SÃO PAULO – O Ibovespa zerou as perdas de 2020 nesta terça-feira (15) ao fechar em alta de 1,34% a 116.148 pontos, e com isso a grande dúvida que paira entre os analistas é sobre o que ocorrerá com a Bolsa daqui para frente. Desde a mínima de fechamento do ano, no auge dos temores com a pandemia do coronavírus, até o fechamento desta sessão, o índice subiu 82,17%, indo de 63.569 pontos em 23 de março até superar os 116 mil pontos nesta data.

Segundo Roberto Indech, estrategista-chefe da Clear Corretora, por mais que o índice já tenha passado dos 116 mil pontos ainda há possibilidade de subir, pois o saldo do investimento estrangeiro este ano, apesar de ter melhorado muito com a entrada maciça de capital em novembro ainda nem sequer compensou o total das retiradas de janeiro a outubro.

“Continuamos atrás das principais bolsas do mundo em desempenho este ano e a taxa Selic deve continuar, mesmo se elevada no primeiro semestre de 2021, em um nível muito baixo, o que favorece a busca por ativos de renda variável”, explica.

Reforçando a visão positiva para 2021, mais da metade dos gestores de recursos da América Latina ouvidos pelo Bank of America tem projeção de que o Ibovespa fique acima de 130 mil pontos (alta de 12%) no próximo ano, patamar este projetado pela XP Investimentos, que destaca a retomada da economia global e o cenário de juros baixos para o Brasil (veja mais clicando aqui). O JPMorgan, por sua vez, projeta que o Ibovespa encerre o ano que vem a 134 mil pontos, ou cerca de 15% acima do nível atual, em meio a uma forte recuperação dos resultados corporativos.

Júlio Erse, gestor da Constância Asset, avalia que o rali iniciado em novembro e que levou a Bolsa a zerar as perdas no ano não dá indícios de estar acabado. Vale lembrar que as ações mais visadas pelos estrangeiros foram as blue chips como Petrobras (PETR3; PETR4), Vale (VALE3), Banco do Brasil (BBAS3), Bradesco (BBDC3; BBDC4) e Itaú Unibanco (ITUB4), que passaram muito tempo descoladas da recuperação das demais empresas que fazem arte do Ibovespa.

“O fluxo de capital é algo muito difícil de prever, no entanto, não vejo motivos para não estar otimista, por exemplo, com uma Vale em um cenário de minério de ferro a US$ 150 a tonelada. Começamos o ano com o minério em US$ 90 e durante a pandemia ele caiu para US$ 80. Então a empresa continua interessante com seu principal produto tão valorizado”, aponta Erse.

Indech também enxerga boas oportunidades entre as empresas exportadoras de commodities, pois mesmo com a recente desvalorização do dólar o patamar da moeda ainda é atrativo para exportar e o momento atual já traz até mesmo projeções de um novo superciclo das commodities.

“O petróleo, que chegou a ter contratos futuros negociados a valor negativo em abril já está custando US$ 50 o barril. É um momento muito bom para quem vende petróleo, minério e outros produtos do tipo”, comenta.

Todavia, o estrategista da Clear destaca que, apesar de estar otimista, já enxerga uma maior necessidade do investidor tomar cuidado com o stock picking, ou seja, o processo de escolher uma ação para investir. “Nem tudo está barato agora. Alguns ativos podem seguir uma tendência de alta bem mais robusta que outros.”

O estrategista cita, por exemplo, o setor de shoppings, que foi um dos mais afetados pela pandemia e ainda registra um desempenho fraco este ano. “No Natal poderemos ver como foi a receita de final de ano em relação ao ano passado para sabermos se as pessoas já estão com confiança de voltar a estes espaços ou não”, avalia.

Erse também enxerga shoppings como boas oportunidades no contexto atual. “Há um grupo de ações muito ligadas às restrições impostas por conta da proliferação da Covid-19, principalmente em serviços, e que devem fazer esse catch up ainda com os demais setores da economia.”

O gestor da Constância coloca nesse grupo as ações de empresas administradoras de shoppings centers como Multiplan (MULT3), Br Malls (BRML3) e Iguatemi (IGTA3), companhias ligadas ao turismo como CVC (CVCB3) e empresas de logística e portos como Santos Brasil (STBP3).

“Esses são os setores que, em uma normalização, olhando para o que acontece com o mundo depois que as vacinas forem distribuídas, têm maior potencial de crescimento”, declara Erse.

Por outro lado, dentre os riscos que podem prejudicar a concretização do cenário mais otimista, o gestor da Constância cita uma demora da vacina em imunizar grandes populações em contraste com uma vigorosa segunda onda do coronavírus.

Outro ponto que começa a tomar forma é a preocupação com um aumento da inflação globalmente por conta da magnitude dos estímulos fiscais e monetários utilizados este ano para combater os impactos econômicos da pandemia. “É um assunto que passa a ter uma importância que não tinha há muito tempo”, diz.

A trajetória do Ibovespa em 2020

O Ibovespa passou todo o início do ano acima dos 100 mil pontos. A perda ocorreu no auge da crise do coronavírus no pregão da sexta-feira, dia 6 de março, quando o benchmark caiu 4,14% a 97.996 pontos.

Quem torceu para o mercado se acalmar e retomar os 100 mil pontos na volta do fim de semana não podia ter ficado mais decepcionado: no dia 9 de março tivemos o primeiro dos seis circuit breakers do ano e o Ibovespa despencou 12,17%, a 86.067 pontos. O motivo para a derrocada foi que além da crise do coronavírus, os investidores ainda tiveram que enfrentar a guerra do petróleo, que estourou no domingo.

A Arábia Saudita – país que mais exporta petróleo no mundo – anunciou que aumentaria substancialmente sua oferta e ofereceria a commodity com até 20% de desconto em alguns mercados, em uma resposta direta à Rússia, que não aceitou reduzir sua produção. Como resultado, o barril do petróleo Brent já abriu em queda de 30% na Ásia enquanto as primeiras bolsas ocidentais levariam ainda mais sete horas para começarem as negociações.

(Leo Albertino/InfoMoney)

O Ibovespa ensaiou uma recuperação no pregão seguinte, subindo 7,14%, mas o repique só serviu para abrir um espaço maior para quedas. Nos dois pregões subsequentes a Bolsa desabou 7,64% e 14,78%, acionando mais dois circuit breakers. A alta de 13,91% logo em seguida foi apenas a prova de que a racionalidade tinha abandonado de vez o mercado financeiro.

No dia 16 de março o Ibovespa caiu mais 13,92%, com o acionamento de outros dois circuit breakers. Em onze dias o principal índice da B3 saiu de 102.233 pontos para 71.168 pontos. Uma alta de 4,85% no pregão seguinte e mais um circuit breaker e queda de 10,35% no outro levaram o índice aos 66 mil pontos.

A retomada gradual

O ponto mais baixo foi atingido no dia 23 de março, quando o Ibovespa, na mínima do pregão, bateu 62.161 pontos. Desde então, a tendência virou e a Bolsa passou a subir aos poucos, fazendo valer o famoso ditado do mercado financeiro de que a Bolsa “cai de elevador e sobe de escada”.

As duas maiores altas no período vieram nos pregões do dia 24 de março, em que o benchmark disparou 9,69%, e do dia 25 de março, no qual o índice subiu 7,5%. Os ganhos vieram em meio ao anúncio de que governo e Congresso dos EUA haviam chegado a um acordo para o lançamento de um pacote de US$ 2 trilhões em estímulos.

Já no dia 6 de abril a Bolsa teve alta de 6,52% seguindo o exterior após o presidente americano Donald Trump afirmar que os EUA estavam passando por um “nivelamento” dos casos do coronavírus em algumas das regiões mais afetadas pela pandemia.

Desde então os mercados globais se apoiaram no aumento de liquidez promovidos pelos bancos centrais, que zeraram taxas de juros e se comprometeram com ambiciosos programas de compras de títulos para injetar dinheiro nos bancos privados e os estimularem a emprestar esse capital e fazer a moeda girar na economia.

Maior banco central do mundo, o Federal Reserve dos EUA reduziu no dia 15 de março os juros em 1 ponto percentual para uma faixa entre 0% e 0,25% ao ano em uma reunião extraordinária fora da agenda. O Fed ainda anunciou a compra de US$ 700 bilhões em títulos do Tesouro americano.

No dia 4 de junho, o Banco Central Europeu (BCE), aumentou em 600 bilhões de euros seu programa de compras de títulos para enfrentar a emergência da pandemia, para 1,35 trilhão de euros mensais.

Aqui no Brasil, o Comitê de Política Monetária (Copom), cortou a Selic no último dia 17 em 0,75 ponto percentual, para 2,25% ao ano.

Com mais dinheiro nas mãos dos investidores e a renda fixa com rendimento próximo de zero ou negativo a solução se torna investir em ações. Para diversos analistas, esse é um dos principais motivos que impulsionaram a recuperação do Ibovespa rumo aos 100 mil pontos.

Além da maior liquidez, o otimismo com a recuperação da economia global também estimulou as compras no mercado de renda variável. Em 5 de junho, o Departamento de Trabalho dos EUA, revelou que o país criou 2,5 milhões de empregos em maio. O número surpreendeu todas as expectativas, com os economistas prevendo destruição de 7,5 milhões de postos de trabalho.

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No Ibovespa, isso se traduziu em uma alta de 0,86% na sexta-feira, dia 5, e de 3,18% na segunda-feira, dia 8. Os dois pregões encerraram a maior sequência de altas da Bolsa este ano: foram sete dias consecutivos de ganhos, que começaram no dia 29 de maio.

Na sexta-feira 10 de julho, na reta final do pregão, o índice ganhou força e, após uma leve queda na véspera, fechou em alta de 0,88%, fazendo com que o índice voltasse aos 100 mil pontos. A partir daí, iniciou-se um ciclo longo do Ibovespa ganhar e perder os 100 mil pontos.

A Segunda onda

Em 29 de julho, o benchmark chegou a 105.605 pontos, mas a partir daí, a Bolsa no Brasil não conseguiu mais acompanhar a disparada registrada pelos mercados internacionais.

A grande virada ocorreu no dia 11 de agosto, quando os secretários especiais de Desestatização e Privatização, Salim Mattar, e o de Desburocratização, Gestão e Governo Digital, Paulo Uebel, pediram demissão do Ministério da Economia.

Colocando mais lenha na fogueira, o presidente Jair Bolsonaro afirmou em 26 de agosto que a proposta do Ministério da Economia para o programa Renda Brasil estava suspensa. Embora o fim do programa reduza a pressão sobre o Orçamento, surgiram temores acerca do que o governo iria colocar no lugar do Auxílio Emergencial, cujo prazo de validade acaba no fim do ano.

Além disso, a forma como o presidente anunciou o sepultamento da proposta trouxe renovadas especulações a respeito de um enfraquecimento da equipe econômica, que estaria perdendo a queda de braço com a ala militar e desenvolvimentista do Planalto.

Se não bastasse a questão fiscal, o exterior também se tornou foco de preocupação com um sell-off nas ações de empresas de alta tecnologia dos EUA que começou em 3 de setembro. Naquele pregão, o Ibovespa caiu 1,2%. Em Nova York, as ações da Apple despencaram 8,01%, enquanto Netflix, Amazon e Alphabet (controladora do Google), recuaram 5%.

Outro problema vindo de fora foi a segunda onda do coronavírus que atingiu a Europa. Com mais de 300 mil casos no continente em uma semana, os países voltaram a atuar com medidas severas de distanciamento social. Alguns países chegaram a implementar lockdowns novamente.

Essa sucessão de fatores levou o Ibovespa a 93.952 pontos no dia 30 de outubro.

Novembro: o rali das vacinas e dos estrangeiros

Mês passado foi agitado por diversas notícias sobre os resultados das vacinas contra o coronavírus na fase 3 de testes, a última antes da análise pela agência de segurança sanitária de cada país.

Pfizer e a BioNTech trouxeram muito otimismo ao anunciarem no dia 9 de novembro que sua vacina teve 90% de eficácia nos grupos de controle, fazendo o Ibovespa subir 2,57% no pregão daquele dia.

Já na semana seguinte, a Moderna informou que sua vacina experimental foi 94,5% eficaz, de acordo com uma análise preliminar, o que garantiu uma alta de 1,63% no dia 16.

Mas o que realmente chamou a atenção no mês passado foi a forte entrada de capital estrangeiro, na contramão da retirada que ocorreu de janeiro a outubro. O investimento estrangeiro na B3 teve um saldo positivo de R$ 30 bilhões.

A equipe de análise da Levante Ideias de Investimento destaca que esse foi o maior valor mensal de entrada de recursos desde que a Bolsa começou a fazer esse levantamento, em 1995.

Para os analistas da XP, há três fatores que explicam esse fluxo de capital para as ações brasileiras. O primeiro é o fim das incertezas relacionadas às eleições americanas, com a vitória consolidada do democrata Joe Biden e sem um controle absoluto do seu partido sobre o Congresso.

Já o segundo fator foi o avanço no desenvolvimento de vacinas contra o coronavírus. As taxas de eficácia acima de 90% na fase 3 de testes das profilaxias criadas por Pfizer/BioNTech, Moderna e Oxford/AztraZeneca animaram os investidores para perspectivas de um futuro livre das preocupações com a pandemia.

O terceiro fator que explica os ganhos da B3 foi a rotação do capital para ações de empresas que atuam em setores mais afetados pela crise da Covid-19, como é o caso de instituições financeiras e commodities, que são justamente os segmentos mais pesados na carteira teórica do Ibovespa.

Segundo os analistas da Levante, a melhora do humor global foi duplamente benéfica para o mercado acionário brasileiro.

“Por um lado, os investidores internacionais se aproveitaram de ações cujos preços demoraram para acompanhar a alta iniciada em outubro, como por exemplo os papéis de bancos. Por outro, a melhora global das cotações de commodities como petróleo e minério de ferro beneficia ações importantes, como Petrobras (PETR3; PETR4) e Vale (VALE3), que têm grande peso na B3 e influenciam o movimento do mercado como um todo.

Ao fim e ao cabo, o Ibovespa subiu 15,9% em novembro, maior avanço mensal do índice desde março de 2016, quando subiu 17%, e o melhor novembro da Bolsa desde 1999, ano em que o benchmark registrou uma valorização de 17,8% no penúltimo mês.

Os primeiros quatro dias de dezembro mostraram a continuidade desse movimento e a Bolsa já voltou aos níveis pré-Carnaval na sexta-feira (4), quando subiu 1,3% a 113.750 pontos.

Com isso, a Bolsa finalmente superou o fechamento de 21 de fevereiro (quando o benchmark terminou a sessão em 113.681 pontos), a sexta-feira pré-Carnaval em que os investidores inadvertidamente saíram para aproveitar o feriado sem ter ideia do que os esperava na quarta-feira de Cinzas (26).

Desde então, bastaram apenas três altas em sete pregões para a Bolsa zerar as perdas no ano. Em destaque ficam os ganhos de 1,88% no dia 10 e os de 1,34% nesta terça.

No dia 10 o destaque foi o movimento do petróleo no mercado internacional (barril do Brent superando US$ 50,00) e o aumento de 500 bilhões de euros nos estímulos anunciado pelo Banco Central Europeu (BCE).

Já nesta terça o principal driver foi a notícia de que congressistas americanos devem finalmente chegar a um acordo sobre um pacote de US$ 748 bilhões em estímulos. O foco é em benefícios para desempregados e empréstimos para pequenas empresas.

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