Graph Falling Down in Front Of Brazil Flag. Crisis Concept

SÃO PAULO – Os investidores estrangeiros estão em compasso de espera com o Brasil. Apesar do fluxo positivo em outubro até o dia 20 em R$ 2,647 bilhões na B3, a saída ainda é de R$ 85,106 bilhões no acumulado de 2020. Os dados são do mercado secundário da B3, que considera ações já listadas na Bolsa.

Para entender esse movimento e o que pode motivar os investidores a virem para o Brasil de vez, Andre Carvalho e Fernando Cardoso, estrategistas do Bradesco BBI, fizeram uma rodada de conversas – 35 no total – com investidores internacionais nas últimas semanas.

A percepção geral é de que os investidores estão aguardando mais visibilidade sobre a política fiscal: “ao mesmo tempo em que veem valuations atrativos, também veem grandes riscos de caudas”, apontam Carvalho e Cardoso. Eles ressaltam que dois cenários extremos foram discutidos: o cumprimento do teto de gastos versus o Brasil não tendo mais ancoragem fiscal em meio ao aumento das incertezas. “Todos os olhos estão voltados para a política brasileira e para a política fiscal”, avaliam os estrategistas.

Entre os 8 pontos que o Bradesco BBI ressalta que os investidores questionam sobre o Brasil, além do fiscal, está a eleição municipal.

“Em nossa opinião, um primeiro motivo para preocupação com as eleições municipais é simplesmente a evidência de que o presidente Jair Bolsonaro e os membros do Congresso se preocupam com elas. Eles
pararam a agenda de reforma por causa da eleições. Neste sentido, o fim das eleições municipais pode significar a retomada de algumas votações, particularmente a lei orçamentária e a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que regulamenta o teto dos gastos [apelidada de “PEC emergencial”], além de algumas reformas microeconômicas”, apontam os estrategistas. Sobre as eleições, um dos pontos focais será a eleição na cidade de São Paulo, afirmam.

Confira abaixo as principais questões dos investidores estrangeiros para o Bradesco BBI e a resposta dos estrategistas do banco para elas:

1. Questão fiscal

Segundo os estrategistas do banco, esta é disparada a principal questão dos investidores para o Brasil em meio ao forte aumento da dívida brasileira para fazer frente aos gastos durante a pandemia. No cenário-base do BBI, a relação entre dívida e PIB deve se estabilizar em cerca de 100% e cair depois de alguns anos: “no entanto, reconhecemos que os riscos existentes em torno do nosso cenário-base são altos e enviesados para o lado negativo”.

A expectativa é de queda do risco fiscal ocorra em quatro passos: (1) Bolsonaro apontando como financiar o novo programa social depois das eleições municipais em 29 de novembro (data do segundo turno do pleito). A avaliação é de que ele dará apoio ao plano de Paulo Guedes, ministro da Economia, de forma a cumprir o teto de gastos; (2) votação da PEC atualmente em tramitação no Senado que cria mecanismos emergenciais de controle se as despesas públicas ameaçarem o teto de gastos – entre os mecanismos, a  proposta prevê o corte no salário e na jornada de trabalho dos servidores públicos; (3) decisão sobre o fim do estado de calamidade em dezembro de 2020; e (4) distribuição de vacina contra a Covid-19, esperando que ela seja aprovada nos próximos 2 a 3 meses.

Sobre esse último ponto, os estrategistas ressaltam: “este seria um positivo motor da recuperação econômica e do ajuste fiscal, a nosso ver. A vacina seria uma espécie de choque positivo para a oferta na economia, permitindo que empresas reabrissem, tendo um impacto positivo na criação de empregos e na confiança. O impacto nas contas fiscais não viria apenas da atividade econômica mais forte, mas também por reduzir os riscos existentes em torno do novo programa social”.

2. Eleições municipais

Além do pós-eleição poder desencadear a volta da agenda de reformas no Congresso, os estrategistas do BBI apontam ainda outros fatores para ficar de olho no pleito. Cardoso e Carvalho ressaltam que há uma crença comum em Brasília que eleger um grande número de prefeitos ajuda a eleger representantes no Legislativo. “Esta parece ser uma boa razão para os políticos estarem tão envolvidos com as eleições municipais, mesmo os que não concorrem a prefeito”, apontam.

Nas últimas décadas, avaliam, os partidos do “centrão” têm frequentemente se alinhado com o governo, mas costumavam competir com o partido do presidente nas eleições municipais. “Pela primeira vez em décadas, isso não vai acontecer, já que Bolsonaro está atualmente sem partido. Ao mesmo tempo, o índice de aprovação de Bolsonaro poderia ajudar candidatos de partidos de centro alinhados com o governo. Como resultado, os partidos de centro podem acabar elegendo mais prefeitos e ficando mais bem posicionados para as próximas eleições para o Congresso, em outubro de 2022”, avaliam.

Eles apontam que os investidores devem ficar de olho no desempenho desses partidos (dentre eles, PP, PL, Republicanos, Solidariedade, PTB e PSD).

“Além disso, é importante acompanhar a atuação do PSDB na cidade de São Paulo. O partido tem sido dominante no estado e na cidade de São Paulo há décadas, alavancando-se na cena política nacional”. Os estrategistas destacam pesquisas recentes que apontam que o atual prefeito de São Paulo Bruno Covas (PSDB) está em segundo lugar nas pesquisas ainda que tecnicamente empatado com Celso Russomanno (Republicanos).

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Vale ressaltar, contudo, que a última pesquisa Datafolha mostrou Russomanno pela primeira vez numericamente atrás de Covas na disputa, com 20% ante 23% do tucano. “Levando em conta seus índices de aprovação, nosso cenário base é que Covas será reeleito. Cenários alternativos podem enfraquecer a posição do partido [PSDB] no cenário nacional”, avaliam.

Contudo, vale destacar que, apesar da posição dominante do partido no estado, o candidato tucano a presidente em 2018 (o ex-governador paulista Geraldo Alckmin) ficou com 4,76% dos votos, amargando apenas o quarto lugar no primeiro turno.

3. Reformas estruturais: elas serão aprovadas, e quando?

Esse tema se relaciona com o segundo, uma vez que o ritmo de votação do Congresso tem diminuído desde setembro e a expectativa é de volta após as eleições. “Todos os olhares estarão voltados para o projeto de lei de diretrizes orçamentárias, o orçamento de 2021, a PEC emergencial e a decisão sobre o estado de calamidade”, avaliam.

Não haver uma decisão sobre esses temas significa o fim do estado de calamidade em 31 de dezembro de 2020 e, com isso, o governo precisaria cumprir o limite de gastos no próximo ano, ou seja, sem nenhum novo programa social. Desta forma, o período após as eleições municipais (ou seja, dezembro) será crítico para as reformas e para a política fiscal. Neste sentido, eles ressaltam que o  presidente da Câmara, Rodrigo Maia, vem destacando duas prioridades: a PEC emergencial e a votação do orçamento de 2021. Alguns políticos avaliam até pedir ao Congresso para funcionar em janeiro, durante o recesso.

4. Inflação em alta

Nos últimos três meses, a inflação medida pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) tem subido acima das estimativas, com destaque para o preço de alimentos. O IPCA-15 de outubro subiu 0,94%, o maior valor para o mês desde 1995.

Contudo, a expectativa de redução significativa nas transferências de renda do governo em 2021,
combinado com a alta capacidade ociosa e uma recuperação econômica gradual provavelmente definirão o palco para um cenário de inflação benigna no futuro, avaliam.

Assim, Carvalho e Cardoso veem o risco da inflação subir materialmente no Brasil como baixo em um cenário que o governo cumpra com o teto de gastos. A estimativa é de que o IPCA atinja 2,6% em 2020 e 3,5% em 2021, com o Banco Central começando a aumentar Selic em meados do próximo ano.

5. Como será a recuperação econômica no Brasil?

Questão também de grande preocupação para os investidores, os estrategistas do BBI veem como provável que a queda do Produto Interno Bruto seja de 4,5% em 2020, baixa menos expressiva do que o consenso de cerca de 5%, com os catalisadores de crescimento mudando em 2021.

“Com o governo reduzindo materialmente a transferência de renda, vemos alto risco de que o PIB de 2021 venha abaixo de 3,5%. Com isso, ficamos mais cautelosos com consumo, preferindo setores mais sensíveis a crédito e focado em grupos de maior renda”, avaliam os estrategistas.

6. Qual a probabilidade da saída de Paulo Guedes?

Fiador da agenda de reformas, a permanência de Paulo Guedes do ministério da Economia sempre é uma questão para os investidores em Brasil.

Os estrategistas atribuem uma grande probabilidade, entre 70% e 80% de Guedes permanecer no cargo nos próximos 12 meses. Eles reconhecem os grandes desafios que Guedes enfrenta atualmente: primeiro, o desafio de reduzir o déficit primário de 12% em 2020 para 3% em 2021 e, segundo, a negociação de uma agenda impopular diretamente com o Congresso.

7. O que esperar para a moeda brasileira?

Firmando-se cada vez mais como a “pior moeda do mundo” em 2020, com o dólar subindo cerca de 40% no acumulado do ano, o real e as perspectivas para a moeda brasileira no resto do ano também são alvo de questionamentos. Após passar de R$ 4 para R$ 5,60 durante o ano, os estrategistas esperam que o real siga acima dos R$ 5 no curto e no médio prazo, fechando 2020 a R$ 5,40 e 2021 a R$ 5,10.

8. Quais os principais temas de investimento no Brasil?

Para os estrategistas do banco, a compressão de prêmio de risco e a recuperação dos lucros por ação são temas de destaque para o Brasil nos próximos meses.

Eles apontam que estão posicionados em ações bastante desvalorizadas, como de bancos, shoppings e Petrobras e bond-like (que possuem um comportamento mais parecido com títulos), como concessionárias e novamente o setor de shoppings. Eles esperam que essas ações tenham um forte desempenho se o cenário-base de notícias positivas com diminuição do cenário fiscal com a chegada da vacina se materializar.

Algumas histórias domésticas de longo prazo de crescimento de lucro por ação seriam: (1) a volta de concessões no setor de infraestrutura; (2) consolidação em alguns setores com empresas tendo maior acesso ao mercado de crédito; (3) desenvolvimento do mercado de capitais e (4) mudanças estruturais beneficiando as empresas de e-commerce, apesar de verem  os valuations das empresas do setor como esticados no momento.

“Também gostamos de algumas exportadoras com a visão de que o real vai continuar fraco nos próximos anos e os preços das commodities seguirá alto”, apontam os estrategistas.  Na carteira de estratégia do BBI constam os papéis de Itaú Unibanco (ITUB4), Santander Brasil (SANB11), B3 (B3SA3), BR Distribuidora (BRDT3), Lojas Renner (LREN3), Notre Dame Intermédica (GNDI3), EcoRodovias (ECOR3), Iguatemi (IGTA3), Vale (VALE3) e Petrobras PN (PETR4).

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