SÃO PAULO – Ao que tudo indica, o ano que vem será marcado pelas vacinas contra o coronavírus, pela retomada da economia global e pela continuidade dos juros baixos por ainda algum tempo. Este contexto, na avaliação da equipe de análise da XP Investimentos, é muito propício para a Bolsa, de modo que o Ibovespa, principal índice acionário da B3, deverá encerrar 2021 em 130 mil pontos.

Em relatório, Fernando Ferreira, estrategista-chefe da XP, e Marcella Ungaretti, analista ESG da corretora, escreveram que as vacinas já aprovadas em fase 3 podem trazer alguma normalidade de volta ao mundo.

Ao mesmo tempo, a recuperação da economia global deve seguir forte ancorada principalmente na política monetária expansionista dos bancos centrais.

Já o fluxo de recursos dos investidores estrangeiros para ativos de mercados emergentes visto em novembro deve permanecer em meio aos maiores apetite por risco e disponibilidade de capital em contraste com a baixa rentabilidade dos títulos lá fora.

“De uma perspectiva macro, estamos com uma visão construtiva para a economia global em 2021 e também para a brasileira. Espera-se que a economia global cresça 5,2%, liderada pela Ásia (+7%), enquanto os Estados Unidos devem crescer 3,1%, a Europa 5,2% e a América Latina 3,6% (segundo o FMI). Nossa equipe espera que o Brasil cresça 3,4%, se recuperando parcialmente do declínio esperado de 4,4% em 2020”, escrevem os analistas da XP.

Ao longo do ano de 2020, bancos centrais do mundo todo anunciaram US$ 20 trilhões em estímulos fiscais e monetários, o que representa 23% do Produto Interno Bruto (PIB) global. Há hoje US$ 17 trilhões em títulos com juro abaixo de zero dentro deste contexto de estimular o consumo, e países como os Estados Unidos já se articulam para aprovar mais estímulos.

Com tanto dinheiro disponível e em um contexto de moedas de países da América Latina ainda muito depreciadas, o cenário para investimentos em ativos de países como o Brasil parece bastante promissor, refletem os analistas da XP.

“Grandes empresas de investimento e grandes fundos precisam fugir da renda fixa. Com as vacinas funcionando, os mercados emergentes estão bem posicionados para receber esse dinheiro que vai ao encontro de maior risco para obter um retorno melhor”, explicou Ferreira em coletiva de imprensa.

Além disso, com a retirada do auxílio emergencial após o fim de 2020, a política monetária será obrigada a sustentar o crescimento da economia combalida pela pandemia de coronavírus, defendeu em coletiva de imprensa Caio Megale, economista-chefe da XP Investimentos.

De acordo com Megale, é muito arriscado “tirar o pé” do fiscal e do monetário ao mesmo tempo, então o Banco Central terá que ter “sangue frio” para assistir a esse choque da inflação que levou o Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) a 4,31% no acumulado de 2020, segundo informou nesta terça-feira (8) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Vale lembrar que atualmente o centro da meta de inflação do BC é de 4% ao ano.

Para o economista, não há risco  de descontrole inflacionário, pois o aumento no nível de preços resulta de choques de curto prazo como a forte depreciação do real durante a pandemia e o aumento das tarifas de energia recém anunciado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), que deve impactar a inflação de dezembro, mas tirar pressão do IPCA em 2021.

Nesse cenário, Megale projeta que os juros se manterão no patamar atual, de 2% ao ano, até o fim do primeiro semestre. Uma vez que a economia esteja em uma situação normalizada e a falta do auxílio emergencial tenha sido compensada pela retomada dos setores que ficaram parados por conta do isolamento social, o BC poderá elevar os juros. O economista espera que a Selic encerre 2021 em 3% ao ano.

Por fim, um outro motivo para acreditar em uma recuperação mais forte da economia no ano que vem é que a poupança das famílias se expandiu muito em 2020. A diferença entre a poupança e o consumo chegou a R$ 54,3 bilhões em setembro, de modo que esse dinheiro que não foi gasto deve sustentar o consumo daqui para frente em um contexto de queda do auxílio emergencial.

Os 130 mil pontos

O valor justo projetado pelos analistas da XP para o Ibovespa ao fim do ano que vem é de 130 mil pontos, o que representa um retorno potencial de 14% em relação ao fechamento do índice na sessão de terça-feira (8). Vale ressaltar que o maior valor já assumido pelo benchmark foi de 119.593 pontos durante o pregão do dia 24 de janeiro deste ano.

Ferreira acredita que o crescimento da economia deva impulsionar de maneira relevante o lucro das empresas em 2021. “Continuamos gostando do tema varejo no Brasil”, destaca.

A XP recentemente trocou a ação da Vivara (VIVA3) por C&A (CEAB3) e Locaweb (LWSA3) por Ambev (ABEV3) na sua carteira recomendada com ajuste mensal.

No primeiro caso porque a maior elasticidade da demanda por vestuário permite que as ações de empresas do setor tenham desempenho superior em meio às notícias de volta à normalidade, com shoppings abertos e pessoas voltando a circular livremente.

Já no segundo, a Ambev teria um momento de curto prazo mais favorável porque a empresa mostrou sua capacidade de adaptar a estratégia comercial e de distribuição em meio a uma pandemia global. “Poucos mostraram a mesma resiliência em 2020 e vários players menores foram fragilizados pela pandemia.”

A carteira Top 10 da XP de ações que podem ter um desempenho acima do Ibovespa no médio prazo é composta pelos seguintes ativos atualmente:

Empresa Ticker Preço-alvo Upside esperado*
B3 B3SA3 R$ 65,00 11,84%
Banco do Brasil BBAS3 R$ 43,00 17,94%
Gerdau GGBR4 R$ 25,00 8,37%
Omega OMGE3 R$ 50,00 33,98%
Ambev ABEV3 R$ 17,15 13,95%
Tenda TEND3 R$ 37,20 23,92%
Petrobras PETR4 R$ 32,00 20,03%
Vale VALE3 R$ 86,00 3,74%
C&A CEAB3 R$ 15,00 13,12%
Via Varejo VVAR3 R$ 28,00 58,19%

*Tomando como base a cotação de fechamento desta terça-feira (8)

Os riscos, por outro lado, envolvem atrasos nos processos de aprovação das vacinas e na produção das bilhões de doses necessárias para imunizar o mundo todo.

Também no radar, a equipe da XP lembra que os investidores devem ficar atentos a um superaquecimento nos preços de ativos no próximo ano com potencial geração de bolhas devido ao excesso de dinheiro em circulação, que leva muitos investidores a comprarem ações.

O último risco é o velho problema fiscal brasileiro. “O país vai emergir dessa crise altamente endividado e ainda com um grande déficit orçamentário anual. Até mesmo na ausência de um novo (ou maior) programa social, cumprir o limite máximo de gastos em 2021 será um desafio”, comentam os analistas da XP.

No entanto, Richard Back, analista da XP Política, ressalta que ao menos os temores de rompimento do teto de gastos não devem se concretizar no ano que vem. “A tese de derrubar o teto não tem maioria nem dentro do governo nem no Congresso. Para a política é conveniente manter o teto em março, redirecionando os recursos”, apontou em coletiva.

Back diz que os principais temas da política nas próximas semanas são as eleições para presidente da Câmara dos Deputados e do Senado, e todos os candidatos com viabilidade são sensíveis à pauta de ajuste fiscal.

“Os nomes dos postulantes na Câmara e no Senado têm afinidade com a ideia do ministro Paulo Guedes, tanto os apoiados pelo atual presidente da Câmara, [Rodrigo Maia (DEM-RJ)], quanto o Arthur Lira (PP-AL), apoiado pelo [presidente, Jair] Bolsonaro. A grande agenda econômica deve continuar andando”, conclui.

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