A disputa comercial entre China e Estados Unidos ganhou um novo capítulo em 22 de março de 2018, quando o presidente norte-americano Donald Trump anunciou uma lista de tarifas, que totalizavam cerca de US$ 50 bilhões, sobre importações provenientes da China, baseando-se na Lei de Comércio de 1974

À época, Trump justificou a medida citando um suposto histórico de “práticas comerciais desleais” por parte do governo chinês, além de acusar o país asiático de roubo de propriedade intelectual.

Em retaliação, a China impôs tarifas em mais de 128 produtos norte-americanos, entre eles a soja, uma das principais commodities exportadas pelos Estados Unidos.

O principal motivo para a atual disputa comercial tem como base uma possível transformação do cenário econômico global: uma “mudança” de poder entre as principais economias, em que a ascensão da China e a queda no crescimento dos Estados Unidos desempenham um papel crucial.

Coloquei mudança entre aspas propositalmente, porque eu, Francine, não acredito que a China tomará o primeiro lugar dos Estados Unidos. Além de ter como base diversos dados e fatores históricos, vou utilizar as informações de um vídeo incrível sobre o tema produzido pela Dahlia Capital, gestora de recursos independente, para resumir meus motivos:

– Geografia: os Estados Unidos têm acesso aos dois maiores oceanos, Atlântico e Pacífico, o que permite comércio com Europa e Ásia de forma muito eficiente. Além disso, fazem fronteira com apenas dois países, que são bastante amigáveis, por sinal: México e Canadá.

– Tecnologia: os componentes fabricados em território norte-americano estão por todos os lados: celulares, computadores, redes sociais, medicamentos etc. Não à toa, 30% de todo o dinheiro investido no mundo com pesquisa e desenvolvimento vem de lá, e 60% dos pesquisadores de inteligência artificial vivem na terra do tio Sam.

– Poder de atração: os Estados Unidos ainda atraem muitos estudantes e trabalhadores altamente qualificados de outros países.

Quando cito essas informações, como contrapartida sou bombardeada com vários dados mostrando que a China ainda superará os Estados Unidos. Vou citar apenas dois:

– As exportações dos Estados Unidos para a China contabilizaram US$ 130,37 bilhões em 2017, enquanto as importações de produtos chineses pelos norte-americanos somaram, no mesmo ano, US$ 505,6 bilhões.

– A China também já ultrapassou os Estados Unidos em paridade de poder de compra e, com base nas tendências atuais, pode se tornar a maior economia do planeta (medida pela taxa de câmbio do mercado) em aproximadamente dez anos.

O fato é que eu poderia citar aqui inúmeros outros dados e fatos que fariam você escolher entre Estados Unidos ou China o ganhador desta queda de braço econômica e comercial. Mas e se eu disser que acredito que os dois países (é isso mesmo, não apenas um deles) se consolidarão como as grandes potências no futuro, isolados no topo pelos próximos 50 anos, pelo menos?

Talvez você não saiba, mas o país que detém a maior participação da dívida pública norte-americana é justamente a China! É isso mesmo, os Estados Unidos são detentores da maior dívida pública do mundo, algo em torno de US$ 21 trilhões – cerca de R$ 81,27 trilhões no câmbio de hoje.

Vale lembrar que dívida pública é a soma da quantia devida pelo governo federal, que, para levantar recursos públicos sem aumentar impostos ou imprimir dinheiro, emite títulos de dívida pública, também conhecidos como Tesouro Direto – aqui nós fazemos isso também. As pessoas investem nesses títulos e recebem juros pagos pelo governo federal como forma de recompensa.

No caso da dívida pública norte-americana, os investidores domésticos, isto é, investidores situados nos Estados Unidos, detêm 32,5% dela; o Federal Reserve (Banco central do país), 11,2%; o governo federal, 27% da dívida; e investidores estrangeiros, 29,3%. Entre estes, a China é o país que detém a maior participação da dívida pública norte-americana, em torno de 5,6%.

Isso faz do gigante asiático um credor dos Estados Unidos e, por tabela, torna os dois países “parceiros improváveis” – tal como o título do livro do professor Julian Gewirtz, da Universidade de Harvard –, não apenas na questão da dívida pública, mas também, como escrevi no começo do texto, por serem parceiros comerciais em muitas frentes.

E vou além. O contínuo crescimento econômico e tecnológico da China é bom para os Estados Unidos, e vice-versa, pois um país puxa o outro para se desenvolver ainda mais, o que proporciona reflexos positivos para o resto do mundo – e aqui entramos nós.

Na nossa carteira de investimentos, China e Estados Unidos podem e devem conviver harmoniosamente, seja via fundos de investimento e BDRs, seja, até mesmo, via ações. É muito saudável para uma carteira diversificada ter exposição a dois países tão distintos e com tanto potencial de crescimento, principalmente em um setor tão forte lá fora, mas ainda escasso no Brasil, como é o caso de tecnologia.

Assim, quando se trata de investimentos, não precisamos escolher apenas um lado, time China ou time EUA. Não estamos lidando com uma partida de futebol. Podemos, sim, aproveitar os aspectos dessa disputa tão acirrada para diversificar nossa carteira de investimentos em produtos com grande potencial, a fim de obter melhores retornos financeiros.

Enquanto os dois países se mantiverem em uma competição que tenha como meta apenas o desenvolvimento econômico, ótimo. Pois, neste caso, os vencedores serão nós, investidores e investidoras.

Um abraço,

Francine Balbina

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