SÃO PAULO – Após uma forte queda do Produto Interno Bruto (PIB) em 2020 por conta da pandemia do coronavírus, ainda que relativamente amortecida por conta dos programas assistenciais, a economia do Brasil deve registrar uma retomada em 2021 com a normalização da atividade.

Porém, se o Brasil não retomar a agenda de reformas fiscais, corre um grande risco de repetir novamente o ciclo de crescimento medíocre que marcou os últimos anos, apontou Alberto Ramos, diretor de pesquisa econômica para América Latina do Goldman Sachs, em entrevista ao InfoMoney sobre as perspectivas para o país no ano que se inicia.

“O Brasil tem dois problemas no momento: o pandêmico e o endêmico. O problema pandêmico tem a ver com o Covid, que eventualmente vai ser resolvido com tempo e com uma vacina. O problema endêmico, por sua vez, já dura 20 anos, que é um problema de baixo crescimento, baixo investimento, baixa produtividade, baixa inserção nas cadeias de produção globais, baixa integração comercial e baixo nível de capital humano relacionado à produtividade”, avalia o economista.

Assim, mesmo com a expectativa de crescimento entre 3,8% e 4% para a economia brasileira em 2021, a expectativa para os próximos anos será muito dependente do avanço das reformas, que também serão determinantes para definir se o investidor estrangeiro ficará por aqui. Sobre isso, Ramos faz um alerta: “Se não fizer o dever de casa, o risco de haver outra década perdida para o Brasil é elevado”.

Confira a entrevista abaixo:

InfoMoney – A previsão que o Goldman Sachs têm para o Brasil é de uma queda de cerca de 4% do PIB em 2020, uma projeção menor do que a de maio, quando a estimativa era de 7%. Muito em conta dos estímulos fiscais, como o auxílio emergencial, o que, por outro lado, também agravou o problema fiscal. O Brasil contratou um tombo menor em 2020 em troca de um crescimento menor nos próximos anos?

Alberto Ramos – O Brasil teve uma queda menor do PIB em 2020 do que o esperado no auge da crise com a pandemia, mas pagou por isso um preço que não tinha capacidade de pagar. Isso porque a situação fiscal já era bastante frágil antes da pandemia – e ficou obviamente mais frágil por conta dela. Assim, o país terá uma contração [do PIB] de 4% a 4,5% ao ano, mas com gasto de 8% do PIB. Outros países vão ter uma contração muito mais elevada, mas gastaram muito menos.

Todo mundo entende a natureza do choque, que era uma questão de saúde pública, não era o momento para estar pensando demais na restrição fiscal, mas isso significa que o Brasil vai ter um custo elevado, que outros países não vão ter necessariamente.

Isso significa que, se antes era necessário fazer um ajuste fiscal duro e contundente, hoje isso se faz ainda mais necessário e ainda mais urgente através da aprovação de reformas fiscais.

IM – Quais são os principais desafios que o Brasil enfrenta para o ano que começa?

O Brasil tem dois problemas no momento: o pandêmico e o endêmico. O problema pandêmico tem a ver com o Covid, que eventualmente vai ser resolvido com tempo e com uma vacina. O problema endêmico, por sua vez, já dura 20 anos, que é um problema de baixo crescimento, baixo investimento, baixa produtividade, baixa inserção nas cadeias de produção globais, baixa integração comercial e baixo nível de capital humano relacionado à produtividade.

Pode até ter acontecido durante a pandemia que alguns desses problemas estruturais tenham se agravado, como problema de baixa produtividade e declínio do estoque de capital. A literatura é muito vasta e convincente em mostrar que um choque significativo tende a gerar um efeito negativo na tendência de crescimento do PIB.

A tendência de crescimento do PIB já era muito modesta. A última vez que o Brasil cresceu mais do que 3% foi sete anos atrás, então há um problema sério que temos que equacionar.

IM – Em novembro de 2020, a reforma da Previdência fez um ano. Sem ela, a situação do Brasil seria ainda pior?

A reforma da previdência era uma questão necessária, mas não suficiente para entregar o ajuste fiscal. Sem a reforma da previdência, claramente estaríamos num cenário completamente diferente, com um nível de câmbio, juros e de crescimento bem diferente.

Não pelo dividendo fiscal que a reforma da previdência entregou em 2020 ou vai entregar em 2021, mas sim pelo sinal que a reforma da previdência representou. Dito isto, a reforma da previdência poderia ter sido bem mais robusta, uma vez que ela manteve muitos regimes especiais e privilégios, que deixou estados, municípios e militares de fora. Ela ajudou, mas não resolveu o problema fiscal, apenas criou as condições para se avançar nas medidas que ainda são necessárias para fazer o ajuste.

Diria o mesmo de quase todas essas reformas que estão pendentes no Congresso. A reforma administrativa, a PEC dos fundos, o pacto federativo, a reforma tributária, são outros pontos importantes que vão encaminhar e ajudar a realizar o ajuste fiscal.

Mas, para além disso, também é necessário repensar toda a estrutura do gasto federativo. O Brasil gasta muito e investe pouco, caminha para ter uma década de déficits primários: temos em algum momento que chegar a um superávit primário que coloque a dívida em uma trajetória descendente.

Para que isso aconteça, para além das reformas, terá que ocorrer um enxugamento do gasto que está mal alocado, com programas duplicados, entre outros. Há muito desperdício. Também temos que olhar para a carga tributária, que já é extraordinariamente elevada e é claramente uma questão difícil do ponto de vista político.

IM – Neste contexto, o que esperar das reformas no Congresso em 2021? 

AR – Espero algum avanço, mas não muito. As reformas têm tido um trâmite extraordinariamente lento no Congresso e, olhando para trás, elas têm seguido com o conteúdo bastante aguado, aquém do que é necessário uma vez que, durante o debate legislativo, para somar apoios, partes importantes dessas reformas são comprometidas.

Seria importante que essas reformas que estão no Congresso avançassem rapidamente e, tão ou mais importante, se o conteúdo dessas reformas fosse robusto.

2020 foi um ano que se avançou pouquíssimo e que era importante que as reformas tivessem avançado. Em 2021, até fevereiro, não vai acontecer nada porque a política vai estar voltada para a sucessão da Câmara e do Senado.

Vamos ter que ver o equilíbrio político que emerge dessa discussão, como fica a governabilidade e se haverá uma agenda até o final do ano. Depois, o próximo ano de 2022 será de eleição, o mundo político vai ficar muito focado nisso e o apetite político para aprovar algumas dessas reformas vai cair bastante.

Assim, haverá uma janela relativamente limitada e não há muitas razões para otimismo. Por outro lado, alguma reforma deve passar pela necessidade e urgência da situação. Acredito que o congressista médio entende que, se não passar nada, aumentará a probabilidade de ter uma nova crise econômica e financeira, mas não estou esperando reformas muito contundentes. Infelizmente, vamos continuar falando da questão fiscal por vários anos.

IM – No que a estratégia do Brasil se diferenciou, para o bem e para o mal, na pandemia em comparação com outros países latino-americanos?

AR – Claramente, o Brasil se diferenciou por uma resposta muito rápida e contundente de política macro aos efeitos da pandemia. Do ponto de vista monetário, a resposta do Banco Central foi muito rápida, do ponto de vista de crédito, de condições financeiras, o Banco Central foi também muito competente em irrigar a economia com liquidez. O governo também foi muito rápido e muito generoso nos programas fiscais que apresentou, permitiu claramente mitigar o impacto econômico e social e de saúde pública.

Há economias como a Argentina e o Peru contraindo em dois dígitos, e os que não gastaram quase nada, como o México, que usou 1% do PIB e terá uma contração de 9%, mas não vai ficar tão endividado. O México tinha espaço para usar política fiscal para dar algum sustento à demanda, mas resolveu não fazê-lo para não se endividar em demasiado.

Em 2021, o Brasil se beneficiará do ambiente externo favorável e temos uma visão construtiva para o crescimento global, para preços de commodities e para condições financeiras globais, para política monetária expansionista fora do Brasil.

IM – Muito se fala da recuperação em “V” do setor varejista em 2020, notoriamente no segundo semestre. Quais setores devem liderar o crescimento em 2021? O fim do auxílio emergencial terá impacto na continuidade da recuperação de alguns setores?

AR – O estímulo fiscal foi extraordinariamente elevado e a injeção de liquidez através de um crédito foi significativa, com recursos na veia para uma camada da população que tem uma propensão ao consumo relativamente elevada. Isso se traduziu nos números da produção do varejo e da produção industrial, detonando claramente uma recuperação em V. Isso também foi facilitado pelo alívio dos protocolos de distanciamento social à medida que passou um pouco a fase mais séria da pandemia. Apesar de, nas últimas semanas, esse medo tenha retornado com o número de casos voltando a subir.

Esses [indústria e varejo] foram os setores que lideram a recuperação. Houve uma contração histórica da atividade no primeiro semestre, seguido de uma recuperação forte no segundo semestre alavancada por um dose massiva de estímulo fiscal, crédito e monetário e também por um entorno externo mais favorável.

As commodities se recuperaram, a liquidez global expandiu bastante, o comércio internacional também recuperou, tudo isso ajudou a recuperar a atividade apesar da pandemia. As empresas também conseguiram produzir e gerar, adotar protocolos sanitários que permitiram resguardar a saúde e continuar a produzir.

Um setor que está muito debilitado é o de serviços, que depende de uma relação intensiva entre vendedor e comprador, o que requer uma aglomeração elevada de indivíduos. A nossa expectativa é de que, se for controlada a pandemia e continuarem as boas notícias do desenvolvimento de vacinas que possa levar a uma vacinação da população em geral no segundo semestre, as pessoas vão ficar menos defensivas e, assim, esses setores poderão liderar o crescimento.

IM – Nas últimas semanas, vêm ganhando destaque no noticiário as informações sobre a cepa mais contagiosa do coronavírus e também há temores sobre o atraso do Brasil em vacinar sua população. O quanto isso afeta sua expectativa de crescimento para o Brasil?

AR – Isso significa que estamos convivendo com um nível de incerteza extraordinariamente elevado, acima da média histórica, o que torna difícil modelar o crescimento porque não é o tipo de choque tradicional da economia, é algo que acontece uma vez a cada cem anos. Esse nível de incerteza significa que o leque de crescimento possível para 2021 é bem mais amplo.

O cenário assumido por nós é de que as vacinas vão chegar ao Brasil gradualmente e, no primeiro semestre, haverá a vacinação dos profissionais de saúde e de grupos vulneráveis da população. A vacinação generalizada para toda a população, neste cenário, só acontece no segundo semestre, gerando uma recuperação da atividade.

Temos um cenário base – e sobre esse cenário há uma incerteza bastante elevada – de alta de 3,8% a 4% do PIB em 2021. Isso vai depender de quão intensa e quão longa é essa segunda onda que está se formando e também em até que ponto se consegue mais vacinas e acelerar um pouco a campanha de vacinação.

Assim, esse é um número que não me admiraria se fosse revisado para cima ou para baixo. Estamos operando com um grau de incerteza muito elevado, que se soma à própria incerteza relacionada ao processo legislativo, ao ajuste fiscal e à governabilidade. Será um ano complicado, de grande volatilidade.

IM – Durante boa parte de 2020, a inflação, notoriamente de alimentos, foi alvo de preocupação entre os agentes econômicos. Ela deve ser monitorada de perto pelo Banco Central em 2021?

AR – Houve um choque de alimentos bastante elevado e, com isso, a inflação de alimentos está rodando acima de 18% em termos anuais. A inflação cheia (de 2020) está rodando um pouco acima da meta de 4%, a 4,2%.

Contudo, olhando as medidas do núcleo, de serviço, ela ainda está bastante confortável. Dada a ociosidade do mercado de trabalho, dado o hiato do produto ainda bastante elevado, a inflação está relativamente alta, mas não me parece que o Brasil tenha um problema de inflação alta.

Esses choques provavelmente vão moderar durante 2021 e o BC possivelmente terá que normalizar a política monetária para olhar para 2022. À medida que a economia se recupera, também não é bom manter a política monetária com esse nível extraordinariamente alto de acomodação.

Não vejo o BC tendo que dar um choque de juros porque a inflação se descontrolou – isso assumindo que o fiscal não desarranje a economia.

IM – Qual a sua projeção para a Selic e quais pontos o BC deve olhar para conduzir a política monetária?

AR – Para 2021, temos uma previsão de alta de 100 a 150 pontos-base da Selic no segundo semestre [indo de 3% a 3,5% ao ano].

Há duas questões diferentes para definir a política monetária: i) para onde vai a inflação em relação à meta e ii) manejo de risco. Sobre o segundo ponto, manter o juro real muito baixo pode gerar uma volatilidade financeira, uma pressão no câmbio. Deste modo, há considerações do ponto de vista financeiro e de estabilidade macroeconômica que podem requerer uma política monetária menos acomodativa, independentemente de como esteja o nível da inflação.

Dada a incerteza macroeconômica, é difícil ter certeza sobre a calibragem fina da política monetária, mas não me parece que inflação saia do eixo e gere muita pressão sobre a política monetária.

Esperamos que os preços administrados sejam mais altos em 2021 e que os preços de serviços, muito impactados pela pandemia, também tenham uma recuperação. Mas, por outro lado, preço de alimentação e de bens industriais certamente vão moderar um pouco em 2021. Com isso, projetamos uma inflação para 2021 relativamente perto, mas não acima da meta de 3,75%, com uma projeção do IPCA a 3,7%.

IM – Com as medidas para desestimular as demissões e com o auxílio emergencial, o Brasil ainda não sentiu totalmente os efeitos da pandemia no mercado de trabalho? Qual é o quadro para 2021?

AR – O dado de desemprego não é uma representação fidedigna do mercado de trabalho, tem muita gente que saiu do mercado e não buscou outro emprego por achar que não valia a pena nesse contexto de pandemia, além de haver um risco de infecção do covid e também por conta dos programas do governo.

Esperamos que esse contingente comece a voltar para o mercado de trabalho o que, no momento inicial, vai pressionar a taxa de desemprego para cima. Levará algum tempo para absorver os que hoje estão procurando trabalho e aqueles que hoje não estão procurando, mas que amanhã vão procurar.

À medida que a economia comece a crescer, haverá mais oportunidades, mas vai demorar vários anos até que o mercado de trabalho volte a operar em condições normais. É muito difícil dizer quando irá voltar para o nível pré-pandêmico. Mas, dada a magnitude e a ociosidade do mercado de trabalho, teria que ter uma aceleração muito grande do crescimento para absorver esse contingente.

IM – Desde novembro de 2020, o Brasil tem registrado uma forte entrada de fluxo estrangeiro, o que ajudou a impulsionar a Bolsa. O estrangeiro veio para ficar ou essa é apenas uma posição tática?

AR – O interesse do investidor estrangeiro ainda é limitado. Ele vê uma grande oportunidade, mas ela ainda não se materializou.

Os preços de ativos estavam baratos, o câmbio estava deslocado, houve uma mudança significativa do sentimento global para todo mundo emergente. Hoje estamos operando com uma visão de preços de commodities subindo, crescimento global acelerando, termos favoráveis de desenvolvimento de vacinas seguras e efetivas e um ambiente que se espera de dólar fraco. Tanta liquidez acabou por procurar por algumas oportunidades de investimento; no caso do Brasil, foi praticamente tudo para a Bolsa.

Mas não é que tenhamos que interpretar esse movimento como um grande entusiasmo do investidor estrangeiro com o futuro do Brasil.

Aliás, ele ainda vê o futuro com grande preocupação, a alocação é tática dado o contexto externo extraordinariamente favorável, favorecendo os mercados emergentes e levando a comprar alguns ativos de empresas, ações com preços competitivos.

O potencial de atrair capital do Brasil é enorme, mas só se fizer o dever de casa como deve ser e aprovar as reformas fiscais que são necessárias.

IM – A última década, que se encerrou em 2020, foi mais uma década perdida? Há risco de que a próxima década também seja perdida se não houver reformas?

Sim, foi mais uma década perdida. Escrevemos um relatório que mostra que, nas últimas quatro décadas, o Brasil perdeu duas décadas, com crescimento do PIB per capita negativo.

Na última década, passamos pela crise de 2014-2016, depois houve o Covid após três anos de crescimento relativamente pífio, abaixo de 2%.

O risco de uma nova década perdida certamente existe. Diria até que, se não avançar nas reformas, é quase certeza, a não ser que o mundo se desenvolva de uma maneira extraordinariamente favorável para o Brasil. Se não fizer o dever de casa, o risco de haver outra década perdida para o Brasil é elevado.

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