Larry Fink, CEO da BlackRock, na Expert XP 2020

SÃO PAULO – As notícias sobre a pandemia não param de chegar. Novos ângulos, cada vez mais dramáticos, aparecem a cada momento, mas o mercado financeiro e as empresas parecem se importar cada vez menos.

Para Larry Fink, fundador e CEO da BlackRock, a maior gestora de recursos do mundo, existe explicação: as empresas e os investidores se prepararam para uma crise pior e, agora, estão cheios de recursos em caixa.

“Conversando com clientes do mundo todo, vimos que existe uma liquidez inédita no caixa de várias companhias agora. A maioria dos investidores está menos ‘aplicada’ do que poderia porque achou que o mercado sofreria muito mais. A quantidade de dinheiro parada em fundos ligados a juros nunca foi maior. Então, existe uma quantidade enorme de dinheiro que precisa ser investida”, diz Fink.

É essa sobra de dinheiro em caixa que explica os últimos ralis do mercado, segundo a análise feita pelo CEO da BlackRock durante o painel “ESG: o retorno de um futuro melhor”, que aconteceu nesta sexta-feira (17), na Expert XP 2020, congresso anual de investimentos promovido pelo grupo XP Inc. A conversa foi mediada por Fernando Ferreira, estrategista-chefe da XP.

Fink citou grandes empresas, fundos de pensão e seguradoras ao especificar quais clientes são donos dessa “liquidez sem precedentes”. Com juros básicos zerados ou negativos em diversos países, eles não veem sentido em investir em títulos públicos com prazos longos, segundo o CEO. “Muito disso tem a ver com o fato de que as alternativas são piores do que manter o dinheiro em caixa.”

É essa combinação entre liquidez de sobra e rendimentos de menos que dificulta um prognóstico sobre onde estará o mercado dentro de dois ou três meses, segundo Fink. “Eu diria com certeza, porém, que se a taxa de contágio continuar crescendo e, com isso, a taxa de mortalidade crescer, então veremos outra forte reversão das economias”, disse.

Ao ser questionado sobre as perspectivas em relação à pandemia, ele foi enfático: “Não, nós ainda não vimos o pior em relação ao vírus. A taxa de infecção, na verdade, hoje é maior do que qualquer dia em março, a taxa está acelerando no mundo”, disse.

E acrescentou que a crise humanitária está provocando uma mudança psicológica notável no mundo: “Passamos de um mundo medroso e compassivo para um mundo muito mais pragmático.”

De onde vem todo esse dinheiro em plena crise?

Fink contou que a BlackRock, que tem cerca de US$ 7 trilhões sob gestão, foi contratada por cinco governos para auxiliá-los a implementar medidas econômicas de combate à pandemia. E a principal conclusão sobre esse contato mais próximo com o poderes públicos foi que o volume dos estímulos monetários e fiscais chegou a um nível jamais visto antes na história.

“Esse apoio inédito ao estímulo fiscal realmente impulsionou os mercados financeiros. E ainda que a taxa de desemprego esteja muito alta, se não tivéssemos essas políticas teria sido muito pior. Empresas que têm acesso ao mercado de capitais têm uma capacidade sem precedentes de levantar recursos com títulos de dívidas e ações”, diz Fink.

Ele citou, por exemplo, o caso da fabricante de aviões americana Boeing, que após uma série de medidas de incentivos do governo americano ao setor aéreo, conseguiu levantar US$ 25 bilhões no mercado.

O problema, prossegue Fink, está nas empresas menores, que não têm acesso ao mercado de capitais. Segundo ele, isso levanta a seguinte questão: negócios afetados pela pandemia como restaurantes, empresas ligados ao turismo e centros de convenções serão viáveis no futuro? Consumidores voltarão às lojas de departamento depois de aprender a comprar pela internet?

“Essas perguntas serão respondidas nos próximos dois a três meses. Mas o grande problema hoje é: vamos ver essa recuperação [que o mercado financeiro viu] nas pequenas e médias empresas? Se não – e se essa recuperação demorar mais, e a inadimplência subir-, aí eu vou dizer que provavelmente o mercado de capitais provavelmente ‘andou demais’ à frente deles. Descobriremos em três meses.”

Risco ambiental, sanitário e existencial

Apesar das considerações sobre liquidez, o tema mais discutido no painel não poderia deixar de ser a sigla do momento: o ESG (environmental, social and governance, em inglês), que representa a adoção de critérios ambientais, sociais e de governança nos investimentos.

Fink é um dos responsáveis por catapultar o assunto no mercado, depois de escrever em janeiro sua famosa carta anual aos investidores, na qual se comprometeu a elevar de US$ 90 bilhões para US$ 1 trilhão o valor investido em ativos sustentáveis pela BlackRock em uma década – além de sinalizar que iria ‘cortar na carne’ ao deixar de investir em ativos com mais de um quarto da receita ligada à produção de carvão.

O CEO disse que, particularmente, sempre foi um defensor do meio ambiente, mas a grande motivação para colocar o assunto no centro da estratégia da BlackRock veio dos próprios clientes.

“Mais e mais clientes do mundo todo estavam me perguntando como pensar nas mudanças climáticas em seus portfólios. […] Então a frase mais importante que eu escrevi na carta anual aos investidores foi: ‘O risco climático é risco de investimento’”, afirmou.

Passados os seis primeiros meses de teste da nova estratégia, Fink disse que se sente muito satisfeito em dizer que, mesmo em meio à crise, 80% dos ativos ligados à sustentabilidade superaram índices tradicionais de referência de mercado.

Ele disse que o tema ganhou ainda mais importância porque as reflexões provocadas pela pandemia trouxeram para o presente a dimensão do problema.“O risco existencial da Covid é exatamente o mesmo risco existencial das mudanças climáticas. O risco da Covid é mais imediato, as mudanças climáticas estão evoluindo, mas vemos evidências do impacto das mudanças climáticas no mundo todos os dias.”

Fink acrescentou que a crise econômica causada pela pandemia e suas consequências, como o aumento da desigualdade social, devem colocar no centro das discussões o “S” da sigla ESG. “Todo o avanço do ESG, não apenas na sustentabilidade, mas principalmente no ‘S’ se tornará um assunto dominante nas conversas.”

E uma vez que no âmbito público essas conversas têm sido decepcionantes, segundo Fink, as mudanças devem ser lideradas pelas empresas.

“O cidadão comum no Brasil e nos Estados Unidos está mais frustrado que nunca com seus governos, assim como todos nós. Eu escrevi nas últimas cartas: há mais pressão social sobre as empresas e ela está aumentando. As empresas que se concentram nesses problemas, na tecnologia, nas necessidades dos clientes e principalmente nas de seus funcionários, essas serão as grandes empresas do amanhã”, concluiu.

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