SÃO PAULO – Apesar do democrata Joe Biden ter sido declarado presidente eleito dos Estados Unidos no último sábado (7), o atual comandante da Casa Branca, Donald Trump, se recusa a aceitar o resultado, usando o argumento de que houve fraude nas eleição.

O atual mandatário já entrou com diversos processos, tanto em nível estadual quanto na Suprema Corte, pedindo principalmente a suspensão da apuração e a recontagem de votos. Até o momento, nenhum dos pedidos foi aceito.

Mesmo assim, essa situação tem levantado muitas questões entre eleitores e pessoas ao redor do mundo sobre a possibilidade de o resultado da eleição mudar e o republicano acabar reeleito.

“Não há nenhuma chance de Trump reverter a situação”, afirma Carlos Poggio, professor de relações internacionais da Fundação Armando Alvares Penteado (Faap).

Trump questiona, entre outras coisas, como é possível que ele liderasse com tranquilidade as apurações em diversos estados, como Pensilvânia e Geórgia e, “de repente”, quase todos os votos que começaram a chegar passassem a ser contabilizados para Biden, fazendo com que o democrata virasse a corrida eleitoral.

Poggio explica que este cenário era amplamente esperado e que não caracteriza uma fraude. Isso aconteceu porque os democratas defenderam bastante o voto pelo correio para evitar aglomerações. Como estas cédulas, em muitos estados, foram contadas apenas após o fechamento das urnas, esta onda de votos por carta para Biden só começaram a entrar na conta mais para frente, levando a uma virada do democrata.

“Uma coisa é o que se fala nas redes sociais, outra é o que acontece na vida real. Nos tribunais, nenhum advogado tem coragem de questionar a legalidade da eleição”, explica o professor.

Por outro lado, Trump agora parece tentar uma outra estratégia, que seria alterar os delegados de estados decisivos. Nos EUA, as eleições são indiretas, ou seja, a população vota no candidato, mas estes votos vão para os chamados delegados, que são representantes escolhidos previamente. No dia 8 de dezembro, estes delegados se reúnem no Colégio Eleitoral para ratificar o que foi escolhido nas urnas (veja mais aqui).

Como os republicanos controlam as legislaturas em cinco dos seis estados que foram decisivos nesta eleição (Michigan, Wisconsin, Pensilvânia, Arizona e Geórgia), o que se ventila agora é a chance de eles alterarem os integrantes do Colégio Eleitoral, fazendo com que mudassem o resultado da urna e votassem em Trump na reunião de 14 de dezembro, dando a reeleição ao republicano.

“Isso é tentar um golpe, que me parece ser o que ele [Trump] está querendo”, afirma Poggio, citando que é a primeira vez que vê algo do tipo nos EUA.

Recontagens não mudam eleições

Prevista pelas leis em diversos estados, a recontagem de votos é algo comum nas eleições americanas, mas que dificilmente mudam o resultado já anunciado. Mais do que isso: em muitos casos, o vencedor aumenta ainda mais a sua margem na frente.

Um dos estados mais disputados desta eleição, a Geórgia já havia informado que faria uma recontagem por conta da pequena diferença entre os dois candidatos. Na quarta-feira (11), ainda foi anunciado que o processo será manual.

“Recontagem de votos muda muito pouco [uma eleição], não se tem notícia de uma recontagem que mudou o que o Trump precisa que mude para vencer a eleição”, explica Poggio.

Porém, segundo um levantamento da NBC News considerando estados considerado “battlegrounds” (“campos de batalha”) – Arizona, Geórgia, Pensilvânia, Wisconsin e Carolina do Norte -, nos últimos anos uma recontagem nunca mudou o vencedor.

A pesquisa levou em consideração eleições para diversos cargos, inclusive para o judiciário, que nos EUA muitas vezes são decididas pelos eleitores nas urnas. Confira o que os dados mostraram:

Geórgia em 2004 – Judiciário

O vencedor aumentou sua vantagem na recontagem de 348 para 363 votos.

Carolina do Norte em 2006 – Judiciário

Vantagem do vencedor passou de 3.416 para 3.446 votos após a recontagem.

Pensilvânia em 2009 – Judiciário

Aumento de 83.693 para 83.974 votos na vantagem do vencedor após a recontagem.

Arizona em 2010 – mudança na Constituição

Vantagem do vencedor aumentou de 128 para 194 votos após a recontagem.

Wisconsin em 2011 – Judiciário

Após a recontagem, a vantagem do vencedor caiu de 7.316 para 7.004 votos.

Wisconsin em 2016 – Presidente

Na última eleição, Donald Trump conseguiu aumentar sua vantagem de 22.617 para 22.748 votos após a recontagem.

Um dos casos mais emblemáticos de recontagem de votos foi na Flórida em 2000 quando, após um longo processo de contestação e recontagens, o republicano George W. Bush venceu o democrata Al Gore.

Porém, Poggio explica que, naquela ocasião, “ninguém falou em fraude na eleição”.

O problema no caso estava relacionado às cédulas, em que os eleitores tinham que usar um furador de papel para furar o local de determinado candidato. Só que em alguns casos, o papel do furo ficou preso e as máquinas de apuração não computaram o voto. Veja abaixo:

Cédula da Flórida em 2000 (Wikimedia Commons)

Na ocasião, a diferença inicial da apuração foi de menos de 2.000 votos a favor de Bush, que caiu para 327 votos após a primeira recontagem. Em seguida, Al Gore entrou na Suprema Corte, que aceitou um pedido para recontagem manual, na tentativa de evitar o problema dos furos no papel. Porém, depois de muita disputa, não houve tempo hábil até a reunião do Colégio Eleitoral e o Judiciário pediu a paralisação da recontagem, garantindo a vitória do republicano.

Trump corre contra o tempo

Entre os próximos passos do processo eleitoral, em 14 de dezembro ocorre a reunião do Colégio Eleitoral, onde são confirmados os votos das urnas e definido o próximo presidente.

Segundo Poggio, tudo tem que estar definido até esta data, todas as disputas judiciais. “Se chegarmos neste dia sem uma definição, entraremos em um território desconhecido”, afirma.

Por conta disso, Donald Trump é quem corre contra o tempo para reverter a situação. Caso ele não consiga até esta data, dificilmente ele conseguirá fazer com que a definição seja adiada.

O republicano também não tem muito apoio popular. Pesquisa nacional Reuters/Ipsos mostrou que 79% dos adultos americanos acreditam que Biden foi o vencedor da eleição. Outros 13% disseram que a disputa ainda não está decidida, 3% acham que Trump venceu, e 5% dizem que não sabem.

Destes números, cerca de seis em cada 10 republicanos e todos os democratas disseram que o democrata foi o vencedor.

E a situação fica cada vez mais complicada. Na terça-feira (10), o jornal The New York Times publicou que autoridades eleitorais dos EUA não encontraram indícios de fraude no pleito. Autoridades de 45 dos 50 estados do país responderam que não encontraram problemas, enquanto outros quatro estados já haviam informado que a eleição ocorreu de forma correta.

Com a primeira apuração ainda em andamento até a publicação desta matéria, Biden caminha para conquistar 306 delegados, sendo necessário vencer 270 para ser eleito. Isso também complica o cenário para Trump, que teria de reverter pelo menos dois estados (dependendo de quais forem) para conseguir inverter o resultado.

Diante disso, Trump pode conseguir criar uma certa apreensão e levantar muitas dúvidas sobre o resultado da eleição. Mas suas chances de se reeleger, que já são pequenas, não param de diminuir.

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