SÃO PAULO – A Movida (MOVI3) divulgou seus resultados referentes ao primeiro trimestre de 2021 nesta terça-feira (27), após o fechamento do pregão. Após um quarto trimestre positivo, nos primeiros três meses de 2021, a empresa apresentou também bons resultados. Os ganhos foram impulsionados pelo avanço da tecnologia em canais digitais e pela retomada na demanda por carros alugados e seminovos.

A receita líquida total chegou a R$ 805 milhões no primeiro trimestre de 2021, queda de 20% na comparação com o primeiro trimestre do ano passado. O Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciações e Amortizações ajustado (Ebitda, na sigla em inglês), por sua vez, ficou praticamente estável na comparação com o último trimestre de 2020, atingindo R$ 304,5 milhões, retração de 0,3%. Mas o salto foi de 35,3% na comparação com o primeiro trimestre do ano passado.

Já o lucro líquido da empresa foi de R$ 109,5 milhões no primeiro trimestre, praticamente o dobro do apresentado no primeiro trimestre de 2020, quando atingiu R$ 55,1 milhões.

“O resultado desse trimestre é reflexo do aprendizado que tivemos com a pandemia. A empresa ficou melhor após enfrentar um cenário adverso e complexo. Melhoramos alguns aspectos: reforçamos os canais digitais e adotamos uma agenda de decisão dinâmica e flexível”, pontuou Edmar Lopes, CFO da empresa em entrevista ao InfoMoney. “Além disso, vimos a demanda por aluguel se recuperar.”

As ações da empresa fecharam o pregão desta terça (27) em queda de 0,9%, cotadas a R$ 16,98. Confira os destaques do balanço:

Aluguel x Carros por assinatura 

A empresa apresentou uma receita líquida recorde no segmento de aluguel tradicional, chamado de RAC (sigla para Rent a Car, em inglês): foram R$ 365,1 milhões no primeiro trimestre de 2021. A alta foi de 12,2% na comparação anual.

Esse segmento atende pessoas físicas e empresas. Conta com produtos que tem prazos menores do que a locação anual, como aluguel diário ou por três a seis meses.

O bom resultado aconteceu mesmo com uma frota de carros menor nesse segmento. Foram cerca de 70 mil unidades, ante cerca de 78,2 mil unidades no primeiro trimestre de 2020. Foram 5 milhões de diárias alugadas no segmento de RAC durante o último trimestre, recorde histórico para a empresa.

Lopes destacou que, neste trimestre, a empresa lidou com uma alta demanda no aluguel. Foi uma continuação da retomada vista no fim do ano passado, apesar de o setor automotivo enfrentar uma fase difícil: as vendas nos primeiros três meses do ano seguem abaixo do mesmo período do ano passado.

Até março, foram 497.885 emplacamentos em 2021, comparado a 532.506 entre janeiro e março de 2020, uma queda de 6,50%. Nos primeiros dois meses de 2020, ainda não havia o impacto da pandemia do novo coronavírus.

O outro segmento da empresa é o GFT (Gestão e Terceirização de Frotas), que tradicionalmente contava com alugueis mais longos (mais de um ano) de frotas para empresas. Recentemente, a frente ganhou um novo braço de negócio, de carros por assinatura. O cliente pessoa física pode alugar um carro por até três anos.

Nesse caso, a expansão foi de 31% na receita líquida no primeiro trimestre versus o mesmo período de 2020. A frota desse segmento fechou o trimestre com 52,4 mil unidades, acima das 40,8 mil unidades dos três primeiros meses de 2020. “A receita líquida atingiu R$ 165,3 milhões e a receita média por carro chegou a R$ 1.231 por mês”, diz o relatório da empresa.

Segundo Lopes, o GTF deve crescer mais rapidamente neste ano. “Acreditamos que o produto de carro por assinatura deve vai crescer muito em 2021, e vamos apostar bastante nesse segmento, que foi importante nesse primeiro trimestre”, diz Lopes.

Pedro Bruno, analista de transportes e bens de capital da XP, ressalta que não é de hoje que a Movida tem batido na tecla de acelerar o ritmo do GFT. “O segmento está passando por uma transformação. Embora o carro por assinatura hoje seja um complemento de negócio, por ser incipiente no mercado, tem muito potencial em função da mudança de comportamento das pessoas, que começam a ver nessa opção um bom custo-benefício”, diz.

De fato, esse segmento de mercado vem sendo observado de perto pelos players que montam os carros usados nas assinaturas: Volkswagen, Audi, Fiat, Renault, entre outras montadoras já têm serviços de carros por assinatura rodando, além dos programas das principais concorrentes da Movida, Unidas (LCAM3) e Localiza (RENT3).

Seminovos e dependência das montadoras

Outro braço de negócios da Movida é o mercado de venda de seminovos, que vem se beneficiando da falta de oferta de carros zero – o que gerou aumento dos preços nas duas frentes. O InfoMoney explicou essa dinâmica em uma reportagem anterior.

“A pandemia, a demanda, a cadeia de fornecimento de peças e outros imprevistos que estão afetando a produção de carros estão também impulsionando o preço do seminovo. A gente se beneficia disso. A margem bruta [diferença entre o preço de venda e seu custo de aquisição do carro] de seminovos atingiu recorde de 22%”, ressalta Lopes.

Em termos de receita líquida, o segmento apresentou R$ 274,5 milhões no primeiro trimestre de 2021, queda de 51% na comparação com o mesmo período do ano passado. No entanto, foram 5.356 unidades vendidas, com um preço médio de cerca de R$ 52 mil – o que representa 29% a mais do que o visto no mesmo trimestre do ano passado.

“Essa situação é temporária, deve se normalizar no segundo semestre, e estamos cientes disso. Mas o preço no patamar atual nos dá mais margem e reduz a depreciação”, diz Lopes.

Bruno, da XP, pontua que a dinâmica da Movida e de outras locadoras é clara: vender seminovos por necessidade, para reciclar a frota de carros. “É um negócio de eficiência. O core dela é alugar, e para fazer isso precisa comprar e vender. Embora a venda de seminovos seja um negócio anexo importante, está longe de ser um dos principais resultados da empresa”, diz o analista.

“Isso porque, na prática, a venda de seminovos tem peso importante na composição da receita mas não representa nada. A empresa precisa comprar o carro, que vai depreciar, e vender basicamente para repor o valor da compra. Geralmente, não há ganhos reais nesse processo, não é daí que vem o lucro principal. Tem que reciclar a frota, porque precisa disponibilizar o carro para o cliente com qualidade, mas não tem como jogar fora, então a empresa vende. A rede própria de seminovos foi uma saída que as empresas do setor como um todo encontraram de viabilizar a necessidade de trocar a frota da melhor maneira possível”, complementa.

Porém, como ressaltou Lopes, a dinâmica positiva com os seminovos tem data marcada para acabar. “O principal ativo da Movida é o carro. Se o preço está subindo, o estoque da empresa se valoriza. Assim, quando vende, perde menos dinheiro. O problema é que o estoque vai acabar, e esse é o prazo que a empresa tem com esse ciclo positivo”, avalia Bruno.

Segundo ele, o desafio da empresa daqui para frente será conseguir manter a rentabilidade quando o estoque a acabar e precisar comprar carros novos. “Vai pagar mais caro enquanto não houver a normalização da produção, que deve acontecer de forma suave, mas é um processo que não é de um dia para o outro. Como consequência, vai ter que ajustar a precificação do aluguel, eventualmente podendo aumentar os preços para o cliente final. É um equilíbrio complexo e que a empresa deve lidar ainda neste ano”, explica o analista da XP.

A Movida, bem como outras locadoras do setor, depende diretamente do ritmo de produção das montadoras. A demora para a retomada e normalização nos processos das fábricas é uma grande preocupação. “Para a Movida, é super interessante que as fábricas voltem a funcionar. Entendemos que a demanda existe e precisamos atendê-la sob a ótica do aluguel. A suspensão da produção limita nosso crescimento em todas as frentes”, diz Lopes.

Apesar de pontuar que a empresa vem aprendendo muito desde o ano passado, conseguindo navegar pelo contexto de pandemia, a imprevisibilidade não ajuda na criação de boas expectativas. “É um desafio lidar com tanta volatilidade e abre e fecha e função de restrições e lockdowns. Não sabemos quando as montadoras vão regularizar a oferta de carros. Hoje, temos pouca visibilidade. Começamos o ano imaginando que a regularização aconteceria até julho, e não vai acontecer. Esse é o maior desafio, um ponto de interrogação”, diz Lopes.

Aposta na tecnologia

Lopes credita boa parte dos resultados vem do esforço da companhia em melhorar seus canais digitais, focar na experiência do cliente e facilitar o processo de aluguel. “É uma estratégia perene na companhia: queremos cada vez mais melhorar toda a estrutura de tecnologia. Incluindo canais próprios como o site e o aplicativo, mas também canais indiretos para captura de leads“, diz.

Um diferencial vem sendo web check-in, que permite o aluguel de carros via apresentação de QR Code após o cliente escolher modelo e placa pela internet, segundo Lopes. “Queremos agilizar os procedimentos e chegar à precificação personalizada e individualização das ofertas de marketing. Com a tecnologia, consigo identificar hábitos. Já começamos a fazer isso, mas ainda nada massivo. Por exemplo, se a pessoa sai de São Paulo para o Rio de Janeiro com um SUV uma vez por mês, já sei que tipo de modelo oferecer e de repente penso em descontos. Essa estratégia leva valor para o cliente”, afirma.

ESG

A sigla ESG representa a busca por melhores práticas ambientais, sociais e de governança, e se tornou conhecida inclusive no mundo dos investimentos. O movimento significa aplicar o dinheiro de maneira responsável, indo além da rentabilidade. Para uma empresa de carros à combustão, a pressão por parte dos investidores pode aumentar com o passar do tempo.

Lopes garante, no entanto, que a empresa vem desenvolvendo planos para se alinhar às métricas de ESG. “Somos a primeira empresa de carros a integrar o Índice de Sustentabilidade Empresarial [ISE] da B3. […] Também temos compromisso com redução da emissão de carbono: até 2030, devemos ter 20% da frota total elétrica e híbrida. Mas vamos depender do ritmo da indústria. Os números de carros desse segmento ainda são tímidos”, diz.

Ainda há espaço para crescer?

O diretor financeiro da Movida já havia afirmado que a companhia vai continuar crescendo em 2021, mas em um ritmo cauteloso, já que a pandemia continua em estágio avançado no país.

“Temos ciência do cenário, mas ainda entregamos um trimestre positivo. Entendo que o mercado é grande. Vai ter espaço para o carro de assinatura, bem como para o aluguel mais tradicional, e também para a venda. A concorrência, inclusive das montadoras, é bem-vinda. Nos beneficiamos pela economia do uso no lugar da posse e há uma tendência nesse sentido no Brasil, impulsionada pela pandemia. Estamos otimistas com os fundamentos do mercado”, avalia Lopes.

Em relatório assinado por Bruno e outros analistas da XP, é explicado que, apesar do forte crescimento vivenciado por Movida, Localiza e Unidas desde 2015, “ainda há espaço tanto para maior consolidação de concorrentes de baixa escala, quanto para forte crescimento orgânico no segmento RAC. Do lado do aluguel de frotas (GFT), as avenidas de crescimento permanecem sólidas, com um mercado ainda subpenetrado de aluguéis corporativos de longo prazo e desenvolvimento de novos produtos [carros por assinatura], ampliando a demanda”.

Para ter uma ideia do potencial de crescimento, o relatório da XP mostra que o mercado potencial endereçável ao setor no Brasil chega a cerca de 23 milhões de carros no segmento GFT, enquanto as três principais empresas do setor possuem juntas uma frota total de apenas 193 mil unidades no setor de carros por assinatura e de aluguel de frotas para empresas. “Ou seja, há muito espaço para crescimento”, diz Bruno.

Para Lopes, em meio à concorrência e o espaço que ainda há para se capturar no mercado, o nível de serviço e o foco em pessoa física serão diferenciais para a Movida. “Nosso foco em experiência do cliente no digital e na loja, além do estado da nossa frota, vão ser atrativos. Além disso, a gente escolhe as batalhas. Temos a vocação do cliente pessoa física e vamos focar cada vez mais nisso”, diz o CFO da Movida.

Bruno diz que o segmento de aluguel tem margens boas, mas que é super concentrado, e que a Movida não se diferencia de forma evidente das principais concorrentes. “Movida, Localiza e Unidas dominam o setor hoje e vêm se consolidando como os principais players. O que eu vejo é uma grande diferença de performance dessas três companhias na comparação com empresas de aluguel de menor porte, devido ao foco em inovação e infraestrutura, o que permite escalar o negócio”, diz.

Fusão Localiza e Unidas

A Movida surpreendeu o mercado ao pedir ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) a reprovação do acordo de fusão entre Localiza e Unidas no início de março, alegando “preocupações concorrenciais dela decorrentes”. As ações desabaram na B3, caindo mais de 9% no pregão do dia 8 de março.

Ao InfoMoney, Lopes afirmou que a empresa só vai se posicionar sobre o assunto no processo no Cade. Durante a entrevista no projeto Por Dentro dos Resultados, no qual CEOs e outros executivos importantes de empresas da Bolsa comentam os balanços trimestrais, Lopes comentou sobre a mudança na visão da Movida em relação à fusão entre as concorrentes Unidas e Localiza.

“Sim, nós mudamos de ideia. Num primeiro momento, a gente disse que não iríamos nos opor. A nossa visão sobre a transição não muda, ela é neutra. Mas, ao longo do tempo, a gente recebeu diversos questionamentos de investidores, clientes, fornecedores e analistas sobre o que a gente ia fazer sobre a operação. Discutindo com advogados, a gente chegou à conclusão de que estar presente, se manifestar, temos mais upside do que downside, como a gente diz no jargão financeiro”, disse.

No ano, todas as empresas têm quedas acumuladas de dois dígitos: Movida acumula baixa de 15,93%, enquanto Localiza tem queda de 10,73% e Unidas, caída de 14,56%.

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