“Nosso mundo vai mudar mais nos próximos 10 anos do que mudou nos 100 anos anteriores”. Essa frase é de um dos meus professores de estudos do futuro, Gerd Leonhard, um dos mais renomados intelectuais no campo e um dos grandes estrategistas de negócios, que se senta no board ou atua como consultor das maiores empresas do mundo, como Google e Microsoft.

Afirmações semelhantes são ouvidas com recorrência dos cientistas, inovadores e empreendedores por trás da Singularity University, da XPRIZE Foundation e de outros hubs dedicados a pesquisar, estudar, pensar e construir soluções para o futuro.

Embora o alerta em relação à velocidade exponencial com que as coisas irão acontecer nessa década seja anunciado por pessoas e instituições muito respeitadas, a minha impressão e vivência prática é que a maioria das pessoas e das organizações ouviu mas ainda não assimilou a magnitude do que as ditas mudanças exponenciais ou transformações disruptivas significam de fato, não só para a sociedade ou economia, mas para as suas próprias vidas.

Claro que, a pandemia que ainda estamos vivendo foi uma grande amostra de uma situação que fez com que, do dia para a noite, todo mundo tivesse que alterar sua forma de viver.

Todavia, a minha percepção é de que grande parte das pessoas ainda não estão considerando que o nível e a rapidez das mudanças que vivenciamos na crise do Covid-19 não só continuará no “novo normal”, mas tende a se acelerar, dada a lógica exponencial.

Daqui para a frente, não veremos transformações drásticas e rápidas apenas diante de acontecimentos imprevisíveis, extremos ou excepcionais – pelo contrário, a exponencialidade será o ritmo da década.

Afirmar que a década será caracterizada pela velocidade exponencial pode parecer assustador, afinal, o ser humano detesta incertezas. Vivemos tentando planejar, mensurar, controlar.

Então, é natural que, diante de um cenário desconhecido cujas premissas centrais são a disrupção e a velocidade exponencial, as pessoas, de forma inconsciente, segurem-se em seus vieses e barreiras internas para se proteger da realidade que está se impondo na sua frente.

Isso é compreensível. Afinal, já é difícil para a maioria das pessoas pensar no longo prazo, como revela uma pesquisa realizada em 2018 pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL), que mostrou que quase 8 em cada 10 brasileiros (78%) admitem que não pensam financeiramente no longo prazo.

Agora, imagine ter que pensar, daqui para frente, em um futuro que não será mais uma extensão do presente com algumas alterações incrementais – será radicalmente diferente.

Diferentes campos do conhecimento estudam esse desafio, de forma que já foram mapeados inúmeros motivos pelos quais não é fácil nos imaginar, pensar cenários e tomar decisões baseadas no longo prazo.

Apenas para citar um exemplo, estudos da neuropsicologia mostram que as mesmas regiões do cérebro que nos permitem lembrar do passado são usadas para imaginarmos ou projetarmos o futuro, o que torna o processo cognitivamente desafiador, uma vez que as conexões neuronais foram construídas para fortalecer o que nos é familiar.

Isto é, conseguir ampliar, expandir e ver novas possibilidades nos exige muito mais energia mental, pois depende de criarmos arranjos neuronais, o que, por si só, acaba sendo uma barreira para muita gente.

Um outro empecilho para entendermos a onda de mudanças daqui para frente é o próprio conceito de crescimento exponencial.

Ray Kurzweil, futurista, inventor e cofundador da Singularity University, explica essa ideia da seguinte forma: “30 passos lineares fazem você chegar no 30. 1, 2, 3, 4… no passo 30 você chega no 30. Com o crescimento exponencial, 1, 2, 4, 8, de modo que no passo 30, você chega no número 1 bilhão”.

Talvez você ainda não sinta a velocidade do “novo normal”, pois como humanidade vivemos por muito tempo em um mundo aparentemente linear. É como se tivéssemos levado anos e anos para chegar no passo 2 ou 4 do caminho exponencial.

No entanto, os próximos passos serão 8 e 16, e serão alcançados significativamente mais rápido que os anteriores, pela lógica exponencial. “Gradualmente, até que de repente”, como dizia Hemingway.

Queria trazer alguns números de dois setores relevantes no Brasil.

Estudiosos do futuro e especialistas dizem que até 2030 viveremos o fim da era dos combustíveis fósseis no mundo. Parece exagero?

Em 2019, houve o recorde de desinvestimento no setor, e, com toda a coordenação global de metas para evitar o aquecimento global, a redução expressiva dessa indústria é inevitável nos próximos anos, ainda mais com a escala e redução de preço de alternativas de baixo carbono.

Já na indústria da carne, estudos do Banco Mundial e da ONU estimam que, até 2040, 60% do consumo de carne será substituído por carne de laboratório ou substitutos veganos/vegetarianos.

Esses movimentos estão em curso principalmente tendo em vista que, globalmente, a prioridade da década é a questão climática.

Talvez você ainda não esteja enxergando. Afinal, como diz William Gibson, escritor de ficção científica: “O futuro já está entre nós, só está mal distribuído”.

E quais as implicações da velocidade exponencial das transformações para o mundo de investimentos?

1) Quando se projeta o valor de uma empresa, 70 a 100% dessa análise geralmente é referente ao longo prazo – de cinco anos para frente até a perpetuidade.

Se você comprou a tese de que o futuro não será uma extensão do presente com pequenas variações, mas será radical e aceleradamente diferente, deveria ter um olhar muito mais amplo e profundo para os cenários alternativos de futuro do mundo e dos setores nos quais está investindo em 1, 2, 5, 10 anos, a fim de dar mais robustez a suas premissas e às principais variáveis do valuation.

Seguindo nessa linha, também poderá observar quantos preços deveriam ser reajustados por não estarem considerando riscos sociais e ambientais.

2) Sustentabilidade não é utopia, ideologia, escolha política ou capricho dos millennials e da Geração Z. É um plano de ação para garantirmos nossa permanência neste planeta – e esta década será marcada por essa prioridade.

Sustentabilidade e as soluções e inovações decorrentes dela são a grande oportunidade de geração de riqueza do século, o que já foi percebido por grandes bancos como o Goldman Sachs e gestoras como o Generation Asset Management.

Então, antes de investir em qualquer empresa, é fundamental entender o que eu chamo “fitness for the future”, ou a aderência do modelo de negócio a um futuro sustentável.

Claro que, a maioria das empresas não nasceu com esse DNA, mas acredito e já estamos vendo muitas se transformando, buscando ter uma alta performance ESG e repensando suas linhas de negócio para mitigar externalidades negativas e ser motor de impactos positivos para a sociedade e meio ambiente.

Se não for sustentável, não irá sobreviver até 2030.

3) Muito se ouve que o mercado antecipa tudo. Na minha opinião, poucos estão antecipando a velocidade exponencial das mudanças e dos setores que serão mais transformados.

Daqui para frente, um novo conjunto de competências será necessário para que se consiga identificar os riscos sistêmicos, preparar-se para diferentes possibilidades de futuro e capturar as oportunidades geradas pelas transformações tecnológicas, sociais e ambientais.

Quais competências são essas? Um mindset orientado ao futuro, que consiste, primordialmente, na inteligência antecipatória – identificar e interpretar sinais, megatendências, modas, etc. – e a capacidade de projetar cenários de futuro, aprender com eles e tirar os foresights (insights que vieram de se colocar no futuro) necessários para a tomada de decisão no presente.

O futuro é um mindset que precisa ser incorporado no mundo dos investimentos urgentemente.

Um conselho final do meu professor Gerd Leonhard, que foi extremamente relevante para mim, e por isso compartilho aqui com vocês: “Se você passar 1 hora por semana no futuro, provavelmente será melhor do que você passar uma semana toda no passado”.

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