SÃO PAULO – Lucro superando fortemente o consenso, sendo o maior da história da companhia em um trimestre (apesar do ano desafiador), projeções positivas para 2021 e expectativa de maiores dividendos. Esse conjunto de boas notícias fez com que o Bradesco (BBDC3;BBDC4) registrasse o melhor e mais surpreendente conjunto de números entre os grandes bancos que divulgaram os seus resultados do quarto trimestre até o momento, apesar da expectativa já ser positiva para o balanço.

Com isso, os ativos BBDC4 chegaram a saltar 5,15% no início da sessão e, ainda que amenizando, registravam ganhos de cerca de 3% em boa parte da sessão.

O lucro líquido recorrente foi de R$ 6,8 bilhões no quarto trimestre, alta de 35,2% quando comparado com o trimestre passado, e um surpreendente crescimento de 2,3% frente o mesmo período de 2019. Além de ser o melhor resultado da história, ele ficou 23% acima do consenso do mercado, de acordo com consenso Bloomberg. O crescimento de lucro impulsionou a volta do retorno sobre o patrimônio líquido (ROE) a patamares próximos aos vistos em 2019, atingindo 20% no trimestre.

Os números, vale ressaltar, foram insuficientes para evitar a queda no acumulado do ano, marcado por aumento de provisões em meio à crise causada pandemia. O banco terminou 2020 com lucro acumulado de R$ 19,458 bilhões, retração de 24,8% em relação a 2019. Um dos pontos que mais afetou os bancos em 2020 foi a necessidade de aumentar a Provisão para Devedores Duvidosos (PDD) devido a um maior risco de crédito associado à crise do Covid-19.

Para o Bradesco, isso representou um crescimento de provisionamento de R$ 25,7 bilhões no ano. Porém, no quarto trimestre, houve uma diminuição de PDD expandida de 18,3%  em relação a terceiro trimestre de 2020, atingindo R$ 4,6 bilhões e indicando uma melhora estrutural da economia já no final do ano, ressalta a Levante Ideias de Investimentos.

Conforme destaca Marcel Campos, analista da XP Investimentos, o resultado foi impulsionado por três fatores em especial. Em primeiro lugar, a forte margem financeira, que se expandiu significativamente no trimestre, uma vez que o banco foi capaz de melhorar o spread por meio de um portfólio mais rentável e voltado para o varejo. O crescimento nesta linha foi  de 8% na base de comparação anual, atingindo R$ 16,6 bilhões no trimestre. No acumulado do ano, a margem financeira atingiu R$ 63,1 bilhões, representando um crescimento de 7,4% frente 2019.

Em segundo lugar, estão as receitas de serviços mais altas do que o esperado, uma vez que o banco se beneficiou da recuperação da atividade econômica. As receitas de serviços cresceram 7% no trimestre, para R$ 8,7 bilhões, com destaque para a receita com cartões, que expandiu 18% no trimestre. Por outro lado, uma ressalva: os seguros se comportaram mal, apresentando uma contração de 27% no trimestre, para R$ 2,3 bilhões, com aumento de sinistros e a taxa de juros mais baixa de todos os tempos impactando o ramo.

O terceiro ponto são os custos menores do que o previsto, uma vez que o Bradesco liderou os cortes dentro do setor bancário, com o fechamento de 403 agências no trimestre e 1.083 em 2020, algumas delas convertidas em outras modalidades de ponto de atendimento. As despesas operacionais do Bradesco encerraram o ano em R$ 46,4 bilhões, uma baixa de 5,3% na comparação com 2019.

Durante teleconferência, Octavio de Lazari Jr, presidente-executivo do banco, destacou que o Bradesco vai continuar fechando e reduzindo tamanho de agências, além de destacar também que pretende o retorno do patrimônio líquido aos níveis históricos já neste ano.

Cabe ressaltar que, no quarto trimestre, a inadimplência acima de 90 dias melhorou 0,1 ponto percentual quando comparado com o trimestre anterior, chegando a 2,2%. Sobre o tema, Lazari destacou no evento que a alta esperada no início da crise ainda não veio e não deve vir com a intensidade prevista “Quando a pandemia começou, não havia muita visibilidade, então adotamos modelos de crédito mais restritos. Voltamos no quarto trimestre com um modelo aperfeiçoado”, apontou. Agora, com maior otimismo sobre as projeções para o crescimento econômico e de controle pandêmico, além do modelo mais aperfeiçoado, o Bradesco está com um apetite de risco para o crédito maior.

“O resultado do Bradesco veio acima das expectativas do mercado em termos de lucro líquido, retornando a bons níveis de ROE. A surpresa positiva do lucro somado a um resultado melhor que seus concorrentes Itaú (ITUB4) e Santander (SANB11) deve ter impactos positivos nas ações do banco no curto prazo”, avaliam os analistas da Levante Ideias de Investimentos. Os números do Banco do Brasil (BBAS3) serão conhecidos no próximo dia 11.

Por outro lado, os analistas apontam que o aumento da carteira de crédito na comparação anual (+10,3%) foi positivo. Porém, quando comparado ao resultado do Itaú (+20,3%) e Santander (+16,9%) deixou um pouco a desejar, avaliam.

O Credit Suisse também destaca o resultado muito mais forte do que o esperado para o quarto trimestre de 2020 mas, mais importante ainda, um guidance para 2021 bem à frente do consenso, com expectativa de crédito e crescimento de receita líquida de juros (NII, na sigla em inglês), menor custo de risco e redução significativa de custos definindo o tom para um
forte ano.

Junto com o resultado, o banco também apresentou dois fatos relevantes, anunciando suas projeções (guidance) para 2021 e o pagamento de juros sobre capital próprio (JCP) do exercício de 2020.

O guidance mostra projeções otimistas para o ano, com crescimento de receitas, aumento da carteira de crédito e controle de custos, algo também visto nas projeções do Itaú. Para a carteira de crédito, a projeção é de expansão entre 9% e 13% neste ano.

A margem financeira com clientes (sem levar em consideração o resultado da Tesouraria) deve ter aumento de 2% a 6%. Já para as receitas com prestação de serviços, a projeção é de  avanço entre 1% e 5% em 2021. A expectativa é de que as despesas com provisão fiquem entre R$ 14 e R$ 17 bilhões.  Para Marcel Campos, da XP, o guidance tem como destaques a projeção de crescimento moderado de receitas e a continuidade de forte corte de custos.

Os juros sobre o capital próprio (JCP), por sua vez, respeitaram o limite mínimo do estatuto de 30% dos lucros, conforme foi exigido pelo regulador para o ano de 2020, resultando no pagamento de mais R$ 184 milhões para os acionistas. Mas, além disso, está no radar dos investidores a proposta de cancelamento de ações e bonificação que elevará o dividendo mensal em 10%. A proposta será submetida por seu conselho de administração aos acionistas em assembleia geral extraordinária (AGE) a ser realizada em 10 de março. Durante a teleconferência, Lazari destacou que, provavelmente, o banco vai elevar o pagamento de dividendos neste ano.

Ainda no radar dos investidores, está a sinalização de uma possível abertura do banco digital Next, que também apresentou resultados positivos, com aumento de 106% na base clientes, atingindo 3,7 milhões usuários, além de uma redução de 47% nas despesas por cliente.

A ideia de um possível IPO do Next já é falada no mercado e pelo banco há algum tempo, tema este que inclusive voltou à tona durante a teleconferência, em que Lazari apontou que “uma abertura de capital seria natural” nos próximos dois anos, assim como a possível entrada de um sócio estratégico.

“Vimos que nossa separação com o Next foi uma decisão acertada e o trabalho é crescer ainda mais”, disse o executivo. “O Next superou 4 milhões de clientes em janeiro, vai atuar como marketplace. Certamente vai chegar a mais de 7 milhões de clientes neste ano”, complementou.

Conforme destaca a Levante, como empresas de alto crescimento/inovadoras normalmente possuem múltiplos de valuation muito elevados, é esperado que o total do valor de mercado das companhias separadamente seja maior do que mantendo a “fintech” dentro do Bradesco.

Com os fatores positivos em voga, as ações preferenciais do Bradesco aparecem como as preferidas entre os analistas dentre os papéis que já soltaram o balanço: as 14 casas que cobrem o papel, segundo compilação da Refinitiv, possuem recomendação de compra para os ativos BBDC4, com preço-alvo médio de R$ 32,11, ou potencial de alta de 24% em relação à cotação de R$ 25,90 no intraday. Conforme destaca a XP, uma das casas que recomenda compra para o papel, o valuation do banco é atrativo, com uma carteira mais bem defendida e com a empresa tendo boa dinâmica de lucros.

No caso do Itaú, de 15 casas que cobrem o papel, 8 possuem recomendação equivalente à compra, enquanto 7 possuem recomendação neutra. Para o Santander Brasil, de treze casas que cobrem a unit do banco,  7 têm recomendação neutra e 1 de venda, enquanto 5 recomendam compra.

Assim, entre os grandes bancos – e ainda mais levando em conta os desafios que eles devem enfrentar como a maior concorrência e o cenário econômico incerto -, o Bradesco está saindo na frente.

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