin vai para US$ 50 mil [hoje a moeda está cotada em US$ 11.457].

Quais são as consequências dessa deflação da moeda, por causa do aumento da liquidez?

Provavelmente um colapso da economia global. E a razão é que hoje estamos imprimindo dinheiro para manter o fluxo da economia. Na verdade, estamos criando quatro dólares de dívida para cada dólar injetado na economia globalmente.

Todo esse boom econômico, desde a crise financeira de 2008, aconteceu porque os governos estão imprimindo dinheiro. Mesmo com o mercado de ações em alta, as moedas foram deflacionadas e é possível que vejamos, em breve, o dólar se tornar uma lira [moeda turca, que sofreu forte desvalorização nos últimos anos].

E quando você precisa de mais dólares para comprar algo, pensamos que o mercado está subindo, mas na verdade estamos deflacionando a moeda e, em algum ponto, a coisa toda desmorona. A pandemia pode ser essa coisa que colapsa a economia global.

Então você acredita que há uma bolha no mercado?

Sim, eu acho que é uma bolha. Acho que dentro de seis a oito meses, no máximo, as pessoas verão um grande colapso no mercado de ações.

E o que o investidor deve fazer nesse cenário, além investir em bitcoins, como você mencionou?

Imóveis, ouro e bitcoins. O investidor precisa migrar seu dinheiro para ativos, porque esses ativos manterão muito mais seu valor do que outros investimentos. Além disso, são uma proteção interessante contra a inflação.

Mudando o assunto para uma de suas especialidades: inovação. Quais são os avanços tecnológicos mais poderosos que você vê no mundo hoje?

Para mim, existem três tecnologias profundamente poderosas: uma é o blockchain [tecnologia por trás dos criptoativos, que permite armazenar e gravar transações; veja mais]. Hernando de Soto, economista peruano, acredita que apenas com o registro de  propriedades no blockchain, talvez seja possível liberar US$ 20 trilhões do PIB global, um número enorme, então acho que essa tecnologia é incrivelmente poderosa.

A segunda é mais nítida, é o sistema CRISPR [do inglês Clustered Regularly Interspaced Short Palindromic Repeats, ou Repetições Palindrômicas Curtas Agrupadas e Regularmente Interespaçadas], que consiste em pequenas porções do DNA bacteriano compostas por repetições de nucleotídeos. Combina genética com biotecnologia e é um avanço que nos permite modificar nossos próprios genes. Isso significa que temos 10 mil doenças que não poderíamos tratar e que agora poderemos. É incrivelmente poderoso.

E o terceiro é a energia solar, porque se combinarmos energia solar com alguma tecnologia de bateria e armazenamento, isso nos permite ser autossuficientes em energia. E os países mais pobres do mundo são os países onde bate mais sol no mundo, então acho que será uma grande revolução no setor da energia.

Quando falamos de genética e dados, frequentemente são mencionados alguns riscos. Você vê riscos?

As pessoas encaram a modificação genética como um “Frankenstein”, quando, na verdade, estamos apenas mexendo com equações e projeções. A biotecnologia e a genética nos mostraram que somos robôs biológicos. E essa é uma forma bem interessante de olhar para isso.

Robôs biológicos?

Sua raiva é uma “subrotina” correndo em seu cérebro, assim como sua felicidade. Podemos modificar e afetar esse humor com drogas, meditação ou assistindo a uma série. Nós temos um conjunto de hábitos que são como se fossem programas rodando dentro de nós e, com certos gatilhos, podemos colocar esses programas para funcionar. Vemos que a vida em si é baseada em DNA, e DNA é informação, então basicamente somos robôs biológicos.

Quais são as principais lições que tiramos da pandemia? Em um sentido mais abstrato, você tem alguma explicação sobre ela?

Você pode virar muito espiritual em relação a isso e dizer: “Isso é a Terra dizendo: vá devagar”. Essa é a natureza dizendo: “A humanidade está se movendo muito rápido. Pare e sinta o aroma das rosas”. A pandemia está forçando todo mundo a ficar mais com suas famílias, consigo mesmo e ser mais contido em termos de como lidar com as coisas. E isso nos mostra um caminho, do ponto de vista de como nós queremos transformar o mundo.

Antes, o transatlântico global estava seguindo em uma direção claramente capitalista. Agora ele parou de repente e temos a chance de agarrar o volante e mudar a direção.

E é isso que estamos tentando fazer com o nosso ecossistema. Acho que não é uma oportunidade, é uma obrigação pararmos e falarmos: “Ok, o que queremos ser?” Porque se deixarmos isso para os nossos líderes, eles nos trarão de volta para onde estávamos – o que é terrível para a mudança climática, a desigualdade de renda etc.

Nós temos a oportunidade de voltar dez vezes melhores do que éramos.

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