Cogna

SÃO PAULO – As ações da companhia de educação Cogna (COGN3), ex-Kroton, ganharam muito destaque nos últimos meses: após uma forte queda durante o auge da aversão ao risco do mercado com a pandemia do coronavírus (entre 21 de fevereiro e 2 de julho, os papéis caíram 37,38%, enquanto o Ibovespa caiu 15,35%), dos pregões de 2 a 30 de julho os papéis tiveram um verdadeiro salto, de 36,71%, enquanto o principal índice da Bolsa teve ganhos de 9,12% no mesmo período.

Apesar dos resultados não agradarem os investidores no primeiro trimestre, uma vez que já mostraram o impacto da pandemia nos números – com pressão nos processos de captação de alunos deste primeiro semestre e potenciais efeitos negativos nos indicadores de evasão e inadimplência -, um grande catalisador para os ativos no mês de julho foi a expectativa de abertura de capital da subsidiária Vasta na Nasdaq, cujo registro foi formalizado no dia 6.

O foco de atuação da Vasta é fornecer sistemas de ensino e serviços para escolas de educação básica e, com o dinheiro captado através do IPO, a expectativa era de que ocorresse o repagamento de dívidas com a holding enquanto o restante dos recursos seria usado para financiar futuras aquisições.

Tais perspectivas positivas fizeram, como já destacado acima, também com que aumentassem as expectativas de alta para as ações COGN3 e os ativos da empresa ganhassem interesse entre as pessoas físicas.

De forma a alavancar os ganhos e apostando na alta dos ativos, muitos investidores pessoas físicas passaram a entrar no mercado de opções, o que soou um alerta, já que também muitos deles podem não ter o manejo de risco neste mercado, investindo da mesma forma que investiriam em ações.

Vale destacar que, desde a abertura de capital da Vasta, no último dia 31 de julho, os ativos CGNA3 tiveram uma desvalorização de 21,88%, a maior do Ibovespa (que caiu 1,49% no mesmo período), fechando a sessão da última segunda-feira a R$ 7,39, com os investidores embolsando os lucros registrados pela expectativa com o IPO da subsidiária.

Com isso, aqueles que compraram calls – ou opções de compra – da companhia estão prestes a perder todo o capital investido.

O quadro abaixo, segundo dados da última quinta-feira (6), mostram contratos com maior número de “holders” – CPFs ou CNPJs – em toda a B3, sendo todos opções de compra (ou calls) de Cogna com vencimento em 17 de agosto e “fora do dinheiro” – sendo o strike mais próximo o de R$ 9, ou 21,8% acima do preço de tela atual.

A coluna “titulares” mostra quantos CPFs ou CNPJs possuem essas calls, sendo que a soma dos quatro contratos é quase 25 mil titulares (vale destacar que um mesmo titular pode ter os quatro contratos – mas, ainda assim, o número de posições é bastante significativo).

 

Enquanto isso, o valor das opções variava entre R$ 0,01 e R$ 0,04 (veja mais cotações de opções clicando aqui).

O que é o mercado de opções?

Para quem não está familiarizado com o mercado, a opção é um derivativo negociado na Bolsa de Valores. E como qualquer derivativo, seu preço “deriva” da oscilação do ativo ao qual ela se lastreia. No caso de uma opção de ação, o contrato varia de acordo com as oscilações desta ação na B3.

Quem compra uma opção está adquirindo o “direito” de comprar ou vender alguma ação; já quem vende a opção tem a obrigação de atender a exigência daquele que comprou o contrato. Ou seja: se você vendeu uma opção de compra e essa opção for exercida, você terá que vender essa ação ao detentor da opção pelo preço estabelecido; se você vendeu uma opção de venda e ela for exercida, você terá que comprar esta ação ao preço estabelecido.

Existem dois tipos de opções: de compra (call) e de venda (put). Quando um investidor compra uma “call”, ele está adquirindo o direito de comprar uma determinada ação a um preço já estabelecido (que é preço de exercício, ou “strike”) até um dia de vencimento já firmado. Para o investidor que compra uma “put”, ele está adquirindo o direito de vender uma ação até um dia determinado a um valor já estabelecido.

Tanto para “call” como para uma “put”, todas as informações sobre o ativo, o preço de exercício e o vencimento já estão explícitos no contrato. As 4 primeiras letras denominam qual ação é o alvo da opção; a 5ª letra define se é uma opção de compra ou de venda e qual o vencimento da mesma; já os números definem qual o preço estabelecido para exercer este direito.

No caso de “COGNH120”, citada acima: a opção refere-se à ação da Cogna; – H: é uma opção de compra com vencimento em agosto; – 120: define o preço de exercício da opção (obs: nem sempre o número explícito no contrato é exatamente o “strike” exato de uma opção).

Uma opção “fora do dinheiro” (ou out the money) é quando opção se torna inútil para o investidor se ela for exercida no preço presente. A situação contrária, quando o investidor ganharia com a operação ao exercer a opção, é chamada “dentro do dinheiro” (ou in the money).

O caso Cogna

No caso da Cogna, muitos investidores, ao invés de comprar uma ação pelo valor de face – por exemplo, a R$ 9, como a ação chegou a operar no final de julho (antes da forte queda dos ativos) – buscaram uma rentabilidade maior e, acreditando na forte alta dos ativos, entraram no mercado de opções.

Desta forma, caso o investidor projete a ação em forte alta – por exemplo, R$ 15 – ele procura uma opção de compra que lhe permite comprar a ação a R$ 11,80 dentro de uma determinada data – no caso do ativo COGNH120, até o dia 17 de agosto.

Assim, se a ação subisse até esse patamar, ele teria o direito de comprar uma ação que valeria R$ 15 por R$ 11,80. Se o investidor chegou a pagar R$ 0,20 pela opção (como o papel COGNH120 já chegou a operar no dia 23 de julho), ele ganharia R$ 3,20 para cada R$ 0,20 gastos, ou um retorno de 1.500%. Já no mercado de ações, o ganho seria mais modesto, ainda que bastante significativo, de 67%.

Por outro lado, em que a cotação da ação caísse por volta dos R$ 7,40, conforme estão precificados atualmente os ativos COGN3, o investidor que comprasse a ação a R$ 9 perderia cerca de 18% do seu capital investido.

Já no caso de investimento apenas na opção, todo o investimento seria perdido, já que não valeria a pena exercer a opção de comprar uma ação a um valor mais alto do que o cotado até o vencimento desse ativo. E é isso o que está prestes a acontecer com os investimentos de diversos aportadores, “virando pó” uma vez, que, literalmente, não valem mais nada.

Por outro lado, na outra ponta, quem comprou opção de venda estão majoritariamente investidores institucionais.

Desta forma, os analistas e estrategistas de mercado apontam a importância de ter manejo de risco na hora de operar opções e, mais importante, como evitar uma perda tão grande que pode tirar o investidor do “jogo do mercado”, conforme foi destacado em live do Stock Pickers realizada na última sexta-feira (7).

“A opção é uma ferramenta: existe um investimento de longo prazo e existe o trade, que é aproveitar o sobe e desce da Bolsa no curto prazo”, destacou Fernando Góes, analista técnico da Clear e especialista em opções, durante a live. Conforme ressaltou, a opção pode ser um instrumento, inclusive, para tirar o risco ou “alavancar o acerto”, caso a operação dê certo.

O analista ressalta que o investidor deve ter em mente um alvo (stop gain, ferramenta utilizada pelos investidores com o intuito de encerrar uma operação lucrativa), o máximo que ele aceita perder (stop loss) e o valor do investimento.

Como exemplo, ele ressalta que o investidor pode ter comprado mil ações a R$ 7 (totalizando R$ 7 mil de investimentos), possui um stop loss (ordem automática de venda que você programa na sua corretora ao investir no mercado) acionado a R$ 6,50 (aceitando perder R$ 500 em seu investimento total) e um alvo a R$ 10 (ganho máximo de R$ 3 mil, caso fizesse as operações só com ações).

“Se der tudo errado, perco R$ 500. Uma sugestão seria, então, aplicar esses R$ 500 – que perderia se o stop fosse acionado – e colocar em uma opção que poderia abrir um gap, como já observado diversas vezes no mercado durante Brumadinho com a Vale, crise do coronavírus. Assim, estaria super defendido com os R$ 500 (o máximo de perda) e, se acertar na veia, os R$ 500, dependendo do preço em que comprou a opção, poderia ser multiplicado. Obviamente, isso tem um preço, que é acertar o tempo”, avalia.

Desta forma, Goés ressalta: “se usar o maior risco que existe na opção, que é virar pó, zero, perdeu o que colocou. Se colocar o risco a seu favor, pode usá-lo como o maior amigo. Posso colocar um valor que eu possa perder, multiplicar esse valor se der certo e, se der errado, posso até estar defendido”, afirma.

Com isso, ele ressalta que as opções podem ser um bom instrumento – contudo, o investidor deve estar consciente do risco embutido no ativo e elaborar estratégias que possam dirimir o risco de perda, ao invés de resultarem no “sumiço” de todo o capital investido.

Outras estratégias são destacadas pelo analista no vídeo abaixo. Confira: 

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