IRB

SÃO PAULO – Por mais um trimestre, resultados fracos e, mesmo com a expectativa de um ano mais positivo após um 2020 muito turbulento, o ambiente segue de cautela, com os investidores ainda esperando mais sinais para retomar a confiança com o case da companhia (veja mais clicando aqui).

Essa é a avaliação da maior parte dos analistas de mercado após o resultado do IRB Brasil Re (IRBR3) do quarto trimestre do ano passado e do fechamento de 2020, que era um dos mais aguardados pelos investidores devido aos escândalos que fizeram a ação IRBR3 ser a “lanterninha” do Ibovespa em 2020, com queda de quase 77%.

O ano passado terminou com um prejuízo líquido acumulado para o ressegurador de 1,5213 bilhão, ante lucro de R$ 1,210 bilhão no mesmo período de 2019.

Apenas no quarto trimestre do ano passado, o prejuízo totalizou R$ 620,2 milhões, comparável a um lucro de R$ 654,4 milhões nos últimos três meses de 2019 e ante o prejuízo de R$ 229,8 milhões no terceiro trimestre de 2020.

Conforme destaca a Safra Corretora, o resultado negativo é reflexo de números fracos nas principais linhas do balanço e da perda pontual em baixa de crédito tributário do escritório de Londres; a expectativa dos analistas do banco era de um prejuízo menor, de R$ 158 milhões nos últimos quatro meses de 2020. A Levante Ideias de Investimentos também aponta que as perdas se deram principalmente devido a uma menor arrecadação com prêmios ganhos e prêmios retidos, além dos ajustes feitos na operação da resseguradora através da “retrocessão”, ou seja, repassar operações para outros resseguradores.

No relatório de resultados, a companhia apontou que, se  excluídos os impactos negativos do run-off (negócios descontinuados) e dos efeitos one-offs (não recorrentes), a companhia teria apresentado um lucro líquido no quarto trimestre de R$ 190,4 milhões e um prejuízo líquido de R$ 476,2 milhões no acumulado de 2020.

Os prêmios emitidos pela companhia no trimestre somaram R$ 2,0 bilhões, uma leve queda na comparação anual, de 0,9%. A Levante aponta que, ao longo dos outros trimestres, a companhia vinha apresentando crescimento nessa linha, com isso, no acumulado do ano, a companhia emitiu R$ 9,6 bilhões, um aumento de 12,7% quando comparado com 2019.

Já entre os destaques positivos, a equipe de análise destaca a redução no prejuízo com resultado de underwriting (ou subscrição, procedimento para avaliar se aceitam ou recusam determinados riscos para fins de resseguros ou seguros), que chegou a mais de R$ 1 bilhão no segundo trimestre e teve uma melhora gradual até atingir um prejuízo de R$ 194 milhões neste trimestre. Além disso, o índice de sinistralidade total mostrou melhora sequencial de 4,4 pontos percentuais em relação a terceiro trimestre, encerrando o trimestre em 92,1%.

Para a Safra Corretora, a boa notícia do resultado foi o anúncio de que o IRB atingiu o cumprimento regulatório da Susep, órgão responsável pelo controle e fiscalização do setor, para os índices de liquidez e cobertura das provisões técnicas.

No geral, os resultados foram considerados abaixo do esperado, principalmente na linha do prejuízo líquido, mas a Levante apontou que as falas dos executivos da empresa poderiam melhorar as expectativas do mercado, uma vez que os preços das ações, na visão dos analistas, ainda estão sendo influenciados por uma falta de confiança após o caso de fraude.

“Dessa forma, esperamos que uma melhora constante na transparência por parte da companhia no longo prazo seja quase tão impactante quanto seus resultados em si”, avaliam. Cabe ressaltar que, após despencar em 2020, 2021 segue sendo um ano complicado para a ação do IRB, com queda acumulada de 18,7% do ativo até a sessão da véspera.

Na sessão desta sexta-feira, em reação ao resultado fraco, os ativos IRBR3 chegaram a cair até 6,32% no início da sessão, a R$ 6,23. Às 13h51 (horário de Brasília), os papéis tinham baixa de 3,46%, a R$ 6,42.

Recuperando a confiança, mas…

Durante a teleconferência, os executivos da companhia reforçaram o discurso de que estão limpando o balanço da companhia, além de destacarem as perspectivas mais positivas para 2021.

Antonio Cassio dos Santos, CEO do IRB, apontou que a empresa cancelou 11% dos contratos do portfólio entre julho e dezembro no processo de “re-underwriting”, ressaltando que isso significa que ela está disposta a abrir mão de faturamento bruto em benefício dos resultados.

Nos últimos seis meses, ressaltou, a equipe analisou 500 contratos, cancelando as principais operações de vida detratoras de resultados do exterior, além de diminuírem as suas operações estrangeiras. “Saímos de ‘properties’ internacional, porque, quando comparados com o Brasil, era preferível fazer esses contratos no país do que no exterior em termos de resultados”, apontou.

Mostrando confiança, Santos ainda apontou que o IRB voltará a dar lucro em 2021 e estará a “pleno vapor” em 2022/2023, e projetando que a companhia vai publicar o guidance (que traz as perspectivas para os principais números da empresa) para o biênio 21/22 após a assembleia dos acionistas, em março. Assim, destacou que o desempenho do IRB em 2021 será “muito melhor” do que em 2020 com efeito das ações anteriores de recuperação do balanço.

No próprio release de resultados, o CEO havia citado a série de medidas para a recuperação da confiança na empresa. “Em meio a um ano que vai ser lembrado globalmente pelos efeitos da pandemia da covid-19, enfrentamos o desafio de superar uma crise de credibilidade motivada por irregularidades identificadas pela divulgação de informações inverídicas sobre a base acionária da companhia em março de 2020, pela instauração da fiscalização especial da Susep, em maio, devido à insuficiência de ativos garantidores das provisões técnicas do IRB, naquele momento da ordem de R$ 1 bilhão, e em junho pelo refazimento das demonstrações financeiras de 2019/18 que trouxeram à luz a real situação econômico-financeira da empresa”, apontou no relatório de balanço.

A Levante também ressalta que, depois de confirmar a fraude nas reservas técnicas, a companhia está fazendo o necessário para arrumar a casa com uma série de medidas realizadas em 2020, entre elas, capitalização, emissão de debêntures, venda de ativos e operações estruturadas redutoras de provisão, tendo um impacto total de R$ 4,8 bilhões.

Cabe destacar que o início da turbulência para o IRB começou em fevereiro de 2020, quando a a Squadra, uma das mais tradicionais gestoras de ações do Brasil, publicou uma extensa carta (de 184 páginas, mais precisamente) apontando uma série de “inconsistências” no balanço do IRB, gerando muita repercussão entre os investidores. Três semanas depois, um novo documento da gestora após o IRB rebater os pontos destacados pela Squadra. Entre as acusações, estavam a de avaliações otimistas da sinistralidade, venda de participação em ativos “non-core” sem detalhamento, que teriam impulsionado o lucro do IRB.

Mas esse foi apenas o começo: em março, ganhou destaque ainda a polêmica após a notícia enganosa de que Warren Buffett teria comprado ações da companhia, negado posteriormente pela Berkshire Hathaway, do megainvestidor americano, aumentando a uma crise de credibilidade para a companhia e levando à saída de dois importantes executivos.

Naquele mês, vale lembrar, no auge da polêmica sobre o caso Berkshire, muitas casas interromperam a sua cobertura para o ativo, esperando maior visibilidade sobre os verdadeiros números da empresa e também sinais da nova gestão, uma vez que os principais comandantes haviam saído em meio aos escândalos. Em meio a tantas turbulências, a gestão da companhia mudou (com Santos assumindo a presidência da empresa em março), houve uma virada na comunicação e, gradativamente, a empresa se tornou mais transparente.

Depois de onze meses em busca de restaurar a confiança dos investidores, Santos negou a existência de “esqueletos” remanescentes no resultado do IRB, citou o período intenso à frente da empresa e afirmou na teleconferência que, nas próximas 3 a 4 semanas, se chegará a um “denominador comum” com a companhia sobre a sua permanência no cargo. “Tenho que considerar anos de vida que perdi para o estresse dos últimos seis meses”, afirmou o CEO.

Assim, mesmo em meio à visão mais positiva para a companhia, ainda há muitas incertezas no radar e receio no mercado sobre a velocidade de recuperação, o que justifica a cautela praticamente generalizada dos analistas com os ativos.

“Olhando apenas para os negócios restantes, o IRB continua mostrando alguma tendência de recuperação, sugerindo que 2021 pode ser um ano melhor. Mas, por enquanto, preferimos manter uma visão cautelosa para IRB Brasil”, apontam os analistas da Safra Corretora, que possuem recomendação neutra para os ativos, com preço-alvo de R$ 7,80 para o papel (alta de 17,29% frente o último fechamento).

Na mesma linha, o Credit Suisse manteve a recomendação underperform (desempenho abaixo da média do mercado) para os ativos IRBR3, com preço-alvo de R$ 7,50 (potencial de valorização de 12,78%). “Enquanto celebramos as iniciativas da gestão para transformar a empresa e focar em operações lucrativas ao mesmo tempo em que melhora os padrões de governança, acreditamos que as operações de run-off (descontinuadas) ainda podem pesar nos resultados no curto prazo e, portanto, preferimos manter uma postura cautelosa”, avaliam.

A cautela é a palavra de ordem para as casas de análise que cobrem o papel, conforme apontam dados da Refinitiv: de 8 casas, 4 possuem recomendação neutra e 4 de venda.

Conforme destaca a Levante, a companhia segue líder em seu setor e as medidas feitas ao longo do ano mostram comprometimento no turnaround [virada] da companhia, “porém o grande problema da IRB Brasil não é apenas operacional, mas reputacional e quebra da confiança é uma ferida que pode demorar a cicatrizar”.

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