Católico, católica ou não, pouco importa: você provavelmente reconhece a frase que dá título à minha coluna de hoje. É uma adaptação de um dos versos finais da oração do Pai Nosso.

Mesmo não sendo uma pessoa religiosa, a cada dia que passo trabalhando com investimentos, eu vejo exemplos de investidores – de iniciantes a profissionais mais experientes – que, caso tivessem levado esse pensamento em consideração, ou seja, evitado cair em tentação ao realizarem suas escolhas, teriam se preservado de grandes prejuízos.

Recentemente, me chamou atenção no Fintwit – grupo de pessoas interessadas no mercado que trocam ideias no Twitter – a grande quantidade de investidores que perderam dinheiro ao apostar em opções de compra da empresa Cogna.

No jargão de mercado, dizemos que essas opções “viraram pó”, o que quer dizer, de forma simples, que o investidor ou a investidora que apostou na estratégia teve o valor do seu investimento zerado, perdeu o dinheiro investido.

O cenário traçado por esses investidores em relação ao preço da ação não se concretizou no período estimado e, por isso, as opções de compra de Cogna perderam seu valor na data de liquidação.

Pode ser que a empresa venha a valorizar no futuro, mas, quando o assunto é derivativos, o período para valorização e desvalorização tem um peso importante na decisão.

Não basta apenas acertar o cenário que projetamos para o preço da ação, ele tem que acontecer dentro de um determinado intervalo de tempo.

Em minha opinião, realizar investimentos tão arriscados a ponto de você poder perder uma parte relevante do seu capital – tal como deve ter ocorrido com algumas pessoas das quais li relatos a respeito na rede – deveria ser algo muito bem pensado.

Quem opta pela aposta deveria tomar o cuidado de alocar uma proporção de capital naquele instrumento cuja possibilidade de ganho superasse os riscos de perda. Muitas vezes, não é o que ocorre.

Mas isso não é algo exatamente simples, eu entendo. Os investidores, novatos ou experientes, estão todos os dias expostos às tentações de correr mais risco do que seria adequado, na tentativa quase imprudente de alavancar exponencialmente seus ganhos.

Eu mesma já senti esse ímpeto muitas vezes – e, sim, já perdi dinheiro caindo nessa tentação também.

O exemplo que eu trouxe acima e utilizei como gancho para falar sobre o assunto foi o mais recente que lembrei, mas são incontáveis os casos de alocação inadequada em risco dos quais facilmente me recordo.

Posso dizer para você que até mesmo gestores muito experientes já se deixaram cair nessa tentação, seja concentrando demais a participação de uma ação num fundo, seja não equilibrando suas apostas direcionais.

Neste ano, alguns fundos bastante famosos do nosso mercado sofreram quedas fortes com uma alocação que deixou alguns de seus cotistas insatisfeitos.

Em determinados casos, gestores podem tomar decisões muito focadas em um cenário, como apostar, ao mesmo tempo, na alta da Bolsa brasileira e contra o dólar, o que, em um ambiente adverso, pode levar a uma perda nas duas exposições.

Mas não pense que apenas investidores individuais e gestores passam por isso. Podemos também lembrar de episódios que ocorreram em grandes empresas, como o caso da Sadia e a enorme perda com derivativos, que a fez ter um prejuízo enorme.

Em 2008, com a crise do subprime, a companhia do setor de alimentos registrou um prejuízo de mais de R$ 2 bilhões, com perdas em ativos que foram apelidados de “derivativos tóxicos”.

Outra “vítima” desse instrumento foi a empresa de celulose Aracruz, que teve à época um prejuízo de R$ 4 bilhões.

No caso delas, ocorreu uma exposição maior do que seria ideal em um cenário de crise em derivativos cambiais, que deveriam ter a função de proteger as receitas de exportações das empresas contra a desvalorização do dólar.

O que ocorreu? Quando a crise veio à tona, o dólar subiu subitamente, e as empresas amargaram fortes perdas com o instrumento.

Mas meu intuito aqui não é o de criticar ninguém. Pelo contrário, quero mostrar o que, há muitos e muitos anos, o trecho da oração já pedia para nós: não caiamos em tentação.

Afinal, somos reles mortais, cheios de defeitos e facilmente atraídos à menor das vontades.

Nesse caso, eu, outra reles humana cheia de defeitos, estou apenas pedindo a você que não caia na tentação de fórmulas mágicas que vão deixar você rico ou rica do dia para a noite com um investimento.

Se isso pode acontecer? Claro que sim. Da mesma forma que você pode ganhar na Mega Sena também. As chances, no entanto, são muito, muito baixas.

Por outro lado, a possibilidade de você investir uma quantia grande demais por conta de um cenário, e ele não se concretizar, levando a perdas consideráveis, é bem comum.

É como disse o economista americano Paul Samuelson: “investir deve ser mais como ver a tinta secar ou ver a grama crescer. Se você quer adrenalina, pegue US$ 800 e vá para Las Vegas”.

Se você considerou todos os cenários possíveis, e não apenas aquele que sua mente tenta pregar que é o correto, provavelmente você terá uma alocação bem diversificada e estará, dessa forma, protegido ou protegida caso haja uma surpresa decorrente de um cenário adverso.

Qual analista ou gestor adivinhou que teríamos uma pandemia quase 100 anos depois da última ocorrida? Nenhum nome me vem à mente agora.

Da mesma forma, nenhum gestor, por melhor que seja, conseguirá adivinhar exatamente quando ocorrerá a próxima guerra, o próximo atentado terrorista ou qualquer “cisne negro”.

Não é porque eventos inesperados não estão no nosso radar que você não deva considerar a existência deles. Afinal, quando você menos espera, eles acontecem.

Por isso, vou “chover no molhado” aqui hoje devido à importância do tema. Não deixe de ter uma carteira diversificada, equilibrada, balanceada, que considere não apenas o seu cenário-base, mas também a chance de você ter cometido um erro em relação a ele.

O reconhecimento das nossas limitações e da nossa ignorância, às vezes, pode ser nosso melhor aliado.

Eu vejo isso diariamente. Quando oferecemos uma carteira diversificada e equilibrada aos nossos assinantes, algumas pessoas pedem mais: querem emoção, ganhos rápidos, a dica quente ou aquela ação que vai fazer a vida delas mudar de vez.

Tenho uma má notícia para você: se você investir somente pelas razões descritas acima, suas chances de mudar de vida existem, mas elas podem ser para o bem e para o mal.

Sabe aquela revista que traz a dieta que promete fazer você emagrecer em uma semana? Ou a fórmula mágica que vai mudar sua vida?

Pois bem, elas se utilizam da nossa fragilidade como seres humanos, porque somos, sim, programados para querer retornos rápidos. Todos nós.

E, no cenário de longo prazo, quem se dá bem? Aqueles que conseguem chegar ao final, seguindo o árduo ritmo de devagar e sempre.

Por isso, diariamente, repito para mim mesma a frase: não me deixe cair em tentação. Faço essa minha prece para você também.

Grande abraço!

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