Priner IPO (Foto/ Divulgação B3)

SÃO PAULO — Além do recorde de investidores, a B3 também registrou em 2020 o maior número de IPOs (ofertas iniciais de ações) desde 2007, mesmo em meio à uma grave crise sanitária e humanitária causada pela pandemia de coronavírus. E os primeiros indícios são de que o movimento continuará em 2021, segundo especialistas.

Foram 28 IPOs na Bolsa brasileira entre janeiro e dezembro deste ano, com captação total de R$ 177 bilhões. É o maior número de ofertas iniciais em 18 anos. Em 2007, a B3 teve 64 IPOs, que juntos levantaram R$ 55 bilhões. No ano passado, foram apenas cinco operações desse tipo no mercado brasileiro.

O maior IPO de 2020 foi o da Rede D’Or (RDOR3), que estreou na B3 no começo deste mês valendo mais de R$ 100 bilhões. A operação levantou R$ 11,4 bilhões. Foi o terceiro maior IPO já registrado na B3, atrás apenas da oferta inicial do Santander Brasil (SANB11) em 2009, de R$ 13,2 bilhões, e da oferta da BB Seguridade (BBSE3) em 2013, de R$ 11,475 bilhões.

O segundo maior IPO de 2020 na B3 foi realizado pelo Grupo Mateus (GMAT3), que levantou R$ 4,6 bilhões em outubro. A oferta inicial da Hidrovias do Brasil (HBSA3) completou o pódio, com R$ 3,4 bilhões em setembro — a Petz (PETZ3) ficou bem próxima, com um IPO de R$ 3,03 bilhões também em setembro.

Confira abaixo os IPOs de 2020 na B3 e quanto cada empresa levantou com sua oferta inicial de ações.

  1. 3R: R$ 690 milhões
  2. Aeris: R$ 1,1 bilhão
  3. Alphaville: R$ 305 milhões
  4. Ambipar: R$ 1,08 bilhão
  5. Boa Vista: R$ 2,21 bilhões
  6. Cury: R$ 977,5 milhões
  7. d1000: R$ 400,2 milhões
  8. Enjoei: R$ 1,1 bilhão
  9. Estapar: R$ 345,3 milhões
  10. Grupo Mateus: R$ 4,6 bilhões
  11. Grupo Soma: R$ 1,82
  12. Hidrovias: R$ 3 bilhões
  13. JSL: R$ 693,7 milhões
  14. Lavvi: R$ 1,16 bilhão
  15. Locaweb: R$ 1 bilhão
  16. Méliuz: R$ 583,4 milhões
  17. Melnick: R$ 647,8 milhões
  18. Mitre Realty: R$ 1,02 bilhão
  19. Moura Dubeux: R$ 1,25 bilhão
  20. Neogrid: R$ 486,45 milhões
  21. Pague Menos: R$ 858,9 milhões
  22. Petz: R$ 3 bilhões
  23. Plano e Plano: R$ 633,4 milhões
  24. Priner: R$ 200 milhões
  25. Quero-Quero: R$ 1,94 bilhão
  26. Rede D’or: R$ 11,4 bilhões
  27. Sequoia: R$ 905,8 milhões
  28. Track & Field: R$ 454,7 milhões

Além dessas companhias, a canadense Aura Minerals também realizou um IPO na B3 neste ano, mas de BDRs (recibos de ações estrangeiras negociados na Bolsa brasileira), que movimentou R$ 790 milhões. O InfoMoney entrevistou o presidente da companhia em novembro, confira aqui.

O que explica o movimento?

De modo geral, o que explica o boom de IPOs na B3 este ano, segundo especialistas, é a queda histórica da taxa básica de juros, a Selic, para 2% ao ano, o que motivou a maior entrada de investidores na Bolsa e colaborou para tornar o mercado acionário mais atraente aos empresários que precisam se capitalizar.

“Foi uma porrada. A gente viu uma baita de uma janela, o mercado de capitais no Brasil se desenvolvendo, um fluxo grande, aumento de investidores pessoas físicas e, agora no final do ano, os estrangeiros voltando fortemente”, disse Rafael Bevilacqua, estrategista-chefe da Levante Ideias de Investimentos.

“Algumas coisas que são importantes: este ano começou muito bem e, mesmo com a pandemia, o fluxo, o movimento de IPOs foi muito forte. Isso se dá por um lado pelo desenvolvimento de capitais, entrada de novos investidores, juros baixos, mas a liquidez global como um todo foi bem positiva para esse fato”, completou.

“Todo mundo que queria colocar uma oferta, este ano conseguiu. Foram poucos casos em que ou a janela não estava muito boa, mas daria para ajustar, ou o valuation era muito fora. Mas a gente viu IPOs que não paravam muito em pé, não tinha o menor sentido, saírem. Tinha liquidez e demanda para praticamente tudo.”

Felipe Taylor, gestor de ações da MAG Investimentos, acredita que a forte valorização da Bolsa no fim do ano passado e no começo de 2020, bem como a retomada do Ibovespa ao longo deste ano depois do tombo em março por causa da pandemia, colaborou para chamar atenção dos empresários para a Bolsa.

“A boa performance que a Bolsa teve nos últimos anos permitiu que o patamar de preço dos ativos negociados em Bolsa atingisse níveis nos quais os empresários começam a ver maior vantagem em abrir seu capital, dada a perspectiva de ter suas empresas bem valoradas pelo mercado”, disse.

“Obviamente que a taxa de juros no nível mais baixo que a gente já teve também favorece esse investimento do investidor na Bolsa. Mesmo fundos que antes eram muito focados em renda fixa e câmbio passaram a alocar uma boa parte de seu portfólio para a Bolsa”, completou.

Ofertas bem-sucedidas

Sobre as ofertas mais bem-sucedidas em 2020, Bevilacqua e Taylor destacaram os IPOs da Rede D’or e da Petz. Taylor apontou ainda a operação da companhia de hospedagem de sites Locaweb como um destaque positivo no ano.

“São empresas que não só as ações pós-IPO tiveram desempenho positivo, mas também são empresas que, apesar de serem novas na Bolsa, acho que são histórias que despertam muito o interesse do investidor institucional e têm se mostrado maduras na comunicação com o mercado de capitais”, disse o gestor da MAG.

“A Rede D’or é um case de crescimento. Saiu caro quando a gente olha para múltiplo, entretanto é meio que um case apartado do mercado quando a gente fala de saúde. Ela pode subir preço, ela sobe muito o preço, repassa com praticamente zero de dificuldade porque ela tem uma marca muito forte e cresce há muito tempo. E até 2025 a gente vê que o número de leitos vai praticamente dobrar”, avaliou Bevilacqua.

O que esperar para 2021?

No geral, a avaliação para 2021 é de que o mercado de ofertas de ações continue extremamente aquecido. Empresas continuam registrando pedidos de abertura de capital na Comissão de Valores Mobiliários, a CVM. Na leva de dezembro, por exemplo, estão a Orizon, Guararapes Painéis, Jalles Machado, Oceanpact, Eletromidia, Mobly, Kalunga e Westwing.

“Novos recordes. Vai continuar havendo recursos disponíveis para comprar empresas novas em preços que façam sentido para os acionistas anteriores se desfazerem de uma parte ou se diluírem na ownership das empresas. A mesma dinâmica que a gente viu em 2020 deve permanecer para 2021, sendo que em 2020 a gente teve a pandemia”, disse Taylor, da MAG.

“2021 tem tudo para ser um ano ainda mais forte em ofertas de ações. A dúvida é se a nossa economia vai continuar produzindo empresas que sejam ‘investíveis’ no tamanho para fazer abertura de capital na velocidade que o mercado está disposto a comprar essas empresas”, completou.

O presidente da B3, Gilson Finkelsztain, também segue otimista. Em entrevista ao podcast “Os Pregões que Fizeram História”, do InfoMoney, ele disse que “a expectativa continua sendo bastante positiva para o mercado de capitais”, e que ainda tem bastante IPO por vir em 2021.

“As empresas estão iniciando seus ciclos de investimento depois de um ano difícil como foi 2020, quando a gente teve uma contração do PIB entre 4% e 5%. Então, o Brasil vai certamente voltar a crescer no ano de 2021. E fica obviamente a esperança de que a gente continue evoluindo na trajetória de sofisticação dos nossos mercados de capitais com a preservação do juro baixo”, afirmou.

Ele disse que não pode haver um “abandono” da inflação sob controle, da perseguição da meta de inflação pelo Banco Central e do controle fiscal com agenda de reformas que leve o Brasil ao crescimento. Finkelsztain citou a importância da preservação do teto de gastos.

“Em 2020, foi compreensível que o Brasil aprovasse um auxílio emergencial para os brasileiros que perderam renda. Infelizmente a gente não tem capacidade de manutenção desse auxílio por mais tempo, então a gente precisa usar mecanismos de fomento à economia e à retomada de crescimento, gerando emprego para que o país possa voltar a crescer”, disse.

“A melhor forma de fazer isso é definitivamente com controle fiscal e uma pauta que possibilite a retomada do investimento privado, com IPO, com privatizações. Sigo otimista e acho que 2021 pode ser novamente mais um ano de muitos recordes”, concluiu o presidente da B3.

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