SÃO PAULO – As ações da Sabesp (SBSP3) chegaram a despencar 10,71% na mínima da sessão desta quarta-feira (19), a R$ 49,60, com a notícia da capitalização da companhia, o que levaria a uma não privatização da empresa. Os papéis amenizaram as perdas mas, ainda assim, seguem em forte queda:  às 13h24 (horário de Brasília), tinham baixa de 6,64%, a R$ 51,86, com a avaliação de que a privatização não foi descartada, mas será bem difícil de acontecer caso a capitalização passe na frente.

O motivo para a forte queda no início do pregão foi a notícia de que o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), afirmou que a companhia voltaria ao modelo de capitalização, considerado menos positivo do que o de privatização (um dos grandes catalisadores para a companhia), declarações concedidas durante conferência realizada pelo Santander na manhã desta quarta-feira.

Durante a sessão, os papéis amenizaram a queda com a indicação de que a fala de Doria não descarta totalmente a privatização da companhia.

A seguir, está a transcrição completa da declaração do governador sobre a capitalização: “A Sabesp, o seu valor em bolsa cresceu substancialmente, mesmo antes da sua regulamentação [do marco regulatório], e a decisão do governo de São Paulo, isso é importante para os que são do mercado financeiro, é de fazer a capitalização da Sabesp na primeira etapa. A Sabesp, que já tem suas ações em Bolsa, vai voltar a um programa de capitalização e a partir deste mês de agosto prestando serviço a outros Estados brasileiros. Vai disputar concessões na área de saneamento, distribuição e tratamento de água, e também do lixo. Ela terá um crescimento exponencial e o seu valor colocado em bolsa em um amplo programa de capitalização que muito em breve Henrique Meirelles, Benedito Braga e eu teremos oportunidade de anunciar.”

Interlocutores do governador, de acordo com fontes ouvidas pelo InfoMoney, chamam a atenção para a ‘primeira etapa’ mencionada por Doria e dizem que a fala não significa que um processo de privatização deixou de ser considerado para uma etapa posterior. Essa avaliação fez com que a ação amenizasse a queda, ainda que ela continuasse expressiva: às 12h23, os ativos chegaram a cair “apenas” 4,5%, a R$ 53,05, voltando a cair mais fortemente posteriormente.

Isso porque, apesar da privatização não sendo descartada, a notícia não deixa de ser negativa, ainda mais levando em conta que os dois processos (capitalização e privatização) são longos e nada triviais, conforme apontou Gabriel Fonseca, analista da XP Investimentos. Com isso, uma capitalização em uma primeira etapa pode inviabilizar a privatização ainda durante esse governo, tornando mais incerto o cenário para a companhia.

Confira o gráfico com o desempenho das ações da Sabesp nesta sessão:

(Fonte: Bloomberg)

Fonseca lembra que um processo de capitalização é planejado desde o governo de Geraldo Alckmin (PSDB), através da aprovação da lei para reorganização societária da Sabesp, aprovada em 2017.

Já no governo de João Doria, havia na mesa as opções de capitalizar ou privatizar. À primeira vista, o processo de capitalização era mais viável mas, com a aprovação do marco do saneamento em moldes mais positivos para a entrada do investidor privado, a probabilidade de privatização começou a ganhar força entre os investidores.

Através da capitalização, o estado venderia cerca de metade de suas ações da Sabesp a um parceiro minoritário por meio de uma nova holding company (não com as ações da Sabesp diretamente), mas ainda manteria o controle da empresa.

Em relatório recente, o Bradesco BBI destacou que o cenário de capitalização seria menos positivo uma vez que i) São Paulo conseguiria menos recursos versus uma privatização total; e (ii) seria muito difícil encontrar um parceiro minoritário (operador ou investidor de longo prazo) para comprar uma grande participação em uma holding ilíquida, uma vez que a Sabesp continuaria sendo uma estatal.

Outros pontos destacados recorrentemente quando se fala de capitalização é de menores ganhos de eficiência e de governança corporativa.

Já no caso de privatização, a Sabesp pode valer mais de R$ 30 bilhões em um leilão, apontaram os analistas do BBI. Assim, a privatização não foi descartada mas, uma vez que o processo de capitalização será longo, houve uma decepção inicial do mercado sobre a viabilidade de realizar a privatização, que já não seria fácil por si só, aponta o analista da XP.

Isso porque, além de negociar com os prefeitos para evitar riscos judiciais,  alguns contratos precisariam ser alterados, a privatização teria que ser aprovada pela Assembleia Legislativa do Estado (sendo necessária a aprovação por maioria simples para vender a companhia).

Além disso, as eventuais propostas de privatização pelos governos estaduais, a princípio, não deveriam ocorrer antes das eleições de 2020, tendo em vista que o tema de saneamento é de elevada sensibilidade política para os municípios. Com uma eventual capitalização passando na frente, a janela para fazer uma privatização ainda no atual governo paulista se contraiu muito, avalia Fonseca: “o tempo já era exíguo e diminuiu ainda mais”.

Caso os dois processos não sejam feitos em tempo hábil durante o governo atual (com mandato até o fim de 2022), um eventual novo governo não favorável à privatização pode barrar o processo, o que torna a visibilidade sobre a companhia menor.

Assim, aponta Fonseca, os investidores estão vendo agora uma menor chance de privatização da companhia, o que faz com que as ações sigam em queda, mesmo com o processo não sendo totalmente descartado pelo governo. Para ele, até que não haja mais visibilidade sobre essas operações, as ações devem seguir com forte volatilidade na Bolsa.

Procurados pelo InfoMoney, a Sabesp e o governo do estado de São Paulo ainda não se pronunciaram sobre o assunto.

Já a Secretaria de Infraestrutura e Meio Ambiente do Estado de SP se pronunciou através da nota abaixo:

A Sabesp busca se posicionar frente ao novo marco do saneamento que trouxe oportunidades que permitem à empresa ampliar sua atuação no mercado de saneamento e também investir em novos negócios, como o tratamento de resíduos e a geração de energia.

A Sabesp ainda fortaleceu os contratos de programas com 375 municípios do Estado de São Paulo com vistas à universalização.

Tais ações permitiram o crescimento, a qualificação e o fortalecimento da empresa, de modo a prepará-la para as melhores soluções que ainda serão definidas pelo Governo, incluindo a privatização.

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