SÃO PAULO – A fabricante de bebidas Ambev ABEV3) viu seu lucro líquido desabar 51,4% no segundo trimestre quando comparado com um ano antes, para R$ 1,27 bilhão. Mas o que realmente surpreendeu no balanço foi o volume de cerveja no Brasil, que acabou ofuscando este desempenho final e até animando os analistas.

Neste segmento, a empresa registrou uma queda de apenas 1,6% nas vendas, sendo que o mercado projetava um recuo entre 15% e 25%, indicando que a companhia tem conseguido se ajustar ao novo cenário da pandemia ao focar sua estratégia de vendas para supermercados e para o consumidor final diretamente.

Apesar disso, nem todos os analistas se convenceram de que a Ambev realmente deixou para trás os problemas da crise atual. Para Betina Roxo, analista da XP Investimentos, a recomendação segue neutra para as ações pois a expectativa é que as margens permaneçam pressionadas, juntamente com um ambiente econômico e competitivo ainda desafiador.

Já para o analista Leandro Fontanesi, do Bradesco BBI, apesar dos forte volumes de cerveja, ele prefere ter uma “maior clareza” sobre os fatores responsáveis por esta melhora no segmento. Segundo ele, é importante saber se o que levou ao aumento são fatores permanentes ou não, como influência de subsídios do governo ou concorrência mais fraca.

E se de um lado houve essa surpresa positiva, outros números não tiveram tanta força. Além do lucro que caiu pela metade, o Ebitda (sigla em inglês para lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado da Ambev caiu 28,6%, a R$ 3,348 bilhões, ficando praticamente em linha com as expectativas. A receita líquida, por sua vez, teve queda de 4,36%, passando de R$ 12,145 bilhões para R$ 11,615 bilhões.

Apesar disso, para a equipe de analistas do Morgan Stanley, a melhora no volume é um fator mais importante que a receita ou o Ebitda neste momento.

Eles destacam que os volumes consolidados caíram 9% no segundo trimestre, sem uma grande piora diante do desempenho negativo de 6% nos três primeiros meses do ano. Diante disso, o Morgan aponta que, enquanto houve uma queda de 27% nos volumes em abril, nos dois meses seguintes ocorreu uma boa recuperação. Em maio os volumes caíram apenas 7% e em junho cresceram 5%.

Por outro lado, no segmento brasileiro de bebidas não-alcoólicas (NAB), o volume caiu 13%, ficando em linha com as projeções, com o ponto negativo sendo a queda de 15% nos preços. “O volume de NAB da Ambev foi impactado pela mudança nas ocasiões de consumo devido às restrições da Covid-19, e a receita líquida por hectolitro foi prejudicada por mudanças desfavoráveis de canal, marca e mix de embalagens”, explica a XP.

Momento desafiador

Em teleconferência para analistas, Jean Jereissati Neto, presidente da companhia, afirmou que o segundo trimestre foi o pior período da história da empresa.

“Os consumidores estão mudando os hábitos de consumo, estão demandando mais conveniência e mais entretenimento. Estão bebendo mais sozinhos em casa. Mas conseguimos mostrar resiliência e responder rápido aos desafios do mercado”, disse ele.

Entre os seguimentos, Jereissati Neto afirmou que as marcas premium globais, como Budweiser e Stella Artois, tiveram crescimento de dois dígitos, enquanto a venda de marcas premium locais, como a Original, teve queda de dois dígitos, por causa do fechamento de bares e restaurantes.

Durante a apresentação, os executivos da empresa também explicaram a maior pressão nas margens por conta de uma mudança no perfil de consumo, que passou das garrafas para as famosas latinhas, segmento que a Ambev precisou reforçar a produção.

No cenário da pandemia, os consumidores deixaram de comprar as garrafas retornáveis, comuns em bares e restaurantes, pela cerveja em lata dos supermercados. Segundo Jereissati Neto, as vendas neste tipo de varejo representaram 70% do total vendido no segundo trimestre, contra 40% um ano atrás.

Diante disso, o diretor financeiro e de relações com investidores da Ambev, Lucas Lira, ressaltou que a cerveja em lata tem um custo mais alto do que a de garrafa, o que ajudou a pressionar a margem bruta da empresa entre abril e junho.

Melhora precisa ser comprovada

Diante dos números mistos e com a positiva surpresa do volume de cerveja no Brasil, analistas viram o resultado como bom. Apesar disso, ressaltaram que o momento é de cautela e que a Ambev ainda precisa comprovar que esta melhora não foi apenas algo pontual.

Para Morgan Stanley e Itaú BBA, os números divulgados hoje atenuam algumas das preocupações do mercado, apesar das margens ainda se mostrarem mais pressionadas.

O Morgan destaca que os papéis ABEV3 tiveram um desempenho bem abaixo do Ibovespa desde o início da crise em março e que, para eles, parte disso se deu pela falta de visibilidade sobre os impactos da pandemia no segundo trimestre da empresa, e por isso o balanço deve ser positivo para as ações no curto prazo.

Já o Bradesco BBI ressalta que “ganhos sustentáveis ​​de participação de mercado poderiam gerar discussões positivas sobre maior poder de precificação [para a Ambev], o que permitiria à empresa recuperar as margens em declínio no futuro”.

O Credit Suisse, por sua vez, se mostrou bastante otimista e elevou a recomendação das ações da Ambev para outperform (desempenho acima da média do mercado) após o resultado.

Eles explicam que após o forte resultado da Heineken, divulgado em 16 de julho, boa parte dos investidores teve uma leitura de que a empresa estava ganhando participação da Ambev, levando a uma queda das ações.

“O resultado do segundo trimestre da Ambev mostrou que um balanço forte faz a diferença em momentos de crise e que a companhia soube navegar muito bem por meses especialmente difíceis”, disse a equipe do banco em relatório.

“A somatória de forte balanço, aumento de proximidade com os clientes off-trade e um competidor com dificuldades se mostrou positiva para a empresa. Os volumes de cerveja caíram somente 1,6% no segundo trimestre e a empresa conseguiu se reinventar com iniciativas digitais bastante assertivas e fabricas rodando com capacidade total”, apontaram os analistas.

Estas avaliações parecem ter se refletido nas ações. Nesta quinta-feira (30), os papéis da companhia abriram com alta de 5%, em meio aos números positivos, mas viraram para queda de mais de 2%. Além das avaliações mistas e do clima ainda de cautela, este movimento também seguiu o dia de pior humor na Bolsa em geral. A Ambev trouxe boas surpresas em seu balanço, mas a maior parte dos analistas ainda prefere esperar mais para ver a atuação da companhia – as primeiras indicações foram positivas.

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