SÃO PAULO – O ano de 2020 foi bastante positivo para as ações da Oi (OIBR3; OIBR4), que subiram mais de 150% e passaram de papéis de uma empresa à beira da falência, para um investimento promissor.

No final do ano passado, a companhia deu um importante passo para sair da recuperação judicial – processo que entrou em junho de 2016, com uma dívida de R$ 64 bilhões – ao vender a sua operação de ativos móveis para o consórcio formado por Vivo (VIVT3), TIM (TIMS3) e Claro por um valor de R$ 16,5 bilhões.

Antes disso, no dia 26 de novembro, a companhia fez o seu primeiro leilão, das torres e data centers, e levantou R$ 1,4 bilhão.

Em dezembro, o Bradesco BBI reiterou a visão positiva para as empresas de telecomunicações, reforçando a Oi como a principal escolha do setor no Brasil e elevando o preço-alvo de R$ 3,10 para R$ 3,40 para os papéis OIBR3 para o final de 2021. Para a equipe de análise do BBI, ainda havia espaço para ganhos, diante do valuation atrativo (preço descontado em relação aos fundamentos), da competição mais racional e do forte avanço no segmento de fibra óptica residencial.

Assim, 2021 começou com perspectivas positivas. A expectativa principal era para a continuidade nas vendas de ativos, com destaque para a venda de 51% da sua operação de fibra óptica, que é a menina dos olhos da Oi e é o ativo no qual ela busca se concentrar.

Diferentemente dos serviços de telefonia móvel, alvo de constantes críticas de clientes, a fibra óptica residencial (mercado conhecido como fiber to the home, ou FTTH) é a operação hoje mais rentável e promissora da operadora.

A venda da InfraCo mostrou avanços no começo deste ano: em 4 de fevereiro a Oi estabeleceu acordo de exclusividade para se desfazer de parte do ativo. O acordo foi firmado com a Globenet e fundos geridos pelo BTG Pactual e vence em 5 de abril, após ser prorrogado pela companhia no início de março.

Se ambas as partes chegarem a um a um consenso, a Oi poderá definir a Globenet e os fundos do BTG como “stalking horse”, ou seja, o valor proposto por eles será a base da oferta para o leilão, e eles ganham o direito de cobrir qualquer outra proposta no dia do certame.

Porém, apesar das notícias à primeira vista positivas, as ações não estão correspondendo da mesma forma: no acumulado de 2021 até o fechamento da última quinta-feira, os papéis OIBR3 passaram de R$ 2,20 para R$ 1,80, uma queda de 18,18%, enquanto os ativos OIBR4 foram de R$ 2,82 para R$ 2,35, uma queda de 16,67%. O que explica esse movimento?

Queda em 2021

Guilherme Gattas, analista da Mauá Capital, destaca o bom trabalho de Rodrigo Abreu, CEO da companhia, e de Camille Faria, diretora financeira, no processo de transformação da empresa. Mas aponta que, após vários catalisadores positivos para os papéis no ano passado, a falta de eventos significativos acabou por “acalmar” a euforia vista no fim do ano com as ações – com os investidores ainda esperando para ver os novos desdobramentos no processo de virada da companhia.

Além disso, aponta o analista, os ativos acabaram sendo impactados pela queda da Bolsa de forma geral, em meio ao cenário de aumento de juros e de desaceleração econômica.

Victor Hasegawa, gestor da Infinity Asset, também aponta que a baixa nos últimos meses pode ter sido efeito da realização de ganhos. “É a velha história de subir no boato e cair no fato. A ação subiu bastante com as expectativas dos leilões, e caiu depois que eles se concretizaram.”

Uma outra explicação para o mau desempenho em 2021, segundo Hasegawa, seria o desapontamento dos investidores em haver só dois interessados na InfraCo – no começo do ano, o ativo foi disputado entre a Digital Colony e Globenet/BTG, sendo que o segundo acabou conseguindo o acordo de exclusividade.

“A partir do momento que aceitaram o valor mínimo, teoricamente a chance de concretizar o negócio é alta. A dúvida é por qual valor, tendo em vista que são só dois concorrentes – não há muita expectativa que saia acima de R$ 20 bilhões”, avalia o gestor da Infinity. Os R$ 20 bilhões são o valor mínimo atribuído à operação total da InfraCo, mas como o leilão será de uma fatia de 51%, deve levantar metade desse valor.

Outro ponto a se considerar são os riscos regulatórios atrelados aos bens reversíveis que fazem parte da concessão de telefonia fixa da Oi. Isso, indiretamente, pode afetar a InfraCo, conforme apontou a Guide Investimentos em relatório divulgado recentemente. Por ser uma concessão pública, há dúvidas sobre esses bens, que a Oi deveria devolver à União, caso desistisse de operar. Para alguns advogados e analistas, não está claro se o governo pode reivindicar a propriedade da rede de fibras ópticas como bem reversível, ou se de fato pertence à Oi, que poderá vendê-la sem empecilhos.

Com relação à Oi Móvel, também há questões sobre quais serão os remédios adotados pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) para aprovar a transação. Segundo informações apuradas pela Bloomberg no final de janeiro, a autarquia estuda a imposição de restrições para a venda do ativo. Porém, especialistas no setor, consultados pelo InfoMoney, já apontaram antes que as chances de o Cade barrar o negócio são baixas.

O que esperar do balanço?

O resultado do quarto trimestre da companhia, que será divulgado na próxima segunda-feira (29) antes da abertura da Bolsa, será acompanhado de perto pelos investidores e analistas que cobrem a companhia. Mas, além do resultado em si, o mercado também acompanhará a conferência com a participação de executivos da companhia.

“É importante acompanhar o evento para saber se há novidades e entender a estratégia da gestão da companhia. É uma empresa em transformação, então a maneira de analisar o balanço é diferente. O discurso dos executivos da companhia será o mais importante, principalmente sobre o progresso da companhia na fibra óptica”, avalia Gattas.

Hasegawa, da Infinity, afirma que os resultados da operação móvel da Oi devem ser fracos, mas os investidores já não se importam mais com esses ativos. “Os números relacionados à fibra óptica devem vir bons. A Oi está expandindo bastante a atuação para cidades menores não atendidas, é um mercado grande para se explorar. São esses resultados e que eles indicam que importam daqui para a frente”, diz.

Perspectivas

Os analistas apontam o tempo é um fator crucial para o futuro da empresa. Além da venda dos ativos em si, a velocidade nos processos de aprovação dos leilões que já aconteceram e da InfraCo deve ser determinante para o comportamento das ações.

A dívida líquida da Oi está em torno de R$ 29 bilhões, segundo os dados mais recentes, do balanço do terceiro trimestre. Os valores levantados pelos leilões devem ser suficientes para cobrir a dívida e tirar a empresa da recuperação judicial. Mas quanto mais tempo demorar para a empresa receber a receita proveniente da venda de ativos, maior sua despesa com juros. “A Oi recentemente emitiu debêntures que pagam 11% ao ano mais IPCA, são dívidas bem agressivas, então quanto mais demorar, mais a empresa vai comendo caixa”, diz Hasegawa.

Outro ponto ainda, mencionado por Gattas, é que, ao queimar caixa, a Oi deixa de fazer investimentos para expandir a operação de fibra óptica. “É importante ver no balanço quanto ela está queimando de caixa por trimestre para entender sua capacidade de investimento em fibra óptica. É um setor que está muito aquecido, com forte competição, tanto que TIM e Vivo anunciaram recentemente parcerias de fibra óptica.”

De toda forma, analistas são otimistas com o potencial da fibra óptica e a vantagem que a Oi possui no segmento. “A parte mais cara do investimento em fibra é ‘cavar o buraco embaixo da terra’ e pegar autorizações com todas as prefeituras, mas a Oi já tem isso em várias regiões do país. Ela herdou as concessões da Brasil Telecom e da Telemar e esses dutos e não precisa pagar por isso. É uma grande vantagem competitiva sobre outros players. A Vivo tem vantagem competitiva em São Paulo, por causa da Telesp, mas, no resto do Brasil, a Oi tem vantagem”, afirmou Fred Mendes, analista do Bradesco BBI, em reportagem publicada anteriormente pelo InfoMoney.

Em participação no Coffee & Stocks, do InfoMoney, Luiz Aranha, da Moat Capital, disse que o potencial da fibra óptica explica o otimismo da gestora com a Oi – a ação representa 8% dos investimentos da Moat. O gestor justificou que a fibra oferece uma conexão mais segura e rápida, em um momento em que mais lares estão demandando serviços de banda larga fixa. Aranha afirmou também que, fora da China, a Oi possui o maior ativo de infraestrutura de telecom do mundo e após todo investimento em expansão, a expectativa é que a empresa tenha mais de 20 milhões de clientes.

Na visão do gestor, após um investimento muito pesado no começo, num prazo mais longo a companhia começará a receber a recompensa através da expansão de sua base de clientes e recebimento de mensalidades com investimentos muito baixos. Assim, para a Aranha, a Oi pode se transformar em uma empresa de infraestrutura e uma empresa de atendimento ao cliente – o que pode render frutos aos investidores.

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