SÃO PAULO – Em um grande passo para a Oi (OIBR3;OIBR4), a companhia realizou a venda da sua operação móvel na véspera para as operadoras Telefônica Brasil – Vivo (VIVT3), Claro e TIM (TIMS3) na tarde da última segunda-feira (14) por R$ 16,5 bilhões em um leilão sem concorrência.

A princípio, não houve detalhes sobre qual parte caberia para cada companhia mas, após o fechamento do mercado, foram dadas mais informações sobre a operação – e seu potencial impacto para o mercado de telefonia celular como um todo.

Caberá à TIM o maior desembolso, de 44% dos valores de Preço Base e Serviços de Transição, perfazendo aproximadamente R$ 7,3 bilhões. “Com relação ao financiamento desta aquisição, a TIM, considerando seu baixo endividamento e as condições de mercado atuais, entende ser possível financiá-la através do mercado de dívida local e de sua geração de caixa”, disse a empresa em comunicado.

Já a Telefônica será responsável por 33% do Preço Base e Serviços de Transição, equivalente a aproximadamente R$ 5,5 bilhões. A Claro será responsável pelo pagamento de R$ 3,7 bilhões (aproximadamente 22% do preço de compra).

Tal divisão dos ativos teve impacto proporcional no desempenho das ações, com a TIM reagindo de forte mais forte (positivamente) ao anúncio, que possui a menor participação de mercado dentre as três, e receberá a maior fatia dos ativos, de modo a equilibrar a participação de mercado e obter maior facilidade na aprovação pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade).

Nos termos do contrato, as compradoras ainda se comprometeram a celebrar com o Grupo Oi, na data de fechamento da transação, contratos de longo prazo para o fornecimento de capacidade de transmissão de dados para as compradoras, na modalidade take-or-pay, cujo VPL (valor presente líquido) corresponde a aproximadamente R$ 819 milhões, considerando todas as compradoras em conjunto.

Conforme destacam Daniel Federle e Felipe Cheng, analistas do Credit Suisse, após a aquisição, a Vivo passará de uma fatia de mercado de 33% para 37,7%, a Claro de 26% para 31,1%, enquanto a TIM sairá de um market share de 23,3% para 29,7%.

O arranjo esperado era que a TIM recebesse a maior parte do espectro da Oi, já que é a empresa que menos detém frequências entre as quatro grandes, especialmente no 4G na faixa de 2,5 GHz. A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) regula os espectros e determina o quanto de cada frequência poderá ser explorada por cada uma das operadoras.

Confira o quadro abaixo de como ficarão as operadoras depois do leilão da Oi Móvel:

Operadora/aspecto Vivo  TIM Claro 
Preço pago (incluindo take-or-pay – em R$ bilhões)  5,7 7,8 3,9
Base de clientes em milhares antes do negócio (número base: abril de 2020) 74.487 52.458 58.582
Base de clientes em milhares após o negócio (número base: abril de 2020) 84.987 66.958 70.182
Participação de mercado (antes do negócio) 33% 23,3% 26%
Participação de mercado (após o negócio) 37,7% 29,7% 31,1%
Espectro total em MHz (antes da operação) 142 114 173
Espectro total em MHz (depois da operação) 185 163 173
Infraestrutura 7,2 mil acessos móveis 2,7 mil acessos móveis 4,6 mil acessos móveis

 

Conforme já destacado acima, o Cade foi um ponto levado em consideração para o desenho da aquisição da operação pelo consórcio. Com a aquisição da Oi móvel pelo trio, a expectativa é de que o mercado se torne mais concentrado, o que deve beneficiar todas empresas envolvidas na operação, avalia o Credit, uma vez que a menor competição e a maior escala devem ampliar a lucratividade das empresas.

Também na avaliação de Luis Azevedo e Silvio Dória, analistas do Safra, o leilão foi positivo para todas as empresas do setor, já que a saída de um grande concorrente deve contribuir para uma competição mais racional no setor.

A Vivo deve recuperar sua posição como líder em espectro, além dos 10,5 milhões de clientes da operação móvel, mantendo sua liderança. A TIM deve reduzir significativamente a diferença de espectro frente à concorrência, além de estreitar a diferença de sua participação no mercado ante as rivais.

Por fim, a a Oi receberá um valor superior ao preço mínimo estabelecido para o leilão (R$ 15 bilhões) e poderá seguir sua estratégia de desalavancagem e execução das mudanças trazidas pelo plano de recuperação judicial, com o maior foco nas operações de fibra ótica (veja mais clicando aqui).

A Claro receberá 11,6 milhões de assinantes (cerca de 32% do total), mas nenhum espectro, dada a recente aquisição da Nextel que aumentou significativamente a sua participação, muito próximo dos limites no Brasil.  De qualquer modo, “a participação da Claro foi bastante importante para minimizar potenciais problemas antitruste”, avaliam os analistas.

Nos comunicados em que anunciaram a aquisição, todas as empresas destacaram que a conclusão do negócio dependerá das análises do Cade e da Anatel.

Segundo informações do Valor Econômico, para que a operação seja aprovada, as operadoras devem apresentar ao Conselho uma proposta bem “mastigada”, antecipando-se a algumas exigências do órgão antitruste e de forma a distribuir os ativos em um formato que possibilite o menor nível possível de concentração de mercado. Uma das medidas consideradas, segundo apurou o jornal, é a redução de participação em alguns estados. Assim, dependendo do cenário local, uma operadora poderá diluir sua fatia em favor de uma concorrente com participação inferior ou de uma operadora regional, de menor porte.

Um conselheiro do Cade teria dito que medidas incluirão reduções pontuais na participação das três operadoras e “a pergunta a ser respondida é se o Brasil comporta apenas três operadoras”. O órgão antitruste está analisando a venda da Oi desde agosto e, na ocasião, o presidente do Cade, Alexandre Barreto, disse que a complexidade da transação certamente demandaria o uso dos 240 dias previstos na legislação somados a uma prorrogação de mais 90 dias.

Para Victor Hasegawa, gestor da Infinity Asset, de qualquer forma, o Cade não deverá tomar uma decisão rápida apesar de, a princípio, não acreditar em remédios amargos do órgão antitruste.  “A situação da Oi era insustentável, seria muito pior deixar a Oi quebrar”, avalia Hasegawa, reiterando ainda que o leilão não teve concorrência.

Enquanto que, para Vivo e Claro a aquisição, apesar de importante, não foi tão representativa quanto para a TIM, o que acabou sendo mais positivo foi a saída de um player que entregava um serviço de menor qualidade, que diminuía os preços e, dessa forma, impactava o setor como um todo.

No debate sobre quem deve sair ganhando ou perdendo, para o gestor, enquanto a expectativa é de melhora para as empresas, o consumidor pode sentir negativamente. “Para os clientes da Oi, tende a melhorar. Porém, quando houver uma maior consolidação do mercado, as empresas terão maior poder de preço sem um competidor no mercado”, avalia.

Já para Arthur Barrionuevo, ex-conselheiro do Cade e professor de economia na Fundação Getulio Vargas (FGV), o argumento de maior concentração não seria por si só um impeditivo para justificar a reprovação do fatiamento da Oi móvel, ainda mais levando em conta o contexto em que a companhia está inserida.

“Em tese, um grau de concentração mais alto implica em diminuir a concorrência. Só que a Oi é uma empresa em recuperação judicial, com poucos recursos para investir e que pode sucumbir e sair do mercado de qualquer forma”, destacou o professor.

Claudia Viegas, diretora de regulação da consultoria LCA, destacou à Agência Estado ver o cenário de concentração como um desdobramento natural para garantir a sobrevivência das operadoras e afirma que isso não é sinônimo de malefícios ou maiores preços para os consumidores. “O importante é a capacidade de rivalizar”, apontou.

A diretora afirma que a disputa pelos consumidores vai continuar, mesmo que restem três competidores. “Na telefonia móvel, não tem uma explosão de demanda que gere pressão por aumento nos preços de planos. Pelo contrário. A regra ainda é baratear os preços ao máximo para conquistar os consumidores”, diz.

Juarez Quadros, por sua vez, destacou à agência ter uma visão mais cautelosa. “O consumidor poderia ser beneficiado, porque as empresas vão ganhar escala e investir mais em inovação e qualidade”, diz. “Por outro lado, precisamos ver como fica a estratégia comercial. O consumidor pode não ser prestigiado nas ofertas de pacotes e sofrer algum aumento de preços.”

De qualquer forma, as companhias têm obrigações de cobertura e qualidade impostas pela Anatel, o que ajuda a minimizar os efeitos da concentração do mercado. Na última década, o órgão regulador tem sido como bastante atuante em um cenário de popularização da telefonia móvel no país.

Além disso, o Brasil deve seguir o rumo das maiores economias do mundo, com três operadoras. “A tendência de consolidação desse mercado é natural, tendo em vista as necessidades das empresas para ganho de escala e eficiência”, disse Juarez Quadros à agência.

Recomendações para o setor

Na semana passada, às vésperas do leilão da Oi móvel, o Bradesco BBI havia reiterado a visão positiva com as empresas de telecomunicações destacando, além dos gatilhos de curto prazo, como a venda feita pela companhia na véspera, os valuations atrativos dos ativos e a perspectiva de  competição mais racional. Os analistas reforçaram recomendação de compra para a OIBR3 (que reforçaram como a preferida do setor) com preço-alvo de R$ 3,40.

Mas, além disso, também possuem recomendação de compra para o papel TIMS3, com preço-alvo de R$ 19,50, destacando também o potencial com a compra da fatia da Oi Móvel. Já para a Vivo, a recomendação é neutra, com preço-alvo para o papel VIVT3 de R$ 61. A visão, apontam os analistas, é otimista, mas o posicionamento é devido à preferência relativa de outros nomes no setor de telecomunicações (como os dois citados anteriormente).

O Safra, por sua vez, avalia que a TIM deve ser a empresa mais beneficiada pelo movimento de compra de parte da Oi Móvel, em consequência da relevância do segmento nos seus resultados – ela tem mais de 94% de sua receita no negócio de telefonia móvel, contra 65% da Vivo.

“Ou seja, supondo que a Oi Móvel tenha cerca de R$ 7,2 bilhões em receitas por ano, a TIM deve agregar com a aquisição em torno R$ 2,9 bilhões em receitas (17% de sua receita líquida atual)”, apontam os analistas do banco. Já a Telefônica Brasil (VIVT3), dona da Vivo, considerando a adição de 10,5 milhões de clientes, pode acrescentar R$ 2,1 bilhões em receitas (5% de aumento sobre a receita total).

TIM e Telefônica devem financiar a aquisição com emissão de dívidas, já que ambas as empresas têm alavancagem muito baixa, e com seu próprio fluxo de caixa, apontam. O Safra mantém a recomendação de compra para TIMS3, com preço-alvo de R$ 19,00, e para VIVT3, com preço-alvo de R$ 56,00.

(com Agência Estado)

Colaboração: Priscila Yazbek

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