Joaquim Silva e Luna (Foto Marcelo Camargo - Agência Brasil)

RIO DE JANEIRO (Reuters) – Para muitos investidores, a indicação do general da reserva Joaquim Silva e Luna para a presidência da Petrobras (PETR3; PETR4) foi um movimento inesperado –e mal recebido.

O presidente Jair Bolsonaro anunciou o nome de Luna, de 71 anos, para comando da estatal em uma publicação no Facebook em fevereiro.

Luna, que deve ser eleito conselheiro da Petrobras em assembleia de acionistas nesta segunda-feira, não possui experiência no setor de óleo e gás.

Seu último cargo, chefiando a usina hidrelétrica de Itaipu, na fronteira com o Paraguai, está muito distante da presidência de uma das maiores empresas do Hemisfério Sul.

Mesmo assim, Luna e aqueles que o cercam insistem que o nervosismo do mercado é exagerado.

Seus amigos afirmam que ele possui um histórico de cortes agressivos de custos, algo não muito diferente de seu antecessor, Roberto Castello Branco, que recebeu aplausos do mercado por vender bilhões de dólares em ativos não essenciais, em uma tentativa de reduzir a enorme dívida da petroleira.

Luna se comprometeu a impedir que políticos indiquem aliados pouco qualificados para cargos importantes na Petrobras, um problema sério nas administrações anteriores.

“Indicações políticas não fazem parte da minha ideia de gestão”, disse Luna. “Já enfrentei pedidos e pressão (política), mas não aceitei e não foi fácil.”

Luna é conhecido por seus modos “espartanos”, segundo José Carlos Aleluia, conselheiro de Itaipu.

Nascido em Pernambuco, Luna evita jantares extravagantes de negócios, acorda cedo e é uma das primeiras pessoas a chegar aos escritórios, de acordo com Aleluia.

Militar de carreira, Luna atuou como ministro da Defesa em 2018. Ele é o primeiro militar a comandar a Petrobras desde a década de 80.

“Se ele tem uma vida social, não a mistura com o trabalho”, disse Aleluia.

DESDÉM POR EXCESSOS

As atitudes ascéticas de Luna também se refletem em um desdém pelo excesso e pela redundância, acrescentou Aleluia.

“Ele uma vez me disse: ‘se eu comprar uma calça, coloco outra fora; se eu comprar um par de sapatos, coloco outro fora’”, contou o ex-deputado federal Carlos Marun, que ocupa um cargo no conselho de Itaipu.

Entre suas iniciativas em Itaipu, Luna fechou os escritórios da hidrelétrica em Curitiba e reduziu drasticamente sua pegada na capital federal, Brasília.

Luna deve ser eleito para o conselho de administração da Petrobras em uma assembleia nesta segunda-feira. Na sequência, o conselho –controlado pelo governo– deve elegê-lo como CEO.

Nesse ínterim, Luna conversou informalmente com Castello Branco e com outros especialistas do setor de petróleo e gás no Brasil, disse ele à Reuters recentemente.

Entre as decisões mais aguardadas, está a forma como o novo CEO lidará com os preços dos combustíveis.

Castello Branco foi demitido após a Petrobras promover diversos aumentos nas cotações dos produtos, o que irritou Bolsonaro.

O anúncio da saída do executivo fez com que as ações da Petrobras entrassem em queda livre, em meio a temores generalizados de um aumento na interferência do governo na empresa. De 2011 a 2014, a Petrobras perdeu cerca de 40 bilhões de dólares por vender combustíveis abaixo da paridade internacional por orientação do governo.

Em entrevistas, Luna disse que a nova política de preços da empresa ainda não foi definida, mas que será determinada pelo governo.

Segundo ele, seria crucial para o governo –e não para a empresa– pagar a conta por preços de combustíveis abaixo do mercado. Ainda assim, disse Luna, a Petrobras deve pensar em toda a sociedade, e não apenas nos acionistas, ao definir sua política de preços.

“Tem que se buscar o equilíbrio”, afirmou.

Luna e aqueles em seu entorno dizem que ele valoriza muito a experiência técnica e costuma mudar de ideia quando apresentado a evidências convincentes.

Na companhia, um de seus primeiros desafios será superar o ceticismo generalizado em relação à sua falta de experiência no setor, bem como a rápida rotatividade no alto escalão da estatal.

Diversos executivos e membros do conselho renunciaram nas últimas semanas, ou disseram publicamente que planejam acompanhar Castello Branco após a saída deste.

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