SÃO PAULO – O mercado começou a semana com o anúncio de que foi fechado um dos maiores acordos comerciais da história, envolvendo 15 países da Ásia-Pacífico, sendo o primeiro envolvendo China, Japão e Coreia do Sul.

A Parceria Econômica Regional Abrangente (RCEP, na sigla em inglês) é agora o maior bloco comercial do mundo, cobrindo uma região com 2,2 bilhões de pessoas e US$ 26,2 trilhões do Produto Interno Bruto (PIB) global, concentrando cerca de um terço da população e da economia mundial.

Analistas não veem um impacto econômico direto tão grande deste novo acordo no curto prazo, principalmente porque ele engloba muitas parcerias comerciais já existentes na região, e mesmo os reflexos esperados devem demorar anos para se concretizarem.

Por outro lado, o RCEP coloca a Ásia no caminho de se tornar uma zona comercial mais unida. Para o primeiro-ministro da China, Li Keqiang, o acordo é “uma vitória do multilateralismo e do livre-comércio”.

O Commerzbank avalia que o acordo vai melhorar o acesso ao mercado em toda a região, com tarifas e cotas eliminadas para mais de 65% dos bens comercializados.

“O objetivo (do RCEP) é tornar o ambiente de negócios mais previsível com regras de origem comuns e regulamentos transparentes. Isso incentivará as empresas a investirem mais na região, incluindo a construção de cadeias de suprimentos e serviços, e a gerar empregos”, afirmou o banco.

E essa novidade chama atenção especial por conta da China, considerado um país fechado em seu regime comunista, que tem se mostrado disposto nos últimos anos a acordos comerciais e defendido o multilateralismo e a globalização. O que pode ser um sinal importante – e perigoso – para os Estados Unidos, que desde o início do governo de Donald Trump se afastou dos chineses por conta da política de “América Primeiro” do atual presidente.

No momento em que a relação entre EUA e China passa por um de seus momentos mais complicados, os americanos também caminham para uma guinada em seu governo após a vitória do democrata Joe Biden na eleição. Mesmo assim, não está claro se haverá uma retomada de novos acordos.

Em relatório divulgado no fim de semana, o Citi Research destaca alguns pontos que servem de sinalização para os americanos no contexto da guerra comercial entre EUA e China. “A mensagem diplomática do RCEP pode ser tão importante quanto a econômica – um golpe a favor da China”, disseram os analistas.

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Segundo eles, o RCEP mostra que o Leste Asiático está muito aberto para negócios e reconhece os benefícios econômicos de uma integração comercial mais profunda. Além disso, reduz a percepção de que a China está se voltando cada vez mais para dentro do próprio país.

O Citi aponta ainda que este acordo “sinaliza que, quando se trata de política econômica, as economias da Ásia-Pacífico não querem escolher entre os EUA e a China. Isso é válido mesmo para países com fortes alianças de segurança com os EUA, como Japão e Coreia do Sul”.

Alerta para os EUA

O RCEP foi criado em novembro de 2012, mesma época em que um outro grande acordo comercial estava em negociação pelo governo de Barack Obama, a Parceria Transpacífico (TPP), que não contava com a China.

Com a troca de governo nos EUA em 2017, o presidente Donald Trump decidiu retirar os americanos da TPP e ainda impôs diversas tarifas punitivas a vários parceiros comerciais dos EUA pelo que ele disse serem práticas comerciais desleais.

Os 11 países restantes no TPP renegociaram o pacto e assinaram o Acordo Abrangente e Progressivo para a Parceria Transpacífica (CPTPP) em 2018.

“Em sua forma original, o TPP teria colocado cerca de 40% da economia mundial do lado dos EUA – em comparação com a participação da China de 18% ou 20% no PIB global”, afirmou Graham Allison, professor da Universidade de Harvard, para a CNBC ainda antes da eleição.

Segundo Shaun Roache, economista-chefe para Ásia-Pacífico da S&P Global Ratings, destacou à Bloomberg, “embora a RCEP seja superficial, pelo menos em comparação com a TPP, ela é ampla, cobrindo muitas economias e bens, e isso é uma raridade nestes tempos mais protecionistas.”

Com o anúncio do RCEP, agora a China expande sua influência na região e manda um recado para os EUA, deixando já um grande desafio para Joe Biden logo no início de seu governo em janeiro.

“Em termos de política interna, os democratas são mais protecionistas do que os republicanos. Portanto, acho que será um desafio difícil, certamente seria um desafio em que Biden estaria interessado”, disse Allison, que foi secretário adjunto de defesa do presidente Bill Clinton e conselheiro especial do secretário de defesa do presidente Ronald Reagan.

Biden, que apoiou o TPP quando era vice-presidente de Obama, disse durante sua campanha que renegociaria o acordo comercial se fosse eleito. Ele também disse ao think tank Council on Foreign Relations que, embora o TPP não fosse um negócio perfeito, era uma boa maneira de os países se unirem “para conter os excessos da China”.

Agora é a China quem ganha força na Ásia sem a presença dos EUA.

A questão de saber se a RCEP muda a dinâmica regional em favor da China depende da resposta dos EUA, disse à Bloomberg William Reinsch, assessor comercial do governo Clinton e consultor sênior do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington.

“Se os EUA continuarem a ignorar ou intimidar os países da região, o pêndulo de influência oscilará em direção à China”, disse Reinsch. “Se Biden tiver um plano confiável para restaurar a presença e influência na região, o pêndulo pode voltar em direção aos EUA.”

(com informações da Bloomberg)

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