(Bloomberg) — A violenta invasão do Capitólio dos EUA na quarta-feira irá reverberar na política americana por anos, senão décadas, remodelar as percepções globais sobre a força da democracia do país e se tornar um emblema duradouro da era Trump.

Imagens de uma multidão invadindo o prédio, da polícia armada enquanto protegia a porta de acesso à Câmara dos Deputados e de manifestantes passeando pelo plenário do Senado mostraram o centro da autogovernança dos EUA sitiado. O ato final de uma presidência turbulenta se tornou um retrato assustador das ameaças à democracia do país.

Líderes republicanos finalmente começaram a se distanciar de um presidente que a maioria evitou criticar publicamente depois que Trump instigou manifestantes pouco antes de marcharem para o Capitólio, e que demorou a se pronunciar contra o caos.

Houve pelo menos quatro mortes durante os tumultos de quarta-feira, com uma mulher baleada, informou a polícia da cidade. Congressistas escaparam da Câmara e do Senado, alguns usando máscaras de gás, enquanto manifestantes carregando bandeiras de Trump e confederadas invadiam o prédio. Extremistas postaram fotos no Twitter que disseram ter sido tiradas no gabinete da presidente da Câmara, Nancy Pelosi. Alguns itens foram retirados da sala e um homem exibiu uma correspondência que, segundo ele, estava no gabinete.

Tropas da Guarda Nacional e outros policiais federais foram chamados para ajudar a evacuar o Capitólio, que foi ocupado por cerca de quatro horas. O prefeito de Washington D.C., Muriel Bowser, impôs toque de recolher das 18h às 6h na cidade.

O Congresso teve que suspender o debate sobre as objeções aos votos do Colégio Eleitoral do Arizona, apresentadas por aliados republicanos de Trump – parte do ataque do presidente à legitimidade da vitória de Joe Biden. Assim que o Capitólio foi liberado, líderes do Congresso decidiram retomar o debate à noite, e os senadores foram escoltados de volta à câmara pelo FBI em armadura completa.

Mesmo durante a Guerra Civil e no auge dos protestos nos EUA por causa da Guerra do Vietnã, manifestantes nunca invadiram os centros do poder americano. No entanto, na quarta-feira o Capitólio foi invadido pela primeira vez desde a Guerra de 1812 – quando foi dominado por tropas britânicas invasoras – no exato momento em que os votos estavam sendo contados cerimonialmente para a eleição presidencial, o exercício quadrienal dos EUA para a transferência pacífica de poder.

Os eventos do dia pareciam quase incompreensíveis em uma democracia ocidental há muito estabelecida e geraram acusações de tentativa de golpe. Mais de um político traçou paralelos com a agitação política na América Latina ou no Oriente Médio.

Comentários de líderes estrangeiros ecoaram assustadoramente o tipo de retórica que autoridades norte-americanas costumam usar para persuadir regimes autoritários a aceitar a perda de poder. O primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, disse que é “vital que haja uma transferência de poder pacífica e ordeira” nos EUA. O principal diplomata da União Europeia, Josep Fontelles, disse que os resultados das eleições de 3 de novembro “devem ser totalmente respeitados”.

O ex-presidente republicano George W. Bush disse: “É assim que os resultados das eleições são disputados em uma república das bananas – não em nossa república democrática”.

A Associação Nacional de Fabricantes, uma organização empresarial geralmente favorável aos objetivos da política republicana, emitiu comunicado instando o vice-presidente Mike Pence a “considerar seriamente” invocar a 25ª emenda – o dispositivo constitucional usado para destituir um presidente que não pode cumprir suas funções.

Oposição republicana

O apoio republicano a Trump no Congresso, que se manteve firme quando não condenou supremacistas brancos nos distúrbios de Charlottesville, na investigação sobre a interferência russa nas eleições de 2016 e no seu julgamento de impeachment, já estava abalado por sua recusa em aceitar os resultados da eleição presidencial e seu papel nas derrotas do partido no segundo turno do Senado da Geórgia na terça-feira.

O líder Republicano no Senado, Mitch McConnell, tentou em vão antes dos procedimentos de quarta-feira a dissuadir seus colegas republicanos de fazerem objeções aos votos do Colégio Eleitoral. Pouco antes de a multidão invadir o prédio, ele advertiu em discurso no plenário do Senado que qualquer anulação dos votos certificados pelos estados americanos “prejudicaria nossa república para sempre”.

“Se esta eleição fosse anulada por meras alegações do lado perdedor, nossa democracia entraria em uma espiral mortal”, disse McConnell. “Nunca veríamos toda a nação aceitar uma eleição novamente.”

Em meio ao caos no Capitólio, a vitória do democrata Jon Ossoff contra o republicano David Perdue nas eleições de segundo turno do Senado na Geórgia foi confirmada – cimentando o controle democrata da casa juntamente com o democrata Raphael Warnock, que derrotou Kelly Loeffler.

Reação de eleitores

As cenas de caos e insurreição fracassada em um dos símbolos de democracia mais reconhecidos do país certamente afastarão eleitores moderados, avessos à desordem.

O paralelo mais próximo na história americana recente seriam os distúrbios durante a Convenção Nacional Democrata em 1968, uma imagem que manchou o partido por vários anos, embora tenham ocorrido do lado de fora de um salão de convenções em Chicago, longe da sede do governo.

Um grupo cada vez maior de republicanos responsabiliza Trump diretamente pela violência no Capitólio.

O senador Tom Cotton, do Arkansas, antigo aliado de Trump, disse em comunicado: “Já passou da hora de o presidente aceitar os resultados das eleições, parar de enganar o povo americano e repudiar a violência da multidão”.

Brian Fitzpatrick, deputado da Pensilvânia, um republicano moderado e ex-agente do FBI, disse em tuíte que não havia “nada menos do que uma tentativa de golpe” e que Trump “acendeu a chama do incitamento e é o responsável por isso”.

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